Conheço muita gente que se agarrou à música para suavizar momentos difíceis ao longo da pandemia. Artistas diferentes para fazer o cenário de todo dia parecer outro, um samba para preencher a ausência de movimento, um jazz embalando a saudade dos que partiram e o distanciamento social, um sertanejo aqui, um rap acolá e quem sabe um pequeno sopro pra longe do sufoco.
Talvez por isso seja tão cheia de significados a retrospectiva com as faixas mais tocadas do ano na playlist de cada um, que tomou a internet nestes primeiros dias de dezembro.
O isolamento, o medo do futuro, o horror de 5 milhões de mortes e todo o resto escancararam a capacidade de reconexão e apaziguamento da música.
Não sou eu quem diz isso, é a pianista e pesquisadora Patrícia Maria Vanzella, que coordena o projeto Neurociência e Música na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo.
Segundo a professora, em entrevista à Revista Gama, a música forneceu um meio extremamente eficaz de reconexão social durante a pandemia, permitindo que os nossos cérebros se sentissem interligados mesmo sem uma interação face a face.
A questão, ela afirma, é fisiológica. A música altera sistemas neuroquímicos específicos associados às experiências de recompensa, motivação e prazer. Os níveis de dopamina, serotonina, endorfina e ocitocina, substâncias relacionadas à alegria, ao conforto, ao prazer e à calmaria, são claramente influenciados pelas nossas canções e melodias favoritas.
Com a música, a dança também entra em cena, o pezinho que a gente bate ao ouvir um som gostoso, aquele movimento sincopado que começa na cabeça e se esparrama pelo corpo todo, o fone de ouvido pulsando a nos lembrar que precisamos seguir em frente.
Os mais animados foram além, transformando a sala de casa em pista de dança, quebrando tudo - e a vida lembrando que é preciso ter fé no movimento, na mudança e nas boas possibilidades, mesmo quando elas parecem tão distantes de nós.