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Alvaro Abreu

Bilros, tambores e coquinhos depois de um passeio na Barra do Jucu

Acontece que sábado passado fomos à Barra do Jucu para conhecer uma movimentação que acontece há uns 10 anos: a retomada da produção de renda de bilro

Publicado em 29 de Maio de 2026 às 04:15

Públicado em 

29 mai 2026 às 04:15
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Desde o começo da semana passada eu estava decidido a escrever sobre as maravilhas da inteligência artificial para ajudar incompetentes como eu a tomar providências nos computadores e internets da vida moderna. 

O fato é que Rafael, nosso primogênito, conseguiu, num piscar de olhos e alguns poucos aprendizados na rede, criar um blog com as minhas 378 crônicas, que estavam espalhadas em arquivos por aí afora. Melhor: além de acessíveis, agora elas podem ser localizadas por categoria, palavras-chave, data e tudo mais. Facilitou de montão o serviço de selecionar as que vão para o livro. 


Acontece que sábado passado fomos à Barra do Jucu para conhecer uma movimentação que acontece há uns 10 anos: a retomada da produção de renda de bilro, uma tradição de longa data naquela antiga vila de pescadores. 


Num quintal enorme e repleto de gente, duas bandas de congo formadas por meninos e meninas, muitos ainda pequenos, aprendendo a cadência. A alegria em volta da garotada tocando era contagiante.

Produção de renda de bilro na Barra do Jucu
Produção de renda de bilro na Barra do Jucu Alvaro Abreu

Mais adiante, lá estavam duas fileiras com umas 20 almofadas de pano, recheadas com palha de bananeira e cobertas com um molde a ser seguido com rendas em andamento. Sentadas diante de algumas delas, rendeiras inteiramente concentradas no serviço, trabalhavam em silêncio. 


Dependurados nas laterais de cada almofada, mais de uns 20 bilros - peças de madeira dotadas de uma espécie de cabeça, arredondada, e de um cabinho comprido e fino com linha enrolada na ponta - completavam a cena. 


O trançado da renda é obtido movimentando-se os bilros com a ponta dos dedos, entrelaçando as linhas conforme o desenho e fixando e resultado com alfinetes.

Deve ser um servicinho muito bom de fazer. Imagino que as rendeiras experimentadas jogam os bilros de um lado para outro com grande habilidade, quase no automático e melhor, com pensamento nas coisas da vida.

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O que vi e ouvi de Regina Ruschi, pessoa gentil e determinada que está à frente desse processo, foi de emocionar: já são mais de 60 mulheres idosas e nem tanto, além de crianças já taludinhas, que se postam diariamente diante de uma grande almofada para trabalhar.


Contei pra ela que comprei uma dúzia de bilros, já bem gastos pelo uso, na feira de Caruaru, em 1978, e que os mantenho à vista, dependurados na luminária do banheiro. 


Ao ver que os da Barra são feitos com coquinhos, me lembrei das duas palmeiras no caminho de casa, em plena produção e me ofereci pra “catar coquinho” pra ela, que aceitou prontamente a oferta.  


Por conta disso, nesses últimos dias deixei as colheres de lado para me dedicar aos coquinhos pra fazer bilros. Recolhi duas sacolas cheias deles e tratei de retirar a casca vermelha e a polpa com ajuda de faquinhas de ponta fina, um servicinho demorado e de resultados inaceitáveis. Como a casca dos coquinhos é repleta de ranhuras, não consegui livrá-las da massa amarelada. 

Limpeza dos coquinhos Alvaro Abreu

Tratei de comprar uma escovinha de aço na loja de Manoel Araújo, na Leitão da Silva, e passei horas raspando e rodando o coquinho, com movimentos na direção das fibras, até limpar completamente, pensando naquelas cenas que presenciei.


Na falta do que fazer, passei a contar as raspadas que dava e me espantei com os números: umas 65 em cada um dos 175 coquinhos, que contei por curiosidade. A calculadora do celular informou um total de 11.375 raspadas.


Com certeza, fazer renda de bilro é bem mais complicado do que limpar casca de coquinho, na medida que exige movimentos específicos para mudar a orientação, completar o comprimento, alterar a grossura, mudar as cores e muito mais para fazer certo e bonito. 


Bem sei que servicinhos repetitivos, que exigem pouca atenção, proporcionam oportunidade para lembrar de pessoas e fatos, ter ideias mirabolantes e sentir boas emoções.

 

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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