O despertador pode até tocar, mas, nas casas de Fradinhos, quem anuncia primeiro que o dia começou são os pássaros. Da janela, o café da manhã vem acompanhado pelo verde das árvores. Nos quintais, ainda há árvores frutíferas e galinheiros. Na praça, galinhas-d'angola circulam entre moradores e visitantes.
O cenário está em Vitória, uma capital oficialmente classificada sem território rural, que carrega um título estreitamente ligado à realidade urbana: a cidade que tem o metro quadrado mais caro do país, segundo resultados recentes do Índice FipeZAP.
Fradinhos, no entanto, vive com outras dimensões. Em sua área, residem cerca de 1.600 pessoas, segundo o Portal do Observatório de Indicadores da Cidade de Vitória (ObservaVIX), com base em dados de 2022 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A paisagem e o senso de comunidade no bairro ganham espaço, em terrenos que preservam o verde e em quintais mais amplos que constratam com os apartamentos cada vez menores de outros lugares. Em razão dessas características escassas nos grandes centros, moradores comparam a vida local ao dia a dia nas cidades do interior. E atestam: é uma “ilha rural” dentro da Capital, no Maciço Central da Ilha de Vitória.
Nesta terça-feira (8), data em que Vitória completa 475 anos, A Gazeta mostra como a infraestrutura do bairro divide espaço com áreas de mata, pequenos sítios e animais. Também detalha as relações de vizinhança de pessoas que vivem há décadas no mesmo endereço.
“Temos muito orgulho de dizer que aqui é como se fosse um pedaço do interior no meio da Capital. A gente acorda todos os dias com o canto dos pássaros, toma café da manhã olhando para o verde da natureza. Ainda vemos cavalos passando de vez em quando”, afirma a presidente da Associação de Moradores de Fradinhos, Aneris Pauzen.
A líder comunitária ressalta que pequenos sítios e chácaras ainda fazem parte do cenário. Árvores frutíferas também permanecem nos quintais, e há moradores que colocam parte do que colhem em sacolas nos portões para que outras pessoas possam levar.
Mas a sensação de viver em uma cidade menor não está apenas na paisagem. Faz-se presente também no convívio mais próximo entre os habitantes.
Vizinho conhece vizinho
Edilson Layber está em Fradinhos há 60 anos. Aos quase 70, o morador lembra-se de quando chegou ainda criança e encontrou pequenas casas construídas pela Cohab, a Companhia de Habitação, em meio a mangueiras, jaqueiras, goiabeiras e jambeiros.
Naquela época, de acordo com ele, havia uma nascente de água potável onde as crianças faziam pequenas barragens para tomar banho. A estrada era de terra e a água que atravessava o caminho chegava a formar lama e dificultar a passagem dos carros.
Para Edilson, a paisagem mudou nas seis décadas seguintes, mas a proximidade entre os moradores permaneceu.
Na casa onde vive com a mulher, Dilma Layber, essa relação está em situações cotidianas. “Se a vizinha precisa de um leite condensado, ela vem aqui. Se o Correio entregar alguma coisa e a gente estiver fora, deixa com o vizinho. Às vezes, vai parar na quarta, na quinta casa e depois chega até a gente. Está sempre um olhando pelo outro”, conta Dilma.
A natureza é outro elemento que a família relaciona à vida no bairro. “A gente é mais feliz quando vive perto da natureza”, afirma ela, acrescentando que os filhos cresceram convivendo com plantas e animais.
Edilson também atua de forma voluntária no resgate de pássaros encontrados machucados. Ele cuida dos animais e, após a recuperação, devolve-os à natureza. Segundo o morador, esse contato mudou ao longo da vida. Quando mais novo, chegou a capturar e ferir animais, prática que abandonou com o passar dos anos. “Hoje eu sou o contrário. Não deixo ninguém pegar.”
Um bairro cercado pelo verde
Parte dessas características está vinculada à própria formação de Fradinhos.
Aneris Pauzen conta que a região foi ocupada por antigas fazendas que, ao longo do tempo, tiveram áreas vendidas e loteadas. Posteriormente, foram construídas moradias para trabalhadores de fábricas existentes nos arredores e, mais tarde, conjuntos habitacionais.
A partir da década de 1980, segundo ela, a proximidade com a natureza também passou a atrair novos moradores. “Vieram vários ambientalistas, fotógrafos, pessoas que gostavam desse estilo de vida mais interiorano”, afirma a líder comunitária
A presidente da associação enfatiza que Fradinhos chegou a ser chamado por moradores de “Suíça capixaba”, em referência ao verde e à qualidade do ar.
Foi também na década de 1980 que começaram as mobilizações pela preservação das áreas verdes. Conforme a associação, a comunidade se organizou contra projetos que poderiam avançar sobre a mata e ampliar a ocupação do bairro.
O movimento continuou nas décadas seguintes. Em 2016, foi criado o Refúgio Municipal de Vida Silvestre de Fradinhos, unidade de conservação que abrange áreas de mata no entorno do bairro.
Aneris destaca que a criação da unidade trouxe proteção legal para a área, mas defende que o refúgio ainda precisa ser efetivamente implementado para ampliar ações de fiscalização, prevenção a incêndios e combate a ocupações irregulares.
"A gente cuida dos filhos dos outros"
A relação estreita entre os moradores também aparece no relato de Cláudia Fraga, que resume a dinâmica que observa no bairro em uma frase: “Aqui, a gente cuida dos filhos dos outros”.
Segundo ela, a atenção também se estende aos moradores idosos. Quando alguém percebe uma situação diferente, avisa familiares ou vizinhos. A troca ocorre ainda por meio de alimentos e produtos cultivados nos quintais.
Aos sábados, moradores também se encontram em um café da manhã coletivo. Cada participante leva alguma coisa para dividir à mesa.
Associação de Moradores
Essa relação comunitária também ultrapassa os limites de Fradinhos. Cláudia e Rogério Fraga mantêm em casa uma quadra de pickleball utilizada em atividades com crianças e adolescentes de comunidades próximas.
A atuação social do casal começou antes da construção da quadra. Quando ainda eram namorados, os dois organizaram um time de futsal com crianças. As carteirinhas dos jogadores eram feitas à máquina de escrever, o transporte era garantido por uma Caravan. Segundo Cláudia, o casal pagava do próprio bolso os lanches e outras despesas.
Anos depois, as atividades passaram a incluir pickleball e capoeira.
Atualmente, segundo Cláudia, mais de 100 crianças participam das ações desenvolvidas no espaço, incluindo moradores de comunidades vizinhas. A quadra foi construída em 2019 e, de acordo com ela, foi a primeira residencial de pickleball do país.
Uma história de preservação
A proximidade entre moradores e a relação com a natureza também estão presentes na história recente de Fradinhos.
Conforme explica Aneris, a mobilização ambiental ajudou a limitar a ocupação de áreas de mata, mas o bairro ainda enfrenta problemas de infraestrutura. Ela afirma que moradores cobram melhorias na pavimentação das ruas e reformas de espaços públicos.
A presidente da associação também relata que ainda ocorrem queimadas e tentativas de ocupação de áreas protegidas, situações que são denunciadas ao poder público.
Para manter a discussão sobre preservação ambiental, a comunidade organiza, no próximo dia 27 de setembro, a 26ª edição de uma caminhada ecológica pelo bairro.
Quando perguntada sobre o que apresentaria a alguém que nunca esteve em Fradinhos, Aneris cita trilhas, a Pedra dos Dois Olhos, áreas de mata, sítios históricos e outros pontos da região. Mas destaca os próprios moradores como o maior atrativo local.