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Filme

"A Peste da Insônia" é um pequeno alento em meio a tantas más notícias

Apesar das incertezas do período, uma ou outra estrela bailarina têm nascido deste imenso caos que se instalou desde a chegada do novo coronavírus

Públicado em 

28 jun 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Cem anos de solidão
Cem anos de solidão Crédito: Reprodução/cinemacao
Apesar das incertezas e perdas produzidas pela pandemia, uma ou outra estrela bailarina têm nascido deste imenso caos que se instalou desde a chegada do novo coronavírus.
Quero sugerir uma delas para vocês: o curta-metragem “La Peste del Insomnio”, que podemos traduzir como “A Peste da Insônia” e assistir gratuitamente no site www.fundaciongabo.org e no YouTube. No filme de 15 minutos, 30 atores latino-americanos leem trechos do mágico romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, descrevendo uma quarentena parecida com a que estamos atravessando – uns com mais juízo, outros com menos.
Os trechos nos contam a respeito de uma epidemia que assolou Macondo, a aldeia do livro publicado em 1967. A Peste da Insônia fez um, depois dois, depois todos os habitantes da cidade perderem completamente o sono. E, embora o patriarca José Arcadio Buendía acreditasse que a doença era bem-vinda, porque faria a vida render mais, a epidemia escondia uma consequência terrível. Os dias e noites em claro evoluíam para o esquecimento, sumiam com as lembranças, o nome e a noção das coisas, a consciência do ser.
Ironicamente, Gabo perdeu-se da própria memória pouco antes de morrer, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. Na época, parou de falar ao telefone, porque não reconhecia os interlocutores pela voz. Quando não sabia com quem conversava, fazia perguntas genéricas como “o que tem feito?” para tentar reencontrar o rumo.
Coisas mais antigas, segundo consta, continuaram intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores do mundo.
Gabo morreu em 2014, dois anos depois de perder a memória. “Cem Anos de Solidão” permanece como um dos livros mais importantes da vida de muitos de nós. A Peste da Insônia encontrou a cura.
Como Melquíades, o cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal que levou o gelo e outras invenções a Macondo, “La Peste del Insomnio” é uma pequena dose de imaginação e esperança, um pequeno alento em meio a tantas más notícias.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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