Quem acompanha a política brasileira e as pesquisas de opinião para as eleições gerais de 2026 sabe que existe um dilema político.
As pesquisas mostram que 54% dos eleitores estão cansados de polarização e do “nós contra eles”. E têm preferência pela moderação política e por candidaturas ligadas ao Centro do espectro político.
Ao mesmo tempo, o noticiário e as redes sociais mostram que as elites políticas e os candidatos potenciais continuam apostando no modo “nós contra eles”. Tanto no campo da esquerda, com a potencial candidatura do presidente Lula à reeleição, quanto na direita, com as potenciais candidaturas já colocadas e em definição: Ratinho Junior (PSD); Tarcísio de Freitas (Republicanos); Ronaldo Caiado (União-Brasil); e Romeu Zema (Novo).
É uma espécie de contradição em termos. O eleitor sinaliza uma expectativa, mas as elites políticas se posicionam em outra direção. Sinais de alienação política (brancos, nulos e abstenções) e de cristalização de rejeições às candidaturas. A Política se afastando da sociedade.
Como sabemos, o “nós contra eles” e a nova forma de polarização política é um fenômeno recente no Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos, na Europa e na Eurásia. Impulsionado pela ascensão do populismo – de direita ou de esquerda.
Na expansão do populismo está o fenômeno das redes sociais e a operação dos algoritmos das Big Techs. O estímulo ao conflito e a gênese do caos na política.
No século XX, os dilemas da política tinham a ver com as relações Estado-Mercado. Ou seja, ou mais intervencionismo estatal ou mais liberalismo. Ou dosagens intermediárias.
No Século XXI, Giuliano Da Empoli mostra que os dilemas estão mudando: “a clivagem decisiva passa a ser entre o humano e a máquina”. Vale dizer, os algoritmos das Big Techs e, agora, a Inteligência Artificial. Surgem, na política, os “partidos digitais”.
Neste contexto, o mundo presenciou o crescimento do populismo de direita e o enfraquecimento das democracias, com o surgimento das chamadas democracias iliberais. A tensão crescente entre a democracia e o populismo.
Este dilema está posto. Aqui e acolá.
Vem daí o recente crescimento da atenção dos observadores e analistas políticos ao fenômeno do populismo. De direita ou de esquerda. Mas sempre, por definição, em torno de um líder carismático e manipulador.
Ernesto Laclau foi cirúrgico ao observar que o populismo é um fenômeno ambivalente. Pode se expressar como democratizante, mas também com traços não democratizantes. Na essência, o fenômeno surge e cresce como um meio de inclusão de setores marginalizados pela política.
O líder carismático tem, a História mostra, o perfil de buscar a sua conexão com “o povo”. As massas. O povo pobre. Ou a classe média. O foco varia de acordo com o perfil do líder, embora o discurso simbólico do “o povo” seja a marca central.
Pois bem! Esta curiosidade política e também acadêmica de compreender o populismo já em plenoSéculo XXI, tem gerado novas observações sobre o fenômeno.
Uma delas, instigante para provocar reflexão e debate do fenômeno, vem de Yaprak Gürsoy e Toygar Sican, em novo Ensaio publicado pela LSE PRESS no Linkedin.
Eles criaram o neologismo “frenemy” (“amigo-inimigo”), para argumentar que o populismo poder ser concebido como um “amigo-inimigo” da democracia. Ele (o populismo) tanto pode revitalizar a política eleitoral, quanto pode corroer as instituições democráticas liberais – dizem eles.
Ao dar voz a grupos sub-representados, os líderes populistas contribuem para a democratização. Ao mesmo tempo, ao ameaçar normas e instituições, o efeito é anti- democrático.
No Brasil, a experiência da ascensão de Jair Bolsonaro é um exemplo recente desta ambivalência. Combateu normas, regras e instituições. Mas também abriu espaço para a grupos políticos de extrema-direita e direita. Sob a liderança de Bolsonaro a direita, vamos dizer assim, “saiu do armário”. Ampliou as opções do espectro político. Deu voz a grupos sub- representados.
Dizem Toygar e Yaprak que enxergar o populismo como “inimigo disfarçado de amigo” permite vê-lo não apenas como ameaça, mas como uma febre que sinaliza problemas e vulnerabilidades democráticas.
Assim, dizem eles, o populismo pode ser controlado por meio de coligações inclusivas e reformas políticas ponderadas que atenuem as expressões mais radicais, preservando o engajamento democrático.
O populismo pode, sim, ameaçar a democracia ficando muito tempo no poder. Tende a polarizar a sociedade. “Contudo, o populismo, enquanto modo de articulação política entre líderes e cidadãos, possui potencial democrático”.
Na Europa, por exemplo, tanto a direita quanto a esquerda contribuíram para a revitalização democrática, com a agenda de imigração e neoliberalismo que mobilizaram cidadãos alienados e repolitizaram o discurso: mais participação eleitoral e política.
O “frenemy” é uma tese instigante para encontrar a porta de saída da calcificação da polarização do “nós contra eles”.
O papel ambivalente do populismo. O foco “no povo” busca a resiliência e manutenção do poder, mas, ao mesmo tempo, contribui para a politização da sociedade e a renovação democrática.
No Brasil, a diástole política em curso, fortalecendo o federalismo e o poder regional e local – governadores e prefeitos – cria novas âncoras para a renovação democrática.