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Eleições 2022

Os muitos tons de cinza da política no Espírito Santo

Vamos devagar com o andor maximalista do bolsonarismo no Espírito Santo. As clivagens sociais são muito mais complexas e sutis do que imagina a nossa vã filosofia

Publicado em 08 de Outubro de 2022 às 00:01

Públicado em 

08 out 2022 às 00:01
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

A reação e a aceleração da candidatura de Manato (PL) na reta final do primeiro turno das eleições no Espírito Santo estimulou um frenesi de superestimação do bolsonarismo por aqui. Uma competente atuação das redes sociais bolsonaristas torna aquela reação simbolicamente maior do que ela realmente é.
A mesma observação factual, combinada com uma dose de sensitividade intuitiva, vale para o Brasil. Mas vamos no ater, aqui e agora, ao caso do Espírito Santo.
Existem, na prática, muitos tons na política capixaba. Basta olhar os resultados das votações proporcionais (deputados) e majoritárias (senador, governador e presidente). Há um “continuum” que vai da extrema direita à extrema esquerda – muitos tons de cinza, digamos.
Há significativa presença do conservadorismo. Mas isso não significa igualar e reduzir o conservadorismo ao bolsonarismo. O centro e, principalmente, a centro-direita são maiores do que o bolsonarismo raiz. Há reacionários e há conservadores. Há, também, um movimento pendular, em curso, na direção da centro-esquerda, mais progressista. Basta lembrar que Lula teve 40% dos votos válidos.
A reação de Manato, como a de Bolsonaro no Brasil, foi produto de um movimento de última hora de voto útil, silencioso e enrustido, na direção de Bolsonaro lá e Manato cá. Na dimensão, podemos dizer, de uma marola eleitoral. E não, ainda, na direção de uma onda política. A conferir.
Isso observado e posto, fui ouvir observadores e analistas da cena política capixaba.
Lucas Margotto, analista político perspicaz, olhando para o cenário do segundo turno capixaba, é cirúrgico: “Não há no horizonte, no intervalo de 02/10 a 30/10, nenhum fenômeno novo que indique uma mudança radical na tendência de voto capixaba”.
Dito isso, ele crava o seu prognóstico para o resultado final do segundo turno: “Casagrande deverá ter 54% e Manato deverá ter 46% dos votos válidos”. Para ele, Manato poderá crescer mais do que Casagrande no segundo turno, “porém sem massa eleitoral suficiente para virar o jogo”:
"Estimo que o comparecimento no dia 30/10 será de 2.237.887 (76,7%) e que brancos/nulos vão se manter na casa dos 10%, daí teremos em torno de 2.011.860 votos válidos. Casagrande teve 976.652 votos e deverá ganhar mais 109.752 neste segundo turno (47% vindo dos nem, nem), perfazendo 1.086.404 (54% dos válidos). Já Manato teve 800.598 votos e deve ganhar mais 124.858 no segundo turno (53% vindo dos nem, nem), perfazendo 925.456 (46% dos válidos)."
Voltando aos muitos tons de cinza, Lucas estima que dos 52% dos votos válidos de Bolsonaro no Espírito Santo, 35% são do bolsonarismo raiz e 17% são de antipetistas. Já dos 40% de votos válidos de Lula aqui, ele estima que 20% são do lulismo raiz e 20% são antibolsonaristas.
Vamos devagar com o andor maximalista do bolsonarismo no Espírito Santo, atrelado à preferência pela dicotomia. As clivagens sociais são muito mais complexas e sutis do que imagina a nossa vã filosofia. O simplismo faz parte do marketing eleitoreiro. A conferir.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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