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Alberto Nemer

Eu não tenho político nem ministro de estimação

O Supremo não precisa de fãs, mas de credibilidade. A democracia não precisa de torcidas, mas de cidadãos capazes de cobrar coerência até mesmo daqueles de quem gostam ou com quem concordam

Publicado em 08 de Setembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

08 set 2026 às 05:00
Alberto Nemer Neto

Colunista

Alberto Nemer Neto Alberto Nemer Neto

Há algum tempo, o brasileiro desenvolveu um hábito curioso e perigoso: ter político de estimação. Quando a denúncia atinge o adversário, exige investigação, afastamento e punição imediata. Quando envolve alguém do próprio campo, a reação muda: surgem justificativas, teorias conspiratórias e um esforço quase automático para diminuir a gravidade dos fatos. Agora, essa mesma lógica chegou ao Supremo Tribunal Federal, e há quem também tenha escolhido o seu ministro de estimação.


Eu não tenho político nem ministro de estimação. Se há algo que cultivo com estima, é o respeito à democracia, à Constituição, ao devido processo legal e às instituições. Pessoas passam, cargos mudam e decisões podem agradar ou desagradar, mas os princípios não deveriam variar conforme o nome de quem aparece na manchete.


O juiz exerce um poder muito particular. Não depende do voto popular e pode decidir sobre a liberdade, o patrimônio e a vida das pessoas, razão pela qual se espera dele independência, serenidade, prudência e uma conduta capaz de preservar a confiança da sociedade. A própria Lei Orgânica da Magistratura exige conduta irrepreensível na vida pública e particular, enquanto o Código de Ética da Magistratura coloca a imparcialidade e a integridade entre os fundamentos da função judicial. 

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É nesse ponto que se encaixa a velha máxima sobre a mulher de César: não basta ser honesta, é preciso também parecer honesta. Aplicada à magistratura, a mensagem é simples. Não basta ao juiz estar convencido de que agiu corretamente; sua postura também precisa afastar dúvidas razoáveis sobre sua independência e sua imparcialidade, porque a confiança pública faz parte da legitimidade de quem julga. 


É sob essa perspectiva que precisam ser examinados os fatos envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Um relatório da Polícia Federal, cujo sigilo foi retirado por decisão do ministro André Mendonça, reuniu mensagens e referências a contatos atribuídos a Moraes, além de elementos relacionados ao contrato firmado entre o banco e o escritório de sua esposa. 


A Procuradoria-Geral da República questionou a regularidade da apuração e pediu a anulação do relatório, enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, determinou que Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal prestassem esclarecimentos. 


Nada disso autoriza uma condenação antecipada. Há controvérsias sobre a forma como a investigação foi conduzida, sobre a identificação de algumas comunicações e sobre a validade dos elementos produzidos. Essas questões precisam ser consideradas com seriedade, porque o devido processo legal vale para todos, inclusive para aqueles que exercem os cargos mais importantes da República.

Sessão plenária do STF - 03/09/2026
Sessão plenária do STF - 03/09/2026 Gustavo Moreno/STF

Mas o devido processo legal não pode ser transformado em instrumento de silêncio. Presunção de inocência não significa imunidade a perguntas, assim como uma possível irregularidade na produção de uma prova não faz desaparecer os fatos que precisam ser esclarecidos. Se a apuração foi conduzida de forma inadequada, que se faça outra, agora de maneira regular, independente e transparente.


Na minha avaliação, Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro interessado em dissipar qualquer dúvida. Deveria autorizar voluntariamente a análise dos registros, aparelhos e comunicações relacionados aos fatos, por meio de uma perícia independente e com a necessária proteção dos dados de terceiros. Também deveria esclarecer sua agenda de encontros, sua participação no documento ligado ao contrato e a natureza das conversas mantidas com Daniel Vorcaro.


Quando digo que o ministro deveria abrir o telefone e o sigilo, não estou defendendo a exposição pública de sua vida privada nem o lançamento de conversas pessoais nas redes sociais. Refiro-me à entrega voluntária dos dados pertinentes às autoridades competentes, dentro de uma investigação formal, com objeto delimitado e respeito às garantias legais. Quem está seguro de que agiu corretamente deveria fazer questão de que os fatos fossem integralmente apurados.


Também considero que o afastamento temporário seria, neste momento, um gesto de responsabilidade institucional. Afastamento não é condenação nem reconhecimento de culpa, mas uma medida de cautela para proteger a investigação, o próprio ministro e, principalmente, a credibilidade do Supremo. Se nenhuma irregularidade ocorreu, uma apuração séria e independente será a maior aliada de Alexandre de Moraes.


A mesma régua deve valer para André Mendonça, Paulo Gonet, a Polícia Federal e qualquer outra autoridade mencionada. Se houve abuso, direcionamento da investigação, vazamento ou descumprimento das regras aplicáveis, tudo precisa ser apurado. Não é possível exigir transparência de um ministro e oferecer blindagem ao outro apenas porque suas decisões agradam mais a determinado grupo político.


O problema maior talvez esteja justamente na reação de parte da sociedade. Para alguns, Moraes já está condenado antes de qualquer investigação; para outros, fazer perguntas sobre sua conduta é atacar a democracia. Nos dois casos, abandona-se a análise dos fatos para proteger uma preferência pessoal, como se ministro do Supremo fosse jogador de futebol e o debate público, uma arquibancada.


Também estamos nos acostumando perigosamente com a sucessão de escândalos. Surge uma nova revelação, as redes sociais se agitam durante algumas horas e, poucos dias depois, outro assunto ocupa o seu lugar. O brasileiro relativiza o escândalo de hoje porque já espera o de amanhã, e aquilo que deveria provocar indignação começa a ser tratado como parte normal da paisagem nacional.


Já passou da hora de o Brasil despertar. E, usando uma expressão dura, mas necessária, passou da hora de o brasileiro ter vergonha na cara, abandonar a acomodação e parar de aceitar como normal aquilo que não deveria ser tolerado em nenhuma democracia séria. Isso não significa atacar o Supremo ou estimular o desrespeito aos seus integrantes; significa cobrar das autoridades uma postura compatível com o enorme poder que exercem.


O Supremo não precisa de fãs, mas de credibilidade. A democracia não precisa de torcidas, mas de cidadãos capazes de cobrar coerência até mesmo daqueles de quem gostam ou com quem concordam. Eu continuo sem político e sem ministro de estimação, porque o meu compromisso é com a Constituição e com a República. Ministros passam, mas as instituições precisam permanecer.

Alberto Nemer Neto

Alberto Nemer Neto Alberto Nemer Neto

Advogado trabalhista, coordenador do curso de especialização em Direito do Trabalho da FDV e torcedor fervoroso do Botafogo. Neste espaço, oferece uma visão crítica e abrangente para desmistificar os conceitos trabalhistas e promover um entendimento mais profundo das dinâmicas legais que regem as relações de trabalho

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