Pela TV, a tranquilidade das famílias se preparando para sair do país chamou minha atenção. Vi mulheres carregando filhos e malas, com jeito de quem vai ali e já volta. Homens adultos permanecem no país para se juntar aos que estão vindos de fora, para o que der e vier.
Curioso, resolvi ver o documentário “Winter on Fire”, disponível na Netflix, para entender melhor aquela gente que escolheu um comediante para presidir seu país, situado numa região com histórico de guerras e invasões, sob ameaças do vizinho expansionista.
O filme trata do movimento de insatisfação popular ocorrido no inverno de 2013/2014. Começa com cenas de muita gente entusiasmada cantando e caminhando em direção à grande Praça Maidan, no centro de Kiev, para se reunir em torno do monumento à independência. Logo aparecem pessoas mais velhas, inclusive muitos idosos. Todos com um sorriso de satisfação no rosto.
Num protesto pacífico, seu propósito era deixar claro que queriam viver em democracia e serem reconhecidos como cidadãos europeus que são. As palavras de ordem - liberdade, democracia e independência - têm fundamento em uma história secular de lutas por autonomia.
Surgem na tela as primeiras ações de policiais orientados a dissolver a aglomeração, sem qualquer resultado. Começa uma escalada de violência com o uso de cassetetes. As pessoas não se intimidam. A resistência dos manifestantes vai crescendo na exata medida da repressão. Barricadas são erguidas nas avenidas e as pessoas se armam de pedras e pedaços de pau. Batalhas campais, com correrias e enfrentamentos diretos.
A violência policial ganha contorno de barbárie na forma de sequências brutais de cassetadas desferidas em cidadãos caídos no asfalto, contorcendo-se de dor. Nas cenas seguintes, os estampidos dos tiros de borracha e a fumaça das bombas de efeito moral invadem a tela.
As primeiras mortes de cidadãos vêm pelos dedos experientes de mercenários contratados pelo governo para fazer o serviço sujo. As lentes dos cinegrafistas captam imagens de ucranianos sendo abatidos em ação e, pior, tentando recolher os feridos.
O documentário termina com a fuga do presidente pró-Rússia que traiu a confiança da população por não assinar o ingresso do país na Comunidade Europeia, conforme prometera na campanha eleitoral.
A coragem e a determinação são fatores essenciais em muitas vitórias. Homens que lutaram ali são tratados como “nossos heróis”. Nessa linha, uma notícia chamou minha atenção, pelo que pode expressar: uma pequena fábrica de cerveja resolveu produzir coquetel molotov para reforçar as linhas de resistência.
A atuação de estadista do presidente ucraniano emociona compatriotas e líderes mundiais. Parece ser um homem que age orientado por valores nobres e sob compromissos com a história de sua gente. Falam em aprovação quase unânime dos seus concidadãos.
Nem imagino os desdobramentos dessa guerra promovida por um homem frio e calculista que aos poucos, no ritmo de seus próprios erros, perde prestígio popular e se isola do resto do mundo. Torço para que russos poderosos e chineses espertos consigam sustar a bestialidade dele a tempo.