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Brasil

Lula 3: os rumos da articulação política e a mudança na cabeça do eleitor

É bom prestar atenção nos resultados do Censo 2022. O mapa eleitoral do Brasil está em franco processo de mutação. A ascensão do empreendedorismo e da vontade de prosperar, para além da proteção estatal e do clientelismo

Publicado em 22 de Julho de 2023 às 00:20

Públicado em 

22 jul 2023 às 00:20
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

O presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, durante coletiva à imprensa, em Bruxelas, na Bélgica
O presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, durante coletiva à imprensa, em Bruxelas, na Bélgica Crédito: Ricardo Stuckert/PR
Começou a entrada do Centrão no ministério do governo Lula 3. Parlamentares do PP, do Republicanos, e até do PL, estão sendo indicados e nomeados. O objetivo é ampliar a base política do governo na Câmara Federal.
Trata-se de evitar a articulação política líquida, ou seja, aquela na base do caso a caso e projeto por projeto. Se a base política chegar ao número estimado de 300 deputados, poderá ser superado o caso a caso. Na outra via da mão dupla, a nova base política poderá levar o governo a maior grau de moderação política. O caminho da Frente Ampla.
A partir de agosto, quando termina o recesso no Congresso, saberemos o que acontecerá na prática. Por enquanto, podemos antever que a política nacional entrou no modo “realpolitik”.
No âmago da entrada do presidente Lula na liderança da articulação política, e do novo acordo com o Centrão, resta subjacente a recorrente contradição do nosso sistema político.
Trata-se da relação dialética entre a tradição nacional de patronagem e clientelismo político e a emergente ascensão das forças modernizantes do Brasil urbano. Incluindo-se agora nas crescentes franjas modernizantes da sociedade o emergente empreendedorismo nas favelas e periferias urbanas e a modernização da cadeia produtiva do agronegócio.
No que diz respeito à cadeia produtiva do agronegócio, o novo Censo de 2022 mostra a força do agro e da indústria extrativista no interior do país. O “Brasil profundo” mudou nessa última década e meia sem o Censo.
Agora, 87,3 milhões de pessoas, ou 43% da população do país, moram em pequenos municípios com menos de 100 mil habitantes, principalmente no Centro-Oeste e Norte. A lógica dessas pessoas mudou. Antes, elas lutavam para sobreviver. Agora, como assinala Creomar de Souza, elas passaram a dizer: “Resolvi meu problema de sobrevivência, agora quero prosperar”.
Essa mudança, em curso, tende a diminuir a força do clientelismo. Mas essa força ainda é grande. Basta ver a disputa pelo controle das emendas parlamentares. As emendas carregam a força da patronagem, herdeira do coronelismo da República Velha.
No fundo, o esgrima político entre os presidentes Lula e Arthur Lira é hoje o reflexo e a explicitação da contradição clientelismo/modernização, o lado visível de como ela é intrincada.
A contradição permanece viva e resiliente devido à crescente defasagem entre o sistema político, que contém instituições que se tornaram anacrônicas, e a sociedade, que contém franjas crescentes de modernização e aspiração de progresso e liberdade. O novo Censo registra esta aspiração.
Entre nossas instituições políticas, restam anacrônicos o sistema eleitoral proporcional uninominal e a legislação partidária, que perpetua as oligarquias partidárias. Sem falar em nosso semipresidencialismo esquizofrênico.
O sistema eleitoral, em particular, continua impulsionando e retroalimentando a força da patronagem política e da contenção dos avanços modernizantes. Dificultando, inclusive, a formação de consenso para governar. Isto é, a formação de maiorias estáveis de governo.
A articulação do presidente Lula para atrair o Centrão é, mais uma vez, pelo menos desde a presidência de Fernando Henrique Cardoso, uma tentativa de formação de maiorias para governar.
Enquanto isso, é bom prestar atenção nos resultados do Censo de 2022. O mapa eleitoral do Brasil está em franco processo de mutação. A ascensão do empreendedorismo e da vontade de prosperar, para além da proteção estatal e do clientelismo.
José Casado escrutinou o Censo e foi cirúrgico: “A novidade é a mudança na cabeça do eleitor”.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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