Lá estou eu, novamente, querendo escrever crônica sobre as façanhas mirabolantes e as safadezas engraçadinhas da minha querida Amora. Não que ela mereça mais atenção do que lhe dedico nem que esteja precisando de mais fama do que já tem. A danação é que continua insuportável ficar vendo o noticiário de TV e lendo matérias em jornais digitais sobre os acontecimentos sócio-criminais, lá pelas bandas dos poderes da República.
Como se não bastasse ver foto de autoridade máxima da área da Cultura portando metralhadora com cara de chefe de bando, indicação a ministro supremo de um desembargador que fez tese de doutorado plagiando textos de colega, cansar de ver imagens do fogaréu guloso contrastando com o cinismo ministerial, me deparo com a sandice desvairada de um juiz superior mandando soltar um bandido profissional, homem importante dos negócios do tráfico e do poder paralelo que só cresce e se espalha.
Os jornais trazem bate-bocas variados sobre o acontecido e retrospectos das atitudes semelhantes no passado recente do ministro que faz o tipo rebeldinho independente. Mais do que isso, fornecem informações objetivas e comprovadas que apontam para articulações suspeitas entre advogados e julgadores. A pressa descabida da soltura do bandido, no sábado que antecede um feriado na segunda-feira, torna impossível a defesa daquela decisão monocrática superior. De tão indefensável, ela foi imediatamente revista por quem de direito e foi para a pauta das decisões colegiadas, com maioria a favor de sua anulação.
Fica fácil imaginar cenas da bandidagem comemorando com justa causa, vangloriando-se do poder de compra e influência recém-adquiridos, debochando e ridicularizando a pose de mocinho de homens togados. Imaginar essas coisas não faz bem ao fígado de ninguém.
Pouco antes, uma grande operação da Polícia Federal havia resultado em dezenas de prisões, incluindo gente da cúpula de facção criminosa poderosa, e no bloqueio de alguns bilhões de reais em bens e dinheiro em bancos, além de milhares de notas de 100, guardadas num armário desses de arquivar papéis antigos da burocracia.
É como se o poder público estivesse dando uma pancada no cravo e outra na ferradura, fazendo o jogo do bate e assopra. Aos olhos dos cidadãos que pagam seus impostos na expectativa de receber bons serviços, o cenário produz insegurança e revela processos de desmonte e riscos de falência de instituições públicas fundamentais.
Apesar disso tudo, declaro, com todas as letras e vírgulas, que me sinto com o direito a um pouquinho que seja de esperança de que as coisas possam melhorar mais adiante.