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Cidadania

Ainda há quem acredite no "Você sabe com quem está falando?"

O que os faz defender que a vontade individual ou os contatos que têm são mais fortes que o bem coletivo é a sensação de privilégio. Uma sensação que, infelizmente, tem tudo a ver com o Brasil

Públicado em 

26 jul 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Desembargador de São Paulo Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira gravado em vídeo ao chamar guarda civil de analfabeto ao ser multado por estar sem máscara
Desembargador de São Paulo gravado ao chamar guarda civil de analfabeto ao ser multado por estar sem máscara Crédito: Reprodução
É o professor Mário Sérgio Cortella quem diz, numa palestra famosa de 2005: somos um entre 6,4 bilhões de indivíduos no planeta, pertencentes a uma espécie entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Quinze anos depois da palestra famosa, deixamos de ser 6,4 bilhões de indivíduos no planetinha que gira em torno de uma estrelinha para sermos 7,6 bilhões. Há alguns dias, um homem entre estes 7,6 bilhões de indivíduos saiu para caminhar sem máscara na orla de Santos, litoral de São Paulo, contrariando a legislação local, que obriga o uso do acessório em vias públicas da cidade durante a pandemia do coronavírus.
A cena foi exaustivamente noticiada, compartilhada e comentada. Embora seja um entre os cerca de dois mil desembargadores do Brasil - um profissional a serviço do cumprimento da lei, portanto -, o homem sem máscara de Santos tentou intimidar o policial que questionou sua conduta, rasgou a multa e ligou para o secretário de Segurança Pública.
O motivo: julgar que deveria ter um tratamento diferente dos outros habitantes do planetinha que gira em torno de uma das 100 bilhões de estrelinhas que compõem a nossa galáxia.
Poucos dias antes, um casal num bar do Rio de Janeiro durante uma fiscalização da Vigilância Sanitária e um empresário de São Paulo denunciado por violência doméstica tiveram julgamento parecido. Tanto a fala da mulher no Rio - “Cidadão não, engenheiro civil, formado. Melhor do que você.” - quanto a do homem em Sampa - “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano!” - demonstram um sentimento de superioridade diante dos outros tão profundo quanto equivocado.
O que os faz defender que a vontade individual, o endereço de luxo ou os contatos que têm são mais fortes que o bem coletivo, a saúde pública e as regras do país é a sensação de privilégio. Uma sensação que, infelizmente, tem tudo a ver com o Brasil.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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