A mesma observação factual, combinada com uma dose de sensitividade intuitiva, vale para o Brasil. Mas vamos no ater, aqui e agora, ao caso do
Espírito Santo.
Existem, na prática, muitos tons na política capixaba. Basta olhar os resultados das votações proporcionais (deputados) e majoritárias (senador, governador e presidente). Há um “continuum” que vai da extrema direita à extrema esquerda – muitos tons de cinza, digamos.
Há significativa presença do conservadorismo. Mas isso não significa igualar e reduzir o conservadorismo ao bolsonarismo. O centro e, principalmente, a centro-direita são maiores do que o bolsonarismo raiz. Há reacionários e há conservadores. Há, também, um movimento pendular, em curso, na direção da centro-esquerda, mais progressista. Basta lembrar que Lula teve 40% dos votos válidos.
A reação de Manato, como a de Bolsonaro no Brasil, foi produto de um movimento de última hora de voto útil, silencioso e enrustido, na direção de Bolsonaro lá e Manato cá. Na dimensão, podemos dizer, de uma marola eleitoral. E não, ainda, na direção de uma onda política. A conferir.
Isso observado e posto, fui ouvir observadores e analistas da cena política capixaba.
Lucas Margotto, analista político perspicaz, olhando para o cenário do segundo turno capixaba, é cirúrgico: “Não há no horizonte, no intervalo de 02/10 a 30/10, nenhum fenômeno novo que indique uma mudança radical na tendência de voto capixaba”.
Dito isso, ele crava o seu prognóstico para o resultado final do segundo turno: “Casagrande deverá ter 54% e Manato deverá ter 46% dos votos válidos”. Para ele, Manato poderá crescer mais do que Casagrande no segundo turno, “porém sem massa eleitoral suficiente para virar o jogo”:
"Estimo que o comparecimento no dia 30/10 será de 2.237.887 (76,7%) e que brancos/nulos vão se manter na casa dos 10%, daí teremos em torno de 2.011.860 votos válidos. Casagrande teve 976.652 votos e deverá ganhar mais 109.752 neste segundo turno (47% vindo dos nem, nem), perfazendo 1.086.404 (54% dos válidos). Já Manato teve 800.598 votos e deve ganhar mais 124.858 no segundo turno (53% vindo dos nem, nem), perfazendo 925.456 (46% dos válidos)."
Voltando aos muitos tons de cinza, Lucas estima que dos 52% dos votos válidos de Bolsonaro no Espírito Santo, 35% são do bolsonarismo raiz e 17% são de antipetistas. Já dos 40% de votos válidos de Lula aqui, ele estima que 20% são do lulismo raiz e 20% são antibolsonaristas.
Vamos devagar com o andor maximalista do bolsonarismo no Espírito Santo, atrelado à preferência pela dicotomia. As clivagens sociais são muito mais complexas e sutis do que imagina a nossa vã filosofia. O simplismo faz parte do marketing eleitoreiro. A conferir.