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É economista, pesquisador e consultor, vinculado ao Instituto de Economia da UFRJ, membro do GEE, economista-membro da International Association for Energy Economics (IAEE) e do Institute for New Economic Thinking (INET)

Indústria de rochas ornamentais pode retroceder sem inovação

Portugal foi um dos maiores produtores da indústria de rochas, mas não investiu em inovação e atualmente o setor passa por um desmonte. Esse declínio evidencia a urgência das transformações a serem feitas na indústria capixaba

Publicado em 07/02/2020 às 04h00
Atualizado em 07/02/2020 às 04h01
Setor de rochas: necessidade de inovação. Crédito: Sindirochas/Divulgação
Setor de rochas: necessidade de inovação. Crédito: Sindirochas/Divulgação

A indústria de rochas ornamentais do Espírito Santo existe desde a década de 1930 e suas atividades ocorrem em vários municípios capixabas. Em 2018, o Estado concentrou cerca de 70% do volume exportado e 80% do faturamento das exportações de rochas do Brasil.

Apesar das rochas ornamentais serem um recurso natural próprio do ES, a sua industrialização, lhes agregando utilidade e valor, pode ser realizada em qualquer país onde esta indústria existe e se faz inovadora. Dessa forma, a concorrência do setor ocorre a nível global e atualmente está ainda mais elevada.

A nova revolução industrial/tecnológica corresponde a fusão das tecnologias digitais às atividades de inúmeros setores econômicos, lhes permitindo maior eficiência via automação e utilização de inteligência artificial, proporcionando a redução de incertezas, riscos e custos. Esse acoplamento tecnológico está ocorrendo na indústria de rochas ornamentais e redefinindo o padrão concorrencial do setor.

Aldren Vernersbach

Economista

"A concorrência é constante, a sobrevivência das empresas mais competitivas é a regra e a inovação é o que determina qual empresa permanecerá existindo no mercado"

Em Portugal, onde havia uma indústria de rochas em crescimento, agora ocorre uma crise setorial. Entre os anos de 2008 e 2012, o país viu desaparecer 158 empresas de lavra (extração) e 427 empresas do segmento de beneficiamento de rochas. Empregos desapareceram e os governos das regiões extrativistas do país perderam receita.

O setor não conseguiu competir globalmente e toda a cadeia produtiva está sendo reduzida, restando ainda a atividade de extração das rochas, que também enfrenta uma elevada concorrência global.

A crise sistêmica do setor em Portugal é resultado da manutenção das mesmas práticas industriais, com diminuta fabricação de produtos acabados e sem gerar inovação. O país observa toda uma cadeia produtiva retroceder a um mero setor exportador de rochas brutas extraídas de suas terras, tendo ainda que competir com a extração em expansão em outros países. Esse desmonte do setor em Portugal ocorre com velocidade alarmante, mas previsível, de acordo com o avanço das tecnologias digitais e sua fusão com a indústria, dentro do processo concorrencial global.

Um dos maiores concorrentes é a China, que extrai rochas em seu próprio território e compra blocos brutos de outros países para beneficiá-los. As empresas chinesas realizam a posterior exportação de produtos acabados e a execução de obras completas – utilizando tecnologias digitais avançadas – oferecendo as rochas e os serviços para a sua modelagem em projetos em todo o mundo.

Atualmente, a China é a maior produtora de rochas ornamentais, com participação setorial próxima de 32,2%. O Brasil está em quinto, com ligeiras quedas na sua participação setorial (5,4%). Além da China, a Índia e a Turquia avançam no setor, extraindo blocos e beneficiando rochas compradas de outros territórios do mundo, ou seja, a ampla e forte concorrência global é no segmento de extração e no de beneficiamento, com os produtos acabados e serviços especializados. Importante ressaltar que existe ainda a concorrência das rochas ornamentais com os produtos sintéticos e outros tipos de revestimento.

O declínio da indústria portuguesa de rochas evidencia a urgência das transformações a serem feitas na indústria capixaba. O exemplo a não ser seguido existe e o risco é iminente. A China já é o segundo maior comprador de rochas brasileiras, majoritariamente blocos brutos, e sua participação no faturamento das exportações nacionais cresce, tendo saltado de 8,6% em 2015 para 12,3% em 2017.

Os chineses já se inseriram na “Quarta Fase” do setor, que corresponde à produção de produtos acabados e personalizados e à execução de obras completas, utilizando as tecnologias digitais que reduzem os custos de produção e aumentam a sua qualidade. Vale ressaltar que o Espírito Santo produz e exporta majoritariamente blocos e chapas, com irrisória produção de produtos acabados e oferta de serviços especializados para obras.

A concorrência é constante, a sobrevivência das empresas mais competitivas é a regra e a inovação é o que determina qual empresa permanecerá existindo no mercado. O setor de rochas ornamentais do ES é importante para a economia estadual, gera empregos e desenvolvimento descentralizado, correspondendo a 10% do PIB capixaba.

O seu declínio representaria a redução de receitas do Estado, diminuição de empregos e crise econômica em municípios onde existem as suas atividades. Logo, a sua existência e crescimento devem interessar a todo o Espírito Santo.

As empresas do setor devem se colocar a par das mudanças necessárias, criar planos de equiparação tecnológica e geração de inovação para conseguirem concorrer com os competidores internacionais, ou poderão voltar a ser apenas empresas que extraem blocos de mármore e granito. A indústria de rochas ornamentais, que sustenta parte da economia capixaba, corre riscos de retrocesso. A criação de um “plano de inovação setorial” e as ações singulares por parte das empresas são essenciais para o seu crescimento.

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