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Política

Razões de votos e estadualização política nas eleições de 2026

Aqui entra a dimensão racional do voto. Quem entrega políticas públicas e melhorias nas cidades via emendas parlamentares conquista o voto do cidadão

Públicado em 

15 nov 2025 às 04:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

As rejeições políticas e a estadualização deverão ser as duas macrotendências das razões de votos nas eleições de 2026. Nesse contexto novo, a decisão final de voto do eleitor mediano não deverá deixar de ser uma espécie de “mix” entre o emocional e o racional. Razões e emoções. Pragmatismo e símbolos e esperanças. Tem sido assim.
E em 2026?
Olhando o panorama hoje visto da ponte, é possível tecer fatos, intuições e tendências.
A macrotendência da rejeição à política e aos políticos paira no ar. É um fenômeno cumulativo pelo menos desde 2013. Não é apenas um juízo e avaliação racional. É um acúmulo de frustrações, desilusões difusas, desesperança e desencanto.
Dá-se no plano simbólico do vácuo e da ausência de lideranças conectadas com a sociedade. Um clima político que perpassa as eleições e que aumenta as rejeições e desaprovações.
O efeito prático potencial é a alienação eleitoral (brancos, nulos, abstenções) e a fadiga de material dos líderes populistas.
A ausência de mitos e crenças que conectam líderes e sociedade e que fazem brotar a esperança e a luta pelo amanhã. Estão em falta mitos, crenças e líderes.
Quase como um corolário da macrotendência da rejeição e desaprovação, cresce na sociedade a busca pelo perfil político de líderes com experiência e capacidade de gestão. Esse fenômeno despontou claramente nas eleições de 2020 (prefeitos). Repetiu-se em 2024 (prefeitos). Deve se manifestar mais relevante em 2026.
Acopladas à busca da gestão e das entregas de serviços públicos estão duas outras tendências.
A rejeição e o cansaço com a polarização, convertida em preferência pelo Centro do espectro político, e também em crescimento gradual de cosmovisão liberal social. Rejeição dos extremos.
A outra tendência é a estadualização da política nos últimos anos, desde a pandemia da Covid-19. Fortalecendo a diástole política e a descentralização. Protagonismo para governadores, prefeitos e parlamentares — senadores, deputados federais e, em menor escala deputados estaduais —, com emendas parlamentares.
Aqui entra a dimensão racional do voto. Quem entrega políticas públicas e melhorias nas cidades via emendas parlamentares conquista o voto do cidadão.
Ainda na dimensão racional, se acoplam também os efeitos da política econômica, para o bem ou para o mal: inflação, emprego, renda, carestia de alimentos — sensação de bem-estar (emocional e simbólico) ligada à melhoria real na vida e cotidiano das pessoas. Ou não.
Nessa dimensão estadual, os governadores tendem a ter mais protagonismo na busca e conquista do voto do eleitor. Com suas redes territoriais/locais e lideranças locais. A verticalização da clientela e voto, com efeito maior nas candidaturas majoritárias — presidente, senador, governador.
Mas também com influência nas eleições de deputados federais. São os votos dos federais que definem o volume dos fundos partidário e eleitoral para cada partido político.
Campanha eleitoral, eleições, campanha política
Campanha eleitoral Crédito: Freepik
Vem daí a crescente influência dos chamados “CEOs de partidos”, com suas máquinas partidárias de fundos e emendas. A partidocracia brasileira. CEOs são os presidentes dos partidos.
E aí?
Para além da alienação, pode-se ver que haverá pressão eleitoral para a renovação — principalmente na Câmara Federal e no Senado da República. Só a renovação poderá diminuir a alienação. No plano dos deputados estaduais também há busca de renovação.
Tanto no plano federal quanto no plano estadual, os governadores e os CEOs de partidos políticos terão, agora mais ainda, influência nas escolhas das chapas para a formação de legendas competitivas. O alvo é mais renovação. E preservação dos fundos partidário e eleitoral.
As eleições gerais de 2026, é claro, terão dimensão nacional. Mas, a preços de hoje, não se vislumbra ainda a proverbial “nacionalização” das eleições, como, por exemplo, em 2002, em 2018 e também em 2022. A nacionalização das decisões e razões de votos deverão ser relativamente menores.
É forte a influência dos governadores bem avaliados. E são muitos. É forte também a influência dos prefeitos bem avaliados. E dos CEOs dos partidos.
É claro que a importância das redes sociais permanece relevante. As novas formas de comunicação vieram para ficar. Mas não deveremos repetir o fenômeno da supremacia das redes como em 2018. O eleitor está mais consciente da produção de narrativas contendo “fake news” e de promessas de influencers digitais promesseiros.
A sociedade está em busca da superação da sensação coletiva de decepção.
A fadiga de material das lideranças populistas é, ao mesmo tempo, real e simbólica, emocional e racional.
Haja “produção” de narrativas para derrotar/reverter a fadiga e gerar luz e esperança.
O país do futuro que não chega nunca. É esse o sentimento coletivo. No gogó não dá mais.

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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