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Moderados

Julgamento de Bolsonaro é o prenúncio de uma nova era na política brasileira

A rejeição do populismo. A moderação. O empreendedorismo. O espírito capitalista. A ética protestante. A cosmovisão social liberal. Da guerra ideológica com polarização e anomia social para uma provável porta de saída do populismo

Publicado em 06 de Setembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

06 set 2025 às 03:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

A política brasileira vive um raro momento histórico de ponto de inflexão à vista. Uma movimentação estrutural do pêndulo político, na direção da moderação.
No percurso do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos integrantes do núcleo do planejamento do golpe de Estado já se pode enxergar o prenúncio de formação de um novo zeitgeist.
Mais do que apenas a mudança de direção do pêndulo político.
Se Jair Bolsonaro for considerado culpado, o país poderá deixar para trás o pior da polarização ideológica, raivosa e baseada em narrativas com realidades paralelas.
Refiro-me ao prenúncio de um ponto de inflexão no espírito de época consolidado a partir das manifestações de 2013 no Brasil. Que resultaram em uma década de profunda turbulência política, ainda recorrente.
Os brasileiros estão cansados.
Há um novo espírito de época em conformação. Com traços políticos, sociais, econômicos e culturais já nítidos e relevantes.
A rejeição do populismo. A moderação. O empreendedorismo. O espírito capitalista. A ética protestante. A cosmovisão social liberal. Da guerra ideológica com polarização e anomia social para uma provável porta de saída do populismo.
É crescente na sociedade e em todo o espectro político um consenso sobre o imperativo de restauração do Estado. Entendendo-se restauração como a busca pelo equilíbrio institucional e político entre os três poderes. E, ao mesmo tempo, como a necessidade de buscar a superação das fragilidades econômicas do Brasil.
Além da turbulência política, o país convive há décadas com baixo crescimento e com problemas que não foram resolvidos. Entra governo e sai governo e eles permanecem. São muitos.
Violência urbana. Educação precária. Filas na saúde. Esgoto a céu aberto. Insegurança alimentar. Judiciário lento. Alta carga tributária. Crise fiscal. Estado inchado.
Todos recorrentes.
Com esta carga interminável de problemas, tudo que o país precisa e quer é a pacificação política. Com democracia. 74% dos brasileiros acreditam que a democracia é sempre melhor do que outras formas de governo, segundo Pesquisa Datafolha de agosto.
Só a pacificação política permitirá ao Brasil passar democraticamente pelas eleições de 2026 e desaguar em 2027 com possibilidade de conciliação nacional e consenso para governar, para além do populismo.
Jair Bolsonaro na garagem de casa em Brasília, no dia em que começou o julgamento no STF por trama golpista
Jair Bolsonaro na garagem de casa em Brasília, no dia em que começou o julgamento no STF por trama golpista Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress
Gestão, gestão e gestão. Entregas, entregas e entregas. É disso que o país precisa. É isso que a sociedade quer.
Para buscar o que a sociedade quer, o pressuposto é a pacificação política, para os políticos terem coragem de defender e fazer as reformas necessárias. Sem reformas não haverá avanço.
A reforma administrativa abrangente, para melhorar a governança e a governabilidade. A reforma do Judiciário, para conter a politização do Judiciário. A reforma do Congresso, para conter o clientelismo das emendas e atribuir responsabilidades aos congressistas – com novo sistema eleitoral e com o semipresidencialismo.
Um ciclo reformista, que já começou com a reforma administrativa e deveria adentrar um novo governo, em 2027, como uma agenda de Estado.
Lidar com esse rol de problemas é possível. O Brasil já fez reformas com sucesso nas Eras FHC e Lula 1 e 2.
O pré-requisito é a superação do populismo e da polarização ideológica.
Muitos de nossos políticos e empresários já perceberam os sintomas de um novo zeitgeist em formação.
“A polarização intensa dificultou a aprovação de reformas. A saída de Bolsonaro da vida pública pode dar ao país a chance de enfrentar esses problemas. Será preciso ousadia, visão e compromisso. Mas políticos de ambos os lados parecem dispostos a tentar”.

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços nessas áreas

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