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Política

Reforma tributária e pacto federativo: nem tirania da maioria, nem veto da minoria

A Federação, velho pilar do edifício político brasileiro, volta a ser talvez o principal componente, nesta quadra brasileira, de um esforço para criar âncoras políticas e acumular condições estáveis de governabilidade

Publicado em 08 de Julho de 2023 às 00:10

Públicado em 

08 jul 2023 às 00:10
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Governador Renato Casagrande se encontrou com Arthur Lira para tratar da Reforma Tributária
Renato Casagrande (à dir.) reunido com Arthur Lira para tratar da reforma tributária Crédito: Giovani Pagotto / Governo ES
Finalmente, a reforma tributária, esperada e tentada por mais de 35 anos. Ela só foi possível porque uma intensa articulação política resultou na prevalência da regra de ouro de José Alencar para a justiça federativa e para o funcionamento do Parlamento: inexistência de tirania da maioria; inexistência de veto da minoria. Prevaleceu o equilíbrio. Através do mote simbólico de que se trata de um projeto de país.
Com a reforma, pode se tornar possível superar um problema brasileiro grave. Refiro-me ao nosso círculo vicioso de voos de galinha no crescimento econômico. Refiro-me também ao problema (siamês) da endêmica produtividade baixa no país. A produtividade, como se sabe, é o coração do crescimento.
Desta vez, ao contrário das anteriores, a reforma conseguiu articular flexibilidade para acomodar o pacto federativo, com uma costura que permitiu caminhar sem a tirania da maioria, representada pela força de São Paulo, e ao mesmo tempo sem o veto da minoria, representado pelos estados do Norte e Nordeste.
A mesma flexibilidade angariou apoios setoriais cruciais, representados pelo empresariado em geral; pelo mercado financeiro; por economistas formadores de opinião; pela mídia; e por entidades da sociedade civil. A construção do consenso. Nesta direção do consenso, foi determinante a atuação do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). Sua tese da defesa do interesse do país e sua estocada elegante e sutil no ex-presidente Bolsonaro foram emblemáticas.
No caso do pacto federativo e da justiça federativa, foram exemplares as atuações dos governadores de São Paulo, Tarcisio Freitas (Republicanos); do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL); do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB); e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) – apesar da resistência do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil).
Em especial, Tarcisio Freitas estreou muito bem na arena política de articulações e negociações de relevância nacional. Ainda mais porque ele inaugura a possibilidade da ascensão nacional da chamada direita “civilizada”. E também porque São Paulo foi um obstáculo às tentativas anteriores. A tirania da maioria alencariana. Desta vez, não.
Em especial, também, Renato Casagrande exerceu a sua longa experiência regional e nacional. Representante de um estado pequeno, que já foi tido como “Nordeste sem Sudene”, Casagrande movimentou-se com habilidade para impedir o veto da minoria alencariano – mesmo sendo de um estado que ainda se vale da existência de incentivos fiscais, que serão extintos depois de 1932 com a prevalência do novo sistema tributário.
Essa performance dos líderes regionais, num contexto de equilíbrio federativo, nos permite antever o fortalecimento da Federação. A reforma tributária abre alas para a passagem de um novo pacto federativo.
A Federação, velho pilar do edifício político brasileiro, volta a ser talvez o principal componente, nesta quadra brasileira, de um esforço para criar âncoras políticas e acumular condições estáveis de governabilidade. Os estados e municípios são instâncias de mediação política e implementação de políticas públicas.
E agora? Agora é o caminho da longa transição para o novo sistema tributário, em busca da melhoria da produtividade, do aumento da taxa de crescimento econômico e da diminuição das desigualdades regionais e sociais. Uma espécie de novo Plano Real.
De pronto, deverá se consolidar a tão esperada ancoragem das expectativas econômicas e políticas, premissas para o crescimento e a governabilidade.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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