São coisas da vida: podemos escolher entre ficar em casa ou pegar a estrada e faz bem alternar os dois em momentos diferentes da caminhada. Mas, como na canção, nesta hora e nas outras, é preciso estar atento e forte para que, nos dias de casa, a gente não deseje estar na estrada e, nos de estrada, não se ressinta da ausência do lar.
Casa é abrigo, aconchego, segurança, descanso, tanto a casa concreta, com parede, piso, bagunça, gato, IPTU e cobogó, como também a outra, para onde a gente volta nas temporadas de desalinho e caos, excessos ou sumiços, ausência de inspiração, insistências que deviam ser desistências ou mares pouco gentis.
Estrada, ao contrário, tem gosto de desapego, cheiro de liberdade, textura de descoberta, mala onde deve caber apenas o essencial e cada vez menos o que sobra. Suas retas e curvas costumam ser feitas mais de passagens que de permanências, mais de ritmo que de peso, mais de movimento que de dor.
Separadinho assim, fica fácil enxergar as vantagens de alternar tempos de casa e tempos na estrada, abrigo, aconchego, segurança, descanso numa hora e, na outra, desapego, liberdade, descoberta, passagens ao invés de permanências, ritmo e movimento ao invés de peso e dor.
Difícil mesmo é escapar da mania demasiada humana de admirar a grama ao lado mais do que as próprias conquistas, de sonhar com estabilidade e aventura na mesma página, de querer louça lavada e unha feita na mesma tarde, de conciliar o desejo de descanso e o amor pela madrugada na mesma programação.
Ouvi dizer que os japoneses têm um conceito que separa dentro e fora de casa como forma de organizar a existência inteira. Para eles, tirar os sapatos na entrada é o ritual mais evidente deste modo de ver as coisas.
Estamos falando não apenas de deixar a sujeira da rua do lado de fora, mas também de manter distantes o peso do dia, o cansaço dos olhos, o barulho do corpo e o medo do futuro, para voltar com fôlego renovado.
Nesta lógica, casa e estrada se completam como velhos amigos. Elas dialogam e se equilibram uma no equilíbrio da outra, oferecendo força e refúgio, combustível e inspiração, a alternância do alento de um teto com tudo o que pode haver na pista.