A vida nos oferece oportunidades de realização pessoal, incluindo umas tantas que surgem como desdobramentos do que se tenha feito de bom e bonito até então. As histórias que vêm acontecendo por conta das colheres de bambu comprovam que vale a pena fazer bem feito.
Pois na semana passada fiz a minha estreia como palestrante especializado nos assuntos relacionados aos fundamentos e prazeres associados à produção, incluindo as atitudes, os métodos, os recursos e tudo o mais que adoto e utilizo quando estou retirando pedaços do bambu em busca de uma forma que me agrade.
Durante os muitos workshops que dei para públicos bem variados, a falação era sempre orientada aos cuidados e às práticas recomendadas para se obter uma peça qualquer. Os participantes sempre estavam mais interessados em tentar fazer com suas próprias mãos, algo que poucos experimentam. Sempre gostei de ver pessoas se dedicando com afinco ao trabalho manual, realizado na base da tentativa e erro.
Desta vez, as ferramentas e os bambus ficaram de fora. Com ajuda de Manaira e Bebel, nossas filhas, imagens impactantes projetadas na parede ilustravam o que eu ia contando sobre o que penso, sinto e persigo quando estou às voltas com bambus, foices, faquinhas, goivas, lixas e cacos de vidro.
Falei também sobre o uso sistemático da nossa capacidade de observação dos limites, das imperfeições e das possibilidades de cada pedaço de material, das potencialidades dos recursos disponíveis, do aprendizado que surge da repetição, das vantagens de produzir sem projeto, livre de expectativas sobre onde se quer chegar.
Foi estimulante ver as expressões de encantamento e concordância das pessoas diante de conceitos tão elementares, de verdades às vezes esquecidas e de lógicas tão simples e consistentes que adoto no dia a dia. Tratei de declarar a minha convicção de que fazer bem feito compensa e que convém tirar os defeitos antes que alguém os encontre.
A palestra aconteceu na nova sede do Istituto Europeo di Design, no Centro do Rio de Janeiro, no começo da noite, quando aquela região fica praticamente deserta e relativamente perigosa para alguns.
Fiquei surpreso de ver tanta gente corajosa, com disposição pra sair de casa numa terça feira para ouvir alguém falar sobre fazer colheres de bambu de montão.
Pois lá estavam umas 40 pessoas, metade das quais não conhecia. Gente madura, incluindo profissionais de diferentes áreas do design, fazedores de joias e artesanato sofisticado, professores, artistas plásticos e, porque não, curiosos avulsos.
Os resultados da avaliação da palestra, colhidos em questionário impessoal, comprovam a aprovação geral, o que me fez ficar “me achando”, o que é ótimo pra aumentar a auto confiança nessa nova atividade.
Voltei pra casa disposto a aceitar outros convites para compartilhar o que aprendi de bom nessa lida de colhereiro amador.