Lula corre contra o tempo para reconquistar capital simbólico: prestígio acumulado pela representação legítima das aspirações predominantes da sociedade.
Ele está diante do aumento contínuo da desaprovação ao governo Lula. Que pode tornar-se irreversível se continuar nessa toada. Há perda contínua de capital simbólico, capital político e capital social.
É hora de um freio de arrumação e uma chacoalhada no governo e na agenda. As respostas, reações e novas medidas e ações não podem ser pontuais e desarticuladas.
Reitero mais uma vez: é preciso pactuar uma agenda mínima com o Congresso e com os governadores. Uma reforma ministerial acanhada e uma “nova marca” fabricada pelo marketing não resolvem o problema.
A equação do problema é mais complexa. O presidente Lula está diante do desafio de enfrentar a solução de um trinômio. Esse trinômio é formado pelos vértices da governabilidade; da governança; e das expectativas. Vértices dialeticamente imbricados.
A governabilidade depende da formação de uma espécie de nova Frente Ampla que possa ter capacidade política de realizar mudanças e fazer entregas para a população. Sem mudanças e entregas não será possível mudar a percepção dos brasileiros. É crescente a rejeição ao lulopetismo.
A distância entre a ação do governo e as percepções do povo é o busílis. Que não se resolve apenas com melhoria na comunicação. Todos já sabemos disso.
Já a governança depende de uma reforma ministerial, para início de conversa. Mas depende também de uma chacoalhada no governo. É preciso governar o governo.
Começando pela definição de uma agenda mínima. É preciso criar um núcleo duro de governo que seja ouvido pelo presidente. É preciso acelerar a reforma do RH do governo. E é preciso acelerar o trabalho de melhoria da qualidade dos gastos.
O governo brasileiro mantém sérios entraves e “gargalos” no processo decisório e no arcabouço institucional das regras de governança – inclusive a proliferação de órgãos de controle e fiscalização que não conversam entre si e que produzem um cipoal de mecanismos concorrentes e paralelos de controle. Para controlar o Leviatã, produziu-se no Brasil um novo Leviatã.
Os desafios fiscais do Brasil têm raízes estruturais. O nosso patrimonialismo está encrustado no Orçamento Geral da União. Sabemos que a “Nova República” da Constituição de 1988 institucionalizou conquistas democráticas, estabilidade econômica e inclusão social.
Mas sabemos também que a democracia brasileira foi sobrecarregada de obrigações e deu passagem à organização e aceitação de demandas e interesses dos mais diversos setores sociais, que geraram direitos legítimos, mas também privilégios adquiridos.
Ampliou-se o inchaço do Leviatã. O Estado não cabe no PIB. Diminuiu-se a capacidade de entrega do Estado e do governo. Por isso, é preciso governar o governo.
E aí vem o terceiro vértice do trinômio. Refiro-me às expectativas econômicas e políticas. Que estão desancoradas. É essa desancoragem que explica, em parte, a distância entre ações do governo e percepção da sociedade.
A ancoragem das expectativas econômicas, também já constatamos todos, passa pela contenção da inflação e pela melhoria da qualidade dos gastos e contenção da dívida pública. Sem essa ancoragem, não se consegue melhorar a taxa de investimentos privados e a manutenção da curva de crescimento do PIB.
A ancoragem das expectativas políticas passa pela pactuação democrática, já em curso, para equacionar o problema das emendas parlamentares. Passa, mais ainda, pela melhoria da articulação política do governo e por um acordo de governabilidade até as eleições de 2026.
Esse acordo, envolvendo o Congresso e os governadores, tem um nome: agenda mínima. Para chegar a 2026.
Eleição e sucessão presidencial é assunto para o final de 2025. Antes é preciso chegar lá, em dezembro. Estamos entrando em março e o Orçamento Geral da União ainda vai ser votado. Paralisia decisória a esta altura do campeonato. Jogo de soma zero.
O momento do país é muito difícil e intrincado. O governo está isolado e sem comando da agenda do país. É preciso atravessar o Rubicão. O Rubicão é 2025. Mas as lideranças e forças políticas só olham para 2026. Cacofonia e individualismo.
O problema da inflação é grave, mas não é única causa de tudo.
A questão da percepção da sociedade tem também a ver com a aceleração da cosmovisão liberal social no Brasil. Novo espírito do tempo, que nasceu lá atrás, em 2013.
Vem daí o imperativo de formação de uma “nova” (?) Frente Ampla. Ainda é possível? Com a palavra o presidente Lula, o Congresso e os governadores.
Tal como está até aqui, o governo Lula está desconectado da maioria da sociedade brasileira. Em processo crescente de perda do comando da agenda do país.
Jogo de soma zero.