Soube, na semana passada, que está em curso um movimento capaz de produzir grandes impactos na vida de quem mora e frequenta Vitória. Me fez lembrar do que relatei numa crônica:
“Talvez eu estivesse exatamente onde, hoje, está o já antigo restaurante de cozinha portuguesa. A tarde ia bem avançada, com o sol atrás do Morro do Cruzeiro. A temperatura, embora fosse quase inverno, não pedia o uso de agasalhos.
Sentado na beirada do paredão de pedras, olhava o mar à minha frente. A maré alta trazia as águas pra bem perto, quase acabando com a faixa de areia.
O encontro da avenida que vinha do centro da cidade com a rua que corria paralela ao mar formava um enorme largo triangular. No terreno de esquina, meio escondida por mangueiras e flamboyants, existia uma casa avarandada, da família Michellini. Parecia uma construção de ingleses na África. No beiral da varanda tinha uma espécie de renda bordada em madeira.
Sempre tive vontade de me sentar numa daquelas cadeiras brancas e passar horas olhando o mar, como se estivesse num tombadilho. Embora parecesse muito agradável viver ali, a varanda e o jardim estavam sempre vazios e silenciosos.
No outro lado daquele triângulo, quase defronte da primeira das 62 castanheiras plantadas na calçada à beira mar, lá estava o Bar do Walter, já aberto, mas ainda vazio de fregueses.
Passagem obrigatória para pedestres e ciclistas, aquele era um ponto estratégico para quem buscasse companhia em plena tarde de um dia de semana qualquer. Sabia, por experiência, que se ficasse dando sopa por ali, mais cedo ou mais tarde apareceria alguém.
A espera foi curta. Vi de longe uma conhecida minha e fiz sinal pra ela. Moça simpática, de pele morena e cabelos ondulados, foi chegando com sorriso que demonstrava alegria por me ver de volta.
Mas nem bem acabou de dar os dois beijinhos de praxe, percebi que ela me olhava com uma expressão grave, de reprovação.
Embora a nossa intimidade não fosse muita, ela a considerou suficiente para externar o que lhe vinha na alma de adolescente bem-comportada, “careta”, como se dizia:
- Alvaro, você devia cortar seu cabelo. Pega mal para um engenheiro usar cabelo desse tamanho!
Falou aquilo com plena convicção, mais parecendo uma tia solteirona querendo proteger o sobrinho dos maus caminhos. Argumentou que o meu tempo de rapaz despreocupado tinha terminado e que aquele cabelo grande poderia atrapalhar o meu futuro promissor.
Na verdade, o cabelo nem estava tão grande assim. Em dezembro - e era maio - havia pedido ao meu barbeiro, na Praça Costa Pereira, que cortasse bem baixinho, no mais perfeito estilo “valsa de formatura”, que eu iria dançar no Clube Libanês, metido num smoking alugado.
A barba é que talvez estivesse um pouco fora do usual. Apesar de muito escura e espessa, não indicava desleixo. Afinal, ainda que já tivesse me formado, eu continuava sendo um estudante, agora de pós-graduação.
A minha figura era compatível com o tempo em que vivíamos, quando os movimentos de contracultura e de protestos políticos aconteciam país afora. E tem sido com ela que me apresento ao mundo desde aquele 1971, talvez por saudades da energia de uma época e por algum conservadorismo.
Pois pouco tempo depois, fiquei sabendo que iriam demolir aquela bela casa para construir um prédio enorme, altíssimo, completamente fora dos padrões vigentes na Praia do Canto. Aquilo sim, mereceu um sonoro pega mal, na forma de protestos coletivos de moradores, insuficientes, entretanto, para impedir sua concretização”.
Aquela obra era uma iniciativa isolada. Agora, pelo que me disseram, está em curso uma aglutinação de forças e de interesses expressivos para fazer com que Vitória venha a abrigar mais 100 mil novos habitantes, além dos 360 mil atuais.
Imaginei, imediatamente, um tanto de gente esfregando as mãos de excitação, pensando nos lucros, sem ao menos se preocupar com os perrengues e impactos que isso provocará para os que estiverem por aqui, no futuro.
Para que fique registrado, declaro que não fui consultado a respeito desse assunto e que cravo aqui a minha veemente discordância dessa perigosa pretensão de uns poucos. A título que instigação, sugiro que considerem seriamente os impactos diretos no trânsito e na qualidade de vida das pessoas, incluindo o direito à paisagem.