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Política

Sugestões para um 'SOS Brasil' com a participação de governadores

Se a inflação não for contida, perdem todos. Se o PIB voltar a cair, perdem todos. Se a sensação de insegurança não for combatida, perdem todos. E crescem, na sociedade, as opções do tipo antissistema

Públicado em 

15 mar 2025 às 01:30
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

No epicentro do poder nacional, a Praça dos Três Poderes, em Brasília, joga um jogo de soma zero neste início do ano político de 2025. Só se enxerga as eleições de 2026.
A antecipação da sucessão presidencial de 2026 interdita a possibilidade de construção de consenso mínimo para atravessar o Rubicão de 2025, até as proximidades de abril/junho de 2026. Sim, temos um Rubicão a atravessar em 2025.
O sistema político e a institucionalidade em vigor não estão conseguindo tratar das prioridades da população. A violência, a criminalidade e a inflação no topo da ordem de prioridades.
Uma certa miopia política denota carência de lideranças nacionais no Brasil. Sem contar que os nossos grandes oráculos estão em minoria crescente. O ex-presidente José Sarney, ele próprio da estirpe dos oráculos em extinção no país, registrou outro dia carência de lideranças.
Convivemos, também, com a fragilidade do atual bloco no poder. A instituição Presidência da República perdeu capacidade política e simbólica. O presidente Lula não controla a agenda do país e perdeu popularidade. E o governo Lula está em processo de desaprovação e de perda de base política no Congresso.
Nesse contexto, é de se chamar a atenção para uma certa omissão dos governadores e dos congressistas em relação aos recorrentes problemas nacionais e no que diz respeito à ausência de uma agenda para o Brasil. Inclusive a agenda da sua (Brasil) institucionalidade.
É preciso superar o foco apenas regional, no caso dos governadores, e o foco apenas no varejo das emendas e da luta política antecipada de 2026, no caso dos congressistas.
Se a inflação não for contida, perdem todos. Se o PIB voltar a cair, perdem todos. Se a sensação de insegurança não for combatida, perdem todos. E crescem, na sociedade, as opções do tipo antissistema.
O presidente Lula tenta melhorar a articulação política com o Congresso, com a nova ministra Gleisi Hoffmann.
Mas é também urgente nova articulação de governadores. Tanto com iniciativas do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) e do Consórcio dos Governadores do Nordeste, quanto com iniciativas do próprio Lula.
Renato Casagrande, Governador do Espiríto Santo
Renato Casagrande, Governador do Espiríto Santo Crédito: Ricardo Medeiros
Trata-se de convocar o pacto federativo para a tarefa de um mutirão pelo Brasil. Não é figura de retórica. Tratar da PEC da Segurança Pública. Tratar do debate do ensino profissionalizante, para os estudantes saiam do ensino médio com uma profissão. Tratar da inflação e da qualidade dos gastos públicos.
E pactuar um programa nacional integrado de investimento em infraestrutura, em parceria do governo federal com os governos estaduais. A exemplo do que está sendo tratado pelo Ministério dos Transportes e pelo Governo do Espírito Santo no caso da BR 262: investimentos em parceria público-público.
Desde 2018 a safra de governadores mostra uma relevante renovação política. E uma crescente popularidade dos governadores.
A renovação não está vindo do Congresso Nacional. A partidocracia das emendas, versão século XXI do coronelismo da República Velha de 1889-1930, não está produzindo novas lideranças de nível nacional. Nossos políticos estão focados em suas localidades e redutos.
Agora no governo Lula 3, está cada vez mais clara a importância dos governadores e prefeitos de grandes cidades na mediação política e na articulação da governança e da governabilidade no país.
A partidocracia das emendas teve o efeito bumerangue de fortalecer a estadualização da política. Jorram emendas nos municípios, criam bases locais e elegem deputados federais para fortalecer o fundo partidário e o fundo eleitoral.
Assim, são os governadores os líderes estaduais que conseguem aglutinar a anarquia da fragmentação partidária e dão algum sentido à formação de opinião, no ambiente de cacofonia das redes sociais.
A articulação política nacional para atravessar o Rubicão de 2025 e fazer um mutirão por uma agenda (segurança/inflação/ensino média/infraestrutura) precisa reunir governadores, presidentes da Câmara e do Senado e presidente da República.
Foco numa agenda conjunta pactuada e “cessar-fogo” até dezembro de 2025.
Um SOS Brasil.
Depois, o debate das eleições de 2026 vai precisar encarar o fato de que o nosso sistema político não é mais capaz de prover soluções para o país - e clama por nova institucionalidade advinda de novas reformas políticas... em 2027.

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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