Já é campanha no Brasil: o tempo eleitoral atropelou o calendário gregoriano
Eleições 2026
Já é campanha no Brasil: o tempo eleitoral atropelou o calendário gregoriano
O Congresso Nacional já está no modo "campanha de 2026". O governo Lula também. Assim como os partidos políticos e os governadores, senadores e deputados
O Congresso Nacional já está no modo "campanha de 2026". O governo Lula também. Assim como os partidos políticos e os governadores, senadores e deputados.
O tempo eleitoral e o tempo político atropelaram o calendário gregoriano.
O Congresso se pintou para a guerra. O PT e o governo Lula também.
O Poder Legislativo e o Poder Executivo estão na porta de uma nova crise institucional. Mais uma. Vai escalar mais?
A causa central é a pressão da disputa patrimonialista pelo Orçamento da União. O efeito inicial é a sombra da paralisia decisória. Mais uma.
O STF foi acionado pelo governo para se manifestar. Se não conseguir exercer efeito moderador, poderemos ter um horizonte de crise de Estado.
Tudo indica que o governo tanto perde perdendo quanto perde ganhando no STF. A não ser que o efeito moderador conclame todos os lados para o simbólico chamado de Ernest Hemingway: “Adeus às Armas”.
Vai e volta. Os Três Poderes se distanciam mais ainda das demandas e expectativas da sociedade e cresce a rejeição ao Congresso, aos políticos e ao presidente da República.
Nessa toada, deveremos ter um segundo semestre de 2025 com paralisia decisória no Congresso, sob a égide do embate com o Executivo. No caminho da virada para 2026. E o desembarque da base do governo entre janeiro e março.
Outra vez, a lógica da campanha eleitoral.
No Brasil, as elites políticas têm a tradição histórica da estratégia de “fugir para a frente” para driblar a recorrente crise fiscal. É o que está em curso.
O próprio governo federal anunciou um apagão fiscal para 2027. Pode ser antecipado para 2026.
Entropia mais uma vez a caminho do país. As elites brasileiras têm essa tradição de fugir para a frente e só reagir por acúmulo de crises, já na hora da exaustão à beira do precipício e do jogo de soma zero. Esse estágio já é possível.
Outro dia, Fernando Gabeira fez uma observação cirúrgica. Comentou que talvez seja ainda preciso piorar muito para que os Três Poderes enfim percebam que é preciso reagir e agir para estancar a sangria e então melhorar. Como já aconteceu na Grécia, por exemplo, lembrou Gabeira.
O país convive com uma resiliente carestia de alimentos e serviços e com insegurança urbana. Estão virando problemas estruturais.
Os brasileiros já há algum tempo perderam a noção do que é o sentimento de bem-estar. Muitos sonham em ir embora. Muitos já foram.
É mais do que hora de Suas Excelências entenderem a necessidade de pactuar uma agenda mínima para atravessar o rubicão até o final de 2026 e vislumbrar porta de saída em 2027.
Câmara dos DeputadosCrédito: Vinicius Loures/Agência Câmara
Enfrentar o problema fiscal e monetário e, mais ainda, o problema institucional. Para que a campanha presidencial de 2026 possa pautar a agenda das reformas políticas.
A judicialização do IOF é apenas mais uma das muitas gangorras de judicialização da política e politização do judiciário.
O Brasil tem uma longa história política, desde o Império, de recorrente conflito das elites. A carência persistente de um Poder Moderador.
Já foi o Imperador. Já foi a política de governadores da República Velha. Já foram as Forças Armadas. Agora é o Poder Judiciário.
Trata-se da cultura política brasileira de “produção”, explícita ou implícita, de um Poder Moderador para funcionar como “árbitro dos conflitos” da elite” (na expressão de José Murilo de Carvalho).
Nesta quadra atual da nossa História, de convivência com um esquizofrênico parlamentarismo branco portador de ingovernabilidade, já está mais do que patente e cristalino o imperativo de realidade de adoção do semipresidencialismo.
Onde a figura do presidente como chefe de Estado garantiria também a possibilidade de prevalência da instituição de um Poder Moderador, no caso o presidente da República. Para funcionar como árbitro dos conflitos da elite.
A cada dia do funcionamento cotidiano do sistema político brasileiro, vemos cada vez mais nítido o fim do ciclo político de 1988. É hora de virar a página.
O jogo de soma zero tornou-se praticamente inevitável.
Com essa coalizão heterogênea, sob o domínio crescente do PT, o governo Lula não consegue representar a mediana da correlação de forças no Congresso Nacional.
Distopia, entropia e guerra permanente.
Antônio Carlos de Medeiros
E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas