De uns tempos pra cá, instalou-se no país um ambiente tóxico, expresso por roubos oficiais na previdência de milhares, demonstrações de gulodice de poderoso recém-empossado, esforço organizado para desmonte da legislação ambiental com desrespeito à sua defensora desde sempre, desconforto de ministro sério nadando contra maré, dentre outros descalabros. Uma labirintite presidencial me fez lembrar do que escrevi sobre um tempo vivido em João Pessoa, na segunda metade dos anos 1970.
”A varanda interna era o melhor lugar da casa pra gente ficar. Três pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da direção do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da sala ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda do quintal. De barriga pra cima, podia-se acompanhar o progresso diário da construções de barro que os marimbondos faziam.
Quero dizer, com isso, que aquele lugar era quase perfeito para um usuário convicto de rede, tal como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitassem pudessem se sentar.
Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas, são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som de palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.
Naquela varanda, dependendo da intimidade, o visitante podia se esticar em uma outra rede e, nessas ocasiões, a conversa corria bem mais frouxa, lentamente. Na rede, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física, as conversas quase sempre rangem, como os ganchos roçando nos prendedores. Os olhares — quando possíveis — são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.
Daquele telhado, eu conhecia praticamente tudo: os pilares, as vigas, os caibros, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barro. Da marca impressa em baixo relevo não me lembro: talvez fosse Santa Rita.
Que diferença faria saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.
As casas dos marimbondos se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas delas davam evidentes sinais de abandono, de já terem cumprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?
As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansaço, quando se sente inseguro, agoniado e tudo o mais que pode sentir em situações que se apresentam no dia a dia, fora de seu controle. Muitas vezes descarreguei nelas o que não conseguia dividir com ninguém. Depois, de alma mais aliviada, acabava dormindo tranquilo.
Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede, mas falta o telhado? Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: pelo que sei, o liso do reboco e o branco da tinta não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.
Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retêm quase tudo que chega até elas.
Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando aquelas telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, nas coisas do trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de grande responsabilidade, numa terra muito distante de onde ele nasceu.”