Os rejeitados, os deserdados e os ressentidos na exaustiva ciranda dos Três Poderes
Crise fiscal
Os rejeitados, os deserdados e os ressentidos na exaustiva ciranda dos Três Poderes
Enquanto a exaustão não chega, a sociedade brasileira se desconecta mais ainda da política e dos políticos, formando um espectro político retratado pela Quaest
E, ao mesmo tempo, a enunciação dos “rejeitados”, dos “deserdados” e dos “ressentidos” na última pesquisa da Quaest. Explico adiante.
Sem chance de produção de consenso e equilíbrio político-institucional estável. Algo do tipo “cada dia com sua agonia”. Empurrando o ajuste fiscal com a barriga.
Em causação circular de uma ciranda de retrocessos e volta constante ao início do jogo ou à primeira casa. A ciranda dos Três Poderes.
Dois argutos observadores da cena política brasileira vaticinam: como sempre no Brasil, só a chegada da absoluta exaustão vai poder fazer os atores políticos buscarem a luz no final do túnel. Diante da ameaça de jogo de soma zero e à porta de uma crise de Estado. E não apenas de governo.
Enquanto a exaustão não chega, a sociedade brasileira se desconecta mais ainda da política e dos políticos, formando um espectro político retratado pela Quaest. Que chamo, aqui, do espectro dos rejeitados, dos deserdados e dos ressentidos.
Produtores e produtos de uma estratégia eleitoral de polarização, eles agora são vítimas dos próprios venenos da polarização: o povo cansou do mesmismo da polarização e decretou fadiga de material para os dois líderes, com altas rejeições – e para o próprio modelo de popularização populista.
Os deserdados formam o grande contingente da descrença, os eleitores nem-nem (nem Lula, nem Bolsonaro). Que costeiam o alambrado, como dizia Leonel Brizola, em busca da moderação de uma terceira via.
Os brasileiros sem líderes e sem esperança de futuro. Cada vez mais a maioria. Representam em torno de 33%/35% do espectro político.
Já os ressentidos (ou revoltados) se situam na extrema direita ou na extrema esquerda do espectro.
Na extrema esquerda, são identificados pela Quaest os chamados lulistas e petistas. Representam 14% do eleitorado. Embarcaram na vibe da polarização.
E na estrema direita estariam os chamados bolsonaristas movidos pelo “partido digital” de Jair Bolsonaro – as redes sociais. Representam 11% do eleitorado.
Em sua maioria, os extremos são impulsionados pelo ódio e narcisismo dos algorítimos da física quântica dos engenheiros do caos. Ódio, ressentimento e visão dualista do mundo, sempre à beira de becos sem saída.
Guerra permanente. “Ou eu ou você”. “Nós”, nem pensar. Frente Ampla para valer, muito menos.
A confluência dos rejeitados, dos deserdados, e dos ressentidos é a trilha (sinuosa) do caminho do meio na política brasileira.
Desde 2022, passando com mais evidência em 2024, está cada vez mais nítido que o espírito da época (zeitgeist) está latente para acolher uma nova ideia-força e, mais do que isso, uma nova ordem imaginada que vá além do status quo do ciclo político de 1988.
Contendo uma cosmovisão liberal social que possa galvanizar e reconectar Estado, governo e sociedade.
No ciclo de 1988, havia, não há mais, um pacto simbólico. Um elegeu Bolsonaro em 2018. (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”). Outro elegeu Lula em 2022 (“União e reconstrução” em defesa da democracia). Não há mais.
A esperança esvaiu-se nas mazelas dos retrocessos da realidade.
O poder simbólico não existe mais. Uma desconexão que se aprofunda.
A economia, diz Paulo Baia, embora fundamental, não é mais suficiente para sustentar a popularidade combalida de Lula. “Há algo mais profundo em jogo: o vínculo simbólico, a relação afetiva, o contrato moral entre o líder e o povo”.
Tudo se resume nos rejeitados, nos deserdados e nos ressentidos.
As eleições de 2026 estão em aberto e há espaço evidente para o crescimento do espectro político do centro. A sociedade aponta para o caminho da centro direita: aproximadamente 53%/55% do eleitorado.
A polarização rejeitada é agora uma espécie de vírus que estimula o crescimento inercial do centro.
Mas o centro é uma página em branco.
Praça dos Três Poderes, em BrasíliaCrédito: Valter Campanato/ Agência Brasil
Não basta fulanizar. É claro que a emergência de uma liderança é pré-requisito. Mas, sobretudo, é preciso soldar os elementos de uma ordem imaginada coerente com o espírito da época.
Do líder vem o símbolo. Do símbolo vem o líder.
Desta vez, em 2026, a construção do capital simbólico antecede a construção e consolidação do capital político e do capital social.
A ordem imaginada do ciclo de 1988, moldada depois pelos ciclos políticos de FHC, de Lula, de Bolsonaro, e de Lula mais uma vez, precisa ser remoldada.
Este é o busílis para o caminho do meio e as eleições de 2026.
Ordem imaginada no sentido singelo de Yuval Harari. “Mitos e crenças compartilhadas que só existem na imaginação coletiva das pessoas (...) os Estados se baseiam em mitos nacionais (...) histórias específicas sobre deuses, ou nações, ou corporações (...).
Para Harari, os mitos e crenças que balizam e incentivam a cooperação entre as pessoas e um projeto de nação se alteram com as mudanças de circunstâncias.
O Brasil está neste ponto de sua História. Sem projeto de nação e de futuro.
Enquanto isso, o patrimonialismo está travando e vencendo o debate fiscal. E a ciranda dos Três Poderes caminha para a exaustão.
Antônio Carlos de Medeiros
E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas