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Política

Equilíbrio instável: governo Lula 3 acende a luz amarela de “alerta”

Lula precisa continuar cuidando cada vez mais pessoalmente das articulações e negociações. E é imperativo o governo melhorar a comunicação com a sociedade

Publicado em 16 de Março de 2024 às 01:40

Públicado em 

16 mar 2024 às 01:40
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Sinal de alerta. Aumentou a desaprovação de Lula e do seu governo. O presidente Lula convocou reunião ministerial para a próxima segunda-feira (18). O deputado federal Rui Falcão (PT-SP), ex-presidente do PT, diz que o partido se afastou do cotidiano. Alerta geral.
Copo meio cheio ou meio vazio. Essa parece ser, ainda, a melhor interpretação das pesquisas publicadas nos últimos dias. Mas a desaprovação está com viés de baixa. O sistema político brasileiro permanece em equilíbrio instável. É cada vez mais difícil a formação de maiorias de governo.
Governabilidade em risco significa governo impopular. Ainda mais porque em 2024 não deverá se repetir um fato positivo de 2023, que ajudou a manter estável a aprovação do presidente e do governo até o fim do ano: a melhoria da renda dos brasileiros, com elevação de 11,7%. Uma sensação (efêmera?) de perspectiva de bem-estar.
Para além dos números, está claro que o país continua dividido. Está claro, também, que fatos relevantes recentes (a manifestação bolsonarista na Av. Paulista e a inflação de alimentos) contribuíram para o aumento da desaprovação. Cresceu 6% nos evangélicos e chegou a 62%.
Além dos fatos recentes, há os fatos recorrentes e os fenômenos sociopolíticos recorrentes.
Fatos recorrentes. Primeiro, o novo Congresso tem maiorias flutuantes na análise dos projetos do governo. Um caso a caso. Segundo, formou-se uma partidocracia (expressão de Norberto Bobbio) no Brasil. O império das oligarquias partidárias.
Para formar maiorias menos instáveis no Congresso, o governo Lula 3 vai precisar ainda conquistar melhores resultados na entrega de serviços e ganhar mais força e aprovação na sociedade. O Congresso é a expressão da sociedade e age sob pressão da sociedade, principalmente na mídia e nas redes sociais. É preciso um aggiornamento do programa de governo e das políticas públicas.
Para conviver de igual para igual com a partidocracia, é necessário retomar reformas políticas. Mas não há forças convergentes para fazer as reformas. Enquanto isso, Lula precisa continuar cuidando cada vez mais pessoalmente das articulações e negociações. E é imperativo o governo melhorar a comunicação com a sociedade.
Fenômenos sociopolíticos recorrentes. Primeiro, a crescente insatisfação da sociedade com a política e os políticos. O novo “zeitgeist” que explodiu nas manifestações de 2013 e resultou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O bolsonarismo.
Segundo, o fato que o mantra do “é a economia, estúpido” não sustenta, sozinho, a aprovação do soberano. É preciso cuidar dos valores e dos costumes. Na prática, significa caminhar mais para alianças ao centro e à centro-direita do espectro político.
O governo Lula 3 precisa, ainda, construir uma resultante para a dialética lulismo-petismo. Não há coesão e consenso na ação governamental. Esse consenso é um pré-requisito para um novo projeto de governo e de país. O governo avançou com programas relevantes e corrigiu rotas na saúde, na educação e na economia. Mas ainda precisa mais. Outra vez: um aggiornamento.
Voltando ao copo meio cheio ou meio vazio. Vale repetir que as pesquisas mostram a dificuldade de formação de maiorias. É um calcanhar de Aquiles. Que leva a permanente equilíbrio instável.
Uma Espada de Dâmocles. A ameaça que paira sobre o soberano e produz o fantasma constante de “deadlook” (jargão americano) ou “stalemate” (jargão europeu), na política e no processo político: impasses constantes, paralisia decisória, “apagão” de políticas públicas.
Haja negociação e diálogo constante!
O presidente Lula em cerimônia de divulgação dos resultados do novo PAC Seleções no Palácio do Planalto.
O presidente Lula em cerimônia de divulgação dos resultados do novo PAC Seleções no Palácio do Planalto. Crédito: Gabriela Biló/Folhapress
Enquanto isso, é necessário que tanto o governo quanto a sociedade aprendam com os novos fatos da época (histórica) e internalizem a nova dinâmica da sociedade do conhecimento e das mudanças tecnológicas.
Samuel Pessoa chamou a nossa atenção, em recente entrevista ao Estadão, para “a dificuldade que nós coletivamente temos de aprender com os nossos erros e avançar”. É um fato estrutural. Governo e sociedade. Resulta, por exemplo, em patrimonialismo recorrente. Irmão siamês do capitalismo de compadrio.
Por último, mas não menos importante, Luiz Carlos Azedo chama a nossa atenção para outro fato estrutural que também perpassa as lógicas das ações do governo e da sociedade: “As forças liberais não são capazes de dar respostas imediatas às demandas da sociedade, e a tendência da esquerda é retroalimentar a polarização, sem oferecer soluções novas."

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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