Esta crônica foi escrita sob fortes emoções, incluindo raiva, tristeza e desencanto. Vamos aos fatos.
Em meados dos anos 1990, a Prefeitura de Vitória decidiu acabar com a castanheira que existia na frente da nossa casa. Além de perder as folhas no inverno e produzir muitas castanhas, suas raízes tinham suspendido a calçada.
Para substituí-la, plantou duas mudas de pata de vaca, espécie que não estraga calçadas mas que desfolha completamente e descarta vagens secas de montão, para a trabalheira dos garis.
Elas estavam com ramos secos, alguns com uns 15 cm de diâmetro. Depois de meses de espera, foi bom ver um caminhão dotado de munk e um outro com caçamba e uns 10 homens vestindo macacão verde, da empresa contratada. Um deles fazia a poda usando uma motosserra fixada na ponta de uma haste retrátil.
Quando cheguei, já estavam tirando os galhos das grimpas, serviço que acompanhei de pé, na sombra do oitis do outro lado da rua, que está sempre verde.
Feito isso, estacionaram o caminhão ao lado da nossa casa, pra podar os galhos da acácia rosa que estavam fazendo carga nos fios de telefone e internet. Este ano aquela árvore está mais frondosa do que o normal. O serviço exigiu cuidados e boa pontaria.
A danação se instalou quando o homem começou a podar os galhos dos pés de hibisco, que cresceram na lateral do terreno, por cima do muro, formando uma simpática cobertura sobre a calçada. Pedi que parasse de cortar, mas não fui atendido.
Fui até o encarregado, pedindo que mandasse parar. Ponderei que aquelas plantas estavam daquele jeito há décadas e que eu mesmo cuidava de podar os galhos mais baixos, para garantir boas condições de trânsito na calçada, o que eu tinha feito na semana passada, antes da torrencial chuva. O homem da motosserra continuava cortando, para meu desespero.
Com cara de cidadão indignado, pedi pra ver a ordem de serviço que ele tinha recebido da PMV. Nela estava escrito, em termos de sugestão, que fosse cortado o que estivesse atrapalhando a circulação das pessoas e, eventualmente, o que impedisse que a luz das lâmpadas de 6 postes iluminasse o lugar.
O que seria uma orientação razoável, havia sido tomada como uma ordem expressa e irrevogável. Nessas alturas, a calçada inteira estava entulhada de galhos, folhas e flores, uma cena devastadora e impensável.
Em poucos minutos dizimaram aquela espécie de marquise verde, refrescante pra quem subiu ladeira na ida ou na volta da praia, e extinguiram um amistoso trecho de paisagem urbana, boa de ser vista por quem passasse do outro lado da rua, de carro ou em cima de uma bicicleta.
Como não bastasse, nossa casa ficou sem o anteparo vegetal que amenizava o calor do sol da tarde e sem a proteção discreta de uma faixa verde que existia acima do muro.
Registro aqui a minha tristeza em ver destruído algo de que me orgulhava por ter ajudado a formar e que cuidei, por anos a fio.