Havia muito a digerir e pouco a dizer no final daquela história sobre cegueira, humanidade e barbárie encenada pelo grupo de teatro primeiro no palco e depois entre os andaimes do prédio em reforma.
A maioria de nós estava emocionada com a beleza da cena e a força do momento. Eu estava especialmente tocada com o tamanho da verdade de uma história que me afeta a todo encontro que temos.
A versão do Grupo Galpão para o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, é daquele tipo de arte que nos inquieta, ilumina, faz pensar e convoca a seguir.
Num hospital abandonado onde um desquerido governo confinou centenas de pessoas cegas durante uma repentina e inexplicável epidemia de cegueira, o grupo deixado à própria sorte constrói uma pequena amostra da vida como ela não devia ser, mas às vezes acaba sendo.
Mulheres desumanizadas pelo machismo, mas ao mesmo tempo unidas pelo cuidado. A lei do mais forte imposta sobre quem tem fome. O deboche dos que podem sobre os que precisam. O descaso de quem devia ser suporte, a submissão de quem não aprendeu a viver de outro modo. A ausência completa de dignidade.
“Ensaio sobre a Cegueira” trata de uma doença que possivelmente não existe, numa cidade que ninguém sabe qual é, com personagens sem nome nem biografia. Sua principal força é escancarar a nossa completa incapacidade de viver numa sociedade sem mediação, em total desconexão com o resto do mundo.
Ali, o princípio não era o verbo, mas a violência, a ambição, a lei da força.
Entre os personagens, apenas a mulher do médico enxerga. Ela finge estar cega para ajudar o marido, mas carrega nas costas o peso de ter olhos sãos quando os outros perderam a visão. Sua capacidade de ver não é um privilégio, mas o fardo de ser razão numa comunidade que perdeu todas as amarras civilizatórias.
Não é tarefa fácil. Ao assistir a tudo sem poder reagir, até mesmo à traição de quem devia preservá-la, a mulher do médico personifica um pouco de cada um de nós diante do inconsertável: resignação, revolta, compreensão, raiva, esperança, cansaço, em maior ou menor grau, alternados ou misturados, conforme a ocasião.
No final das contas, ela e o “Ensaio” do Grupo Galpão nos lembram de enxergar para além do olho físico, de valorizar a potência das coisas coletivas, de manter a compaixão, a resiliência e a sensibilidade mesmo quando a vida desaba.