O STF, ao reconhecer a repercussão geral do tema, assumiu uma responsabilidade histórica: a de conduzir o país rumo ao reconhecimento de novas formas de trabalho que respeitam a liberdade e a autonomia individual. A contratação via pessoa jurídica, em especial nas áreas de tecnologia, saúde, representação comercial, construção civil, consultoria, serviços especializados e serviços técnicos, já é realidade para grande parte dos brasileiros. Resta agora ao Judiciário garantir segurança jurídica a quem ousa viver fora da cartilha celetista.
Não se trata de negar a importância da CLT. Ela foi — e ainda é — essencial para proteger trabalhadores em contextos específicos. Mas a CLT, assim como o telegrama e o orelhão, serve hoje a um público cada vez mais restrito. A grande maioria dos brasileiros quer ser dona de seu tempo, de seu destino e de sua renda. Quer atuar como microempreendedor, MEI, consultor, fornecedor ou prestador de serviços sob as suas próprias regras — sem bater cartão, sem hierarquia, sem subordinação. E isso não é precarização. É liberdade.
Os números mostram que o Brasil vive uma revolução silenciosa. A taxa de desemprego está em 7%, a menor para um primeiro trimestre desde 2012. No entanto, mais de 32,5 milhões de trabalhadores atuam como autônomos informais ou sem carteira assinada. A informalidade atinge 38% da população ocupada. Há 25,9 milhões de pessoas trabalhando por conta própria. O que esses dados revelam? Que há trabalho. Mas que o modelo celetista, com carteira assinada e jornada rígida, deixou de ser a porta de entrada para a maioria.
E há mais: o prestador de serviço, em regra, amplia seus ganhos e sua autonomia em comparação ao regime celetista. Trata-se de uma escolha consciente por mais liberdade, flexibilidade e controle sobre a própria trajetória profissional. O Estado, ao invés de tratar essa realidade como uma ameaça, deve enxergá-la como oportunidade: o que se perde em arrecadação imediata, ganha-se em dinamismo econômico, estímulo à formalização via novas modalidades e expansão da base produtiva.
Se não quiser ficar à margem, o poder público terá de se reinventar. Porque não é razoável que o Brasil do século XXI continue tentando encaixar sua força de trabalho em um molde desenhado para a década de 1940.
A geração que está no mercado hoje não quer mais patrão — quer parceria. Não quer mais ponto — quer propósito. Não quer mais crachá — quer conexão. Cabe ao STF, ao reconhecer a validade da pejotização, dar o passo necessário para que o Brasil seja, de fato, um país onde a liberdade de trabalhar como se quer não seja apenas tolerada, mas respeitada e protegida.