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Desenvolvimento

Os dilemas do setor industrial para a economia do Espírito Santo

Um dado relevante é a redução da participação de todo o setor industrial na economia do ES, indicando um ritmo de desindustrialização. Mas a indústria irradia crescimento econômico no Estado e precisa ser incrementada

Publicado em 08 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

08 mai 2020 às 05:00
Aldren Vernersbach

Colunista

Aldren Vernersbach

Porto de Tubarão, em Vitória
Porto de Tubarão, em Vitória Crédito: Gildo Loyola/Arquivo
A indústria do Espírito Santo surgiu na década de 1970, dentro da estratégia do Estado brasileiro de transformar a economia nacional, tornando-a baseada no setor industrial. O estímulo ao desenvolvimento do setor no ES foi uma política de compensação pelas restrições produtivas impostas à cafeicultura durante a crise do café na década anterior, o que afetou toda a estrutura econômica do Estado.
O governo federal, após grande pressão capixaba, definiu que inicialmente duas empresas estatais, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), atual Vale S.A., e a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), atualmente ArcelorMittal Tubarão, seriam erigidas no Espírito Santo. Essa determinação, resultante dos esforços da classe política do Espírito Santo à época em busca de investimentos no Estado, mudou os rumos da economia capixaba.
A indústria foi colocada como um setor central, criando novos segmentos industriais em torno das grandes empresas que depois se tornaram multinacionais. Entretanto, ao longo dos últimos anos, o setor tem reduzido a sua participação na economia estadual, devido à perda de competitividade e, consequentemente, de mercados, o que é reflexo da ausência de atualização tecnológica geral, incentivos à inovação e a retomada de uma política industrial, ajustada às especificidades do Espírito Santo.
Atualmente, as atividades industriais estão menos diversificadas, concentradas nas multinacionais do segmento extrativista, com participação de aproximadamente 42% na indústria, bem como em segmentos com baixo índice de agregação de valor. Na indústria de transformação, a produção concentra-se no segmento de metalurgia, com participação próxima de 13,2% no setor; celulose e subprodutos com 9,8%; e produtos de minerais não metálicos com cerca de 9,2%.
Essa concentração evidencia a retração da atividade nos outros segmentos, particularmente nos que compõem a indústria de transformação, geradora de maior valor agregado, empregos e desenvolvimento regional. Mais um dado relevante é a redução da participação de todo o setor industrial na economia do Espírito Santo, indicando um ritmo de desindustrialização.
Em 2007, a indústria representava cerca de 39% do PIB estadual. Em 2011, a sua participação setorial atingiu um percentual próximo de 43%, porém, a partir desse ano, as atividades industriais capixabas registraram quedas consideráveis na geração de riqueza no Estado. Em 2017, a indústria representou cerca de 22,3% do PIB, uma redução de aproximadamente 16,7% pp. no PIB do Espírito Santo.
O encolhimento da dimensão da indústria no ES é preocupante, uma vez que o setor industrial é o elo da economia com: (1) capacidade de gerar encadeamentos produtivos, incorporando uma miríade de outras atividades produtivas ao setor; (2) capacidade de proporcionar desenvolvimento econômico e tecnológico, com potencial de transbordamentos para os outros setores da economia; e (3) capacidade de gerar empregos mais qualificados, devido à maior complexidade das atividades e, com isso, criar empregos com salários elevados (renda).
Fica evidente que a indústria é um setor que irradia crescimento econômico. Logo, a indústria capixaba deve ter a sua expansão estimulada para ampliar a geração de empregos, renda, receitas públicas e a competitividade econômica do Estado, objetivando aumentar a sua inserção na economia global industrializada, aproveitando-se do valor criado com a atividade industrial.
Esse valor consubstancia-se justamente na renda mais elevada dos empregos, na maior proporção de inversão dos lucros empresariais (parcela transformada em novos investimentos), e nos recursos estatais convertidos em serviços públicos universalizados, ampliadores da qualidade de vida da população.
Nesse sentido, elaborar uma política industrial destinada às indústrias da Região Metropolitana de Vitória e do interior do Estado mostra-se primordial ao Espírito Santo, o que se revela ainda mais importante diante da paralisação econômica provocada pela crise sanitária/humanitária do novo coronavírus, que já afeta a sua produção.
A indústria necessitará de auxílio para a sua recuperação, e segmentos industriais importantes, tradicionais do ES e quase extintos poderão ter o seu ressurgimento apoiado e estimulado. Uma das medidas possíveis é a formulação da mescla das duas modalidades de política industrial: a política horizontal e a política vertical (segmentada).
De toda forma, ambos os tipos devem ser embebidos no conceito da política industrial com viés para o estímulo à inovação, aumento e diversificação da produção, ampliação dos elos das cadeias produtivas no território capixaba – objetivando erigir cadeias industriais inteiras no estado – e a busca de novos mercados globais.

Aldren Vernersbach

A economia capixaba tem espaço aqui, com textos do economista, pesquisador e consultor, vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, membro do GEE, economista-membro da International Association for Energy Economics (IAEE) e do Institute for New Economic Thinking (INET)

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