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Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

Quando a viola traduz o violeiro

"Alma e coração" (Kuarup), o 26° CD de Chico Lobo, traz uso de instrumentos inusuais nas cantigas rurais

Publicado em 12/01/2021 às 15h05
Atualizado em 12/01/2021 às 15h05
"Alma e coração" (Kuarup), o 26º CD de Chico Lobo, traz uso de instrumentos inusuais nas cantigas rurais. Crédito: Divulgação

Ao receber "Alma e coração" (Kuarup), o 26º CD de Chico Lobo, um dos maiores violeiros que há em nossa terra, lembrei-me de que já comentara o seu 7º álbum – isso lá pelos idos de 2011. Lembrei-me, também, de que, logo na abertura da resenha, eu escrevera dois parágrafos que me contentaram, apesar das rimas pobres.

Ei-los: “O menino caipira de São João Del Rei tocava por lá sua viola de dez cordas, desde a noite até o sol raiar. Saiu para o mundo, a viver e criar. Levava na mala as modas e o seu dedilhar. Carregava no peito o jeitão da terra e o seu linguajar. Dos dedos das mãos seus sons saíram a voar. Tome de cantar e violar. E tome de ser do sol e da lua, do mato e do mar. Sem eira nem beira, a navegar, foi ao mundo o violeiro. Sua viola, de uma fidelidade exemplar. Sempre ao seu lado, sem dele jamais desgrudar, fez-se de seus braços acessório, para o caipira melhor violar.”

A moda “Sertão” (Chico Lobo) abre os trabalhos do novo álbum. Na intro, a viola de Lobo se ajunta ao violão de cordas de aço e deixam no ar o som univitelino de seus instrumentos. O duo vocal de Ruly Ballmant e Chico Lobo mostra a cara.

Assim como o baixo e o teclado (Ricardo Gomes), o violão com cordas de aço (Marcelo Sylvah) e a batera (Léo Pires) têm participações marcantes. Sim, pois quase todos são instrumentos inusuais nas cantigas rurais – o que, de cara, mostra uma atual variante instrumental e composicional de Lobo.

“Sagrado em Meu Olhar” (CL) é solada por Drigo Ribeiro que, junto com Lobo, canta em terças. Ouve-se um weisseborn – instrumento de seis cordas como um violão, só que com a caixa na horizontal (no caso, posta no colo de Drigo Ribeiro).

Novamente o arranjo reforça a inovada levada da música interiorana. “Caminhos de João”, parceria de CL com o poeta da Amazônia Joãozinho Gomes, é uma toada inspirada em Guimarães Rosa. Enquanto canta os belos versos, Lobo ponteia a viola.

Numa levada cadenciada, “Sim” (CL) reinventa a esperança de Chico Lobo quanto ao futuro da vida em meio à pandemia. A batera segura as viradas, enquanto a voz de Lobo apresenta seu sonho de reinventar o futuro.

“Só” (CL) vem pela voz de Roberta Campos. Ad libtum, o dueto amoroso com Lobo é lindo. Sua voz é doce e os versos saem macios de sua alma. A balada é forte.

A tampa fecha com “Quadras”, uma parceria de Lobo com Simone Guimarães. O acordeom de Sérgio Saraiva comanda a toada. Junto com ele, a viola traz a moda de viola para o proscênio. Lobo se deixa seduzir pelos versos da boa poetisa Simone Guimarães: “(...) Passarinho não vende a asa/ Porque ela lhe faz voar/ O homem que vende sua honra/ Não chega a nenhum lugar (...)”

A força dos violeiros e das modas de viola vêm do interior, trazendo no peito a chama da tradição. Tratando-a com carinho, o violeiro recompõe alguns caminhos musicalmente históricos, acrescentando-lhes novas reflexões. Louvando seus avoengos, seguirão madrugando sua gente, desde o primeiro raio da alvorada.

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