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Crônica

Nem tudo são flores

Não tenho tido vontade nem ilusões sobre a possibilidade de alterar o rumo das coisas. O nível das minhas certezas diminui com o crescimento da sensação de impotência

Publicado em 18 de Abril de 2025 às 03:00

Públicado em 

18 abr 2025 às 03:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Nas últimas crônicas só falei de acontecimentos positivos, de histórias emocionantes, de perspectivas animadoras, de fatos repletos de alto astral e de expectativas pra lá de sensacionais. Posso dizer que tudo aquilo que era provável aconteceu e que algumas previsões se confirmaram em nível bem superior ao esperado. Pra mim e pra muitos.
Agora, constato que uma espécie desânimo, frouxo e persistente tende a se instalar na alma de um brasileiro de 77 anos, dono de uma barba bem branquinha, casado com a mesma mulher há mais de 52, com quem constituiu família numerosa e animada, daqueles que convive com muita gente querida e se diverte com o que faz.
Na verdade, percebo que isso pode ser consequência de um ambiente carregado, bem baixo astral, que cresce e nos ronda, algo relativamente amplo e difuso, preocupante, mesmo. Como se não bastassem as notícias sobre fatos verdadeiros, muitos escabrosos, que nos chegam diariamente pela imprensa.
Pela internet, surgem, com fartura sistemática, mensagens pensadas e programadas para direcionar valores, opiniões e visões de mundo. No campo da política e dos poderes, nada nos é enviado gratuitamente, por engano ou ingenuidade.
Pelo que constato, as fontes de informações que sistematicamente derrubam nossos níveis de alegria ganham efetividade e produzem resultados políticos expressivos para muito além do esperado, até mesmo por especialistas de marketing e formação de opinião.
Pelo que aprendi, a metodologia utilizada a serviços dos pretendentes a senhores poderosos tem por objetivo produzir tensão, criar e manter raiva e ganhar confiança de muitos, seja lá para o que for. A estratégia de produzir tensão e obter adesão tem ganhado corpo e efetividade crescente mundo afora, o que já apavora muita gente.
Nestes últimos meses, fiz as contas e concluí que minhas atenções estiveram ocupadas pelas doideiras de Trump, um cabra prepotente, narcisista desvairado e perigosíssimo. Confesso que nada de bom passou pela minha cabeça vendo a sucessão de seus disparates e desrespeitos a tudo e a todos.
Aqui, bem mais perto, tenho acompanhado uma movimentação política de oposição como pouca se viu, na forma de um projeto de anistia para gente que embarcou numa canoa furada mas, na verdade, para quem andou tramando golpe. O que chama atenção é o seu uso como instrumento de pressão política, em ensaio geral para a próxima partida (ou seria guerra?) eleitoral.
Na imprensa, as páginas de crônicas policiais estão repletas de relatos de bandidagens inovadoras e lucrativas, além de muitas mortes e de disputas sangrentas entre quadrilhas e comandos. Como se não bastasse, tenho visto matérias sobre investigações policiais a respeito de grandes mutretas e negócios escusos com dinheiro público de emendas parlamentares.
Soube que, ao fazerem as contas, constataram que o valor das emendas é muito maior do que as verbas livres, não comprometidas, dos ministérios. É desgoverno dos brabos e reeleição garantida para gulosos espertos. Governo fragilizado e sem rumo é sopa no mel pra quem joga duro e chantageia sem dó nem vergonha.
Alho
Alho Crédito: Pixabay
A raiva vai alimentando as cabeças e as almas em quantidade crescente de desavisados antigos e de recém-desiludidos. Isso preocupa e desanima, pelas tamanhas convicções que gera e pelos desconfortos que produz nas relações familiares e entre amigos.
Na verdade, diferentemente de outrora, não tenho tido vontade nem ilusões sobre a possibilidade de alterar o rumo das coisas. O nível das minhas certezas diminui com o crescimento da sensação de impotência, o aumento da complexidade do panorama e a efetividade das poderosas campanhas difamatórias e das estratégias manipuladoras de corações e mentes.
Como se tudo isso não bastasse, ontem, no supermercado, o alho estava custando R$ 42,90 e o tomate da moqueca a bagatela de R$ 14,99.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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