Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Economia

Piorou depois que melhorou; e vale voltar para ir para frente

Promessa de aumento de PIB que agora ganha força na região com a exploração indiscriminada de lítio, insumo para a produção de baterias para carros elétricos

Publicado em 26 de Junho de 2025 às 04:00

Públicado em 

26 jun 2025 às 04:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

A primeira citação é direta e retrata a simplicidade de quem a formulou na tentativa de explicar o que acontece desde sempre no território que ocupa no Vale do Jequitinhonha. No entendimento dessa pessoa dotada de sabedoria popular, quando aparece alguma oportunidade econômica para sua região que aumenta o seu Produto Interno Bruto (PIB), piora a qualidade de vida socioambiental.
Melhorou o PIB quando se implantou a monocultura do eucalipto, mas piorou o FIB (felicidade interna bruta). Seja essa felicidade advinda de valores culturais construídos através de colaboração entre saberes de povos originários, de escravizados e de invasores portugueses; seja ela resultado da maior interação entre seres humanos e a natureza que os circunda.
Promessa de aumento de PIB que agora ganha força na região com a exploração indiscriminada de lítio, insumo para a produção de baterias para carros elétricos. Indiscriminada porque se a reserva do mineral estiver em áreas ocupadas por quilombolas, reservas naturais ou outro tipo qualquer de atividade, vale o direito adquirido de exploração do subsolo.
O que fica depois da extração do mineral é devastação pura. Seja da terra antes utilizada para produção de alimentos; seja da cultura calcada em valores socioambientais; seja de cursos d’água desaparecidos ou contaminados. Cinicamente uma das principais exploradoras de lítio (a Sigma Lithium) e a Prefeitura de Araçuaí fixaram na beira da convergência dos rios Jequitinhonha e Araçuaí uma placa solicitando que quem visite o local preserve a natureza.
A forma como a grande maioria dos habitantes de diversos territórios que compõem o Vale do Jequitinhonha reage é com a histórica resiliência que caracteriza a ação política de quem por lá mora há muito. Resiliência que superou o extermínio quase total de nativos; a escravização de africanos e descendentes; e a devastação por exploração de ouro, diamante e outras pedras preciosas. Resiliência de quem professa que se é difícil preservar o rio que se busque proteger o olho d’água; de quem acredita que vale voltar para ir para frente.
E é assim que redes de colaboração se ampliam e vão sendo tecidas entre produtoras e produtores das mais genuínas formas de fazer arte que se contrapõe à cultura da dominação política e econômica. São guardiãs de semente, plantadores de algodão, fiadeiras, produtores de tambores, artistas que trabalham com fios de algodão, palhas de milho, de cores diversas ou naturalmente coloridas com cascas de árvores e sementes, entre outras.
Muito dinheiro, cédulas
Promessa de aumento de PIB que agora ganha força na região com a exploração indiscriminada de lítio Crédito: Shutterstock
Tudo feito com muito trabalho e operação em conjunto (colaboração e cooperação, respectivamente). Muito feito em espaços construídos para uso compartilhado (coworking na linguagem da moda); muito que acontece em encontros para compartilhamento de saberes e fazeres. Tudo feito com muita poesia, música, cantoria, dança e com mesa farta de comidas e bebidas.
Tudo resultado de um saber enraizado em séculos de discriminação pelos poderes constituídos e pela cultura dominante, mas que ganha novos protagonistas que ali veem possibilidades de ações portadores de futuro. Gente que dali saiu e que volta; gente que para lá foi e nunca mais saiu.
Gente atuando em organizações da sociedade civil e em instituições governamentais (como universidades e institutos federais). Pessoas com conhecimentos científicos e técnicos e que entendem o quanto podem ir além na sustentabilidade socioambiental se recorrerem a saberes tradicionais.
Análises simples como a do ‘piorou depois que melhorou’ e a do ‘voltar para ir para frente’ podem servir de olhos d’água em um ambiente majoritariamente tóxico de exploração entre humanos, e desses da natureza. Mesmo que os grandes cursos continuem sendo agredidos pela ganância sem limites de poucos, olhos d’água de acreditar em um outro mundo possível é uma alternativa para afastar as distopias do dia a dia.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Turistas ficaram em topo do morro
Operação policial no Rio deixa turistas 'ilhados' no Morro Dois Irmãos
Quarto onde mulher foi mantida refém em Vila Velha
Casal é preso por manter mulher de 37 anos em cárcere privado em Itapuã
Salário, renda, dinheiro, real, cem reais, economia, pagamento
Profissionalismo na gestão pública: foco é dever institucional

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados