Essa luz da reforma se alia ao otimismo moderado do mercado, dos economistas e até de formadores internacionais de opinião, como Nouriel Roubini e o Banco Mundial
A promulgação da reforma tributária lançou uma luz de otimismo no país, já no limiar de 2024. A chave do otimismo é a possibilidade de melhoria da produtividade e dos investimentos na economia — e, daí, a taxa de crescimento potencial do país.
Essa luz da reforma se alia ao otimismo moderado do mercado, dos economistas e, até, de formadores internacionais de opinião, como Nouriel Roubini e o Banco Mundial.
Nouriel Roubini, famoso por suas previsões depois da crise financeira internacional de 2008, passou pelo Brasil há pouco tempo. Causou impacto ao declarar que “o Brasil é promissor”. Tem capacidade, segundo ele, para crescer a taxas superiores a 5%. Neste patamar, poderá enfrentar o nó górdio da desigualdade (que reduz o consumo) e, também, o da produtividade.
Nessa previsão, ele se alinha aos nossos economistas quando coloca um pré-requisito para alcançar esse patamar: depois da reforma tributária, já promulgada, andar mais rápido com as outras reformas necessárias. Começando pela velha necessidade de avançar com a reforma administrativa e as reformas políticas.
O Banco Mundial também lança um olhar para “o Brasil do futuro”, em recente análise sobre o Brasil (“O Brasil do Futuro – Rumo à Produtividade, Inclusão e Sustentabilidade”). O Banco focaliza as três principais megatendências que determinarão o futuro: mudanças demográficas, mudanças tecnológicas e mudanças climáticas.
E enumera seis áreas críticas para reformas que permitirão ao Brasil se alinhar às megatendências: (1) aumentar a produtividade; (2) preparar o sistema educacional para o (novo) mercado de trabalho; (3) reforçar os sistemas de proteção social; (4) adequar o Orçamento Geral da União às novas prioridades; (5) melhorar a infraestrutura; e (6) fazer a reforma tributária.
Com as reformas certas, na trilha da chamada economia verde, o país pode ser tornar uma potência econômica, já com base na condição de potência alimentar e climática.
Mas tem uma pedra no caminho, ressalta o Banco, refletindo análise e constatação já divulgada recorrentemente no Brasil. Trata-se da necessidade de superar as tensões do atual contrato social em vigor, o da Constituição de 1988.
Essas tensões minam o potencial do país, limitando os espaços e condições políticas para as reformas. Pela falta de consenso e acordo entre Estado e a sociedade: o que a sociedade pode e quer contribuir e o que ela espera receber em troca.
A questão central, assim, é a de que o contrato social de 1988 precisa ser restaurado. Mudaram-se as circunstâncias. As novas tecnologias digitais. O novo papel das mulheres. O envelhecimento da população. Os efeitos drásticos das mudanças climáticas. Tudo junto e misturado, tensionando antigos paradigmas econômicos e sociais.
Constituição Federal do BrasilCrédito: Divulgação/Nova Escola
A globalização, o avanço do capitalismo monopolista, as mudanças demográficas, as inovações tecnológicas e a exploração do meio ambiente trouxeram um grande progresso material.
Mas nosso contrato social falhou ao administrar as consequências. Portanto, “é preciso criar nova arquitetura de oportunidades para todos (...) para quebrar o ciclo negativo da política impulsionada pela decepção e pela raiva” — adverte Minouche Shafik.
Para além da reforma tributária, é necessário ainda construir, no tempo, um novo acordo nacional. É possível? O Brasil do futuro vai ser resultante da costura (ou não) desse acordo.
De pronto, o país precisa ajustar três pressupostos conjunturais para um acordo nacional. Primeiro, continuar ajustando a dialética lulismo-petismo, que está em curso no governo Lula-3. Depois, contornar dogmas econômicos, o que também já começou. E retomar, em 2024/2026, as reformas.
Para voltar a acreditar no futuro.
Antônio Carlos Medeiros
É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas