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475 anos de Vitória

Ilha rural: o bairro que preserva a rotina do interior na Capital do ES

Na cidade do metro mais caro do país, moradores de Fradinhos vivem em outras dimensões, num lugar com áreas de mata, animais, árvores frutíferas e relações próximas entre vizinhos

Publicado em 08 de Setembro de 2026 às 07:03

Nicoly Reis

Publicado em 

08 set 2026 às 07:03
Cenas do bairro Fradinhos, Vitória
Em praças de Fradinhos, as galinhas-d'angola marcam presença e dividem espaço com moradores Carlos Alberto Silva

O despertador pode até tocar, mas, nas casas de Fradinhos, quem anuncia primeiro que o dia começou são os pássaros. Da janela, o café da manhã vem acompanhado pelo verde das árvores. Nos quintais, ainda há árvores frutíferas e galinheiros. Na praça, galinhas-d'angola circulam entre moradores e visitantes.


O cenário está em Vitória, uma capital oficialmente classificada sem território rural, que carrega  um  título estreitamente ligado à realidade urbana: a cidade que tem o metro quadrado mais caro do país, segundo resultados recentes do Índice FipeZAP.  


Fradinhos, no entanto, vive com outras dimensões. Em sua área, residem cerca de 1.600 pessoas, segundo o Portal do Observatório de Indicadores da Cidade de Vitória (ObservaVIX), com base em dados de 2022 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


 A paisagem e o senso de comunidade no bairro ganham espaço, em terrenos que preservam o verde e em quintais mais amplos que constratam com os apartamentos cada vez menores de outros lugares. Em razão dessas características escassas nos grandes centros, moradores comparam a vida local ao dia a dia nas cidades do interior. E atestam: é uma “ilha rural” dentro da Capital, no Maciço Central da Ilha de Vitória.


Nesta terça-feira (8), data em que Vitória completa 475 anos, A Gazeta mostra como a infraestrutura do bairro divide espaço com áreas de mata, pequenos sítios e animais. Também detalha as relações de vizinhança de pessoas que vivem há décadas no mesmo endereço.


“Temos muito orgulho de dizer que aqui é como se fosse um pedaço do interior no meio da Capital. A gente acorda todos os dias com o canto dos pássaros, toma café da manhã olhando para o verde da natureza. Ainda vemos cavalos passando de vez em quando”, afirma a presidente da Associação de Moradores de Fradinhos, Aneris Pauzen.


A líder comunitária ressalta que pequenos sítios e chácaras ainda fazem parte do cenário. Árvores frutíferas também permanecem nos quintais, e há moradores que colocam parte do que colhem em sacolas nos portões para que outras pessoas possam levar.


Mas a sensação de viver em uma cidade menor não está apenas na paisagem. Faz-se presente também no convívio mais próximo entre os habitantes.

Vizinho conhece vizinho

Edilson Layber está em Fradinhos há 60 anos. Aos quase 70, o morador lembra-se de quando chegou ainda criança e encontrou pequenas casas construídas pela Cohab, a Companhia de Habitação, em meio a mangueiras, jaqueiras, goiabeiras e jambeiros.


Naquela época, de acordo com ele, havia uma nascente de água potável onde as crianças faziam pequenas barragens para tomar banho. A estrada era de terra e a água que atravessava o caminho chegava a formar lama e dificultar a passagem dos carros.

Cenas do bairro Fradinhos, Vitória
Ao caminhar por Fradinhos, é possível observar o contraste entre as casas e o verde do Parque da Fonte Grande (ao fundo na foto) Carlos Alberto Silva

Para Edilson, a paisagem mudou nas seis décadas seguintes, mas a proximidade entre os moradores permaneceu.


Na casa onde vive com a mulher, Dilma Layber, essa relação está em situações cotidianas. “Se a vizinha precisa de um leite condensado, ela vem aqui. Se o Correio entregar alguma coisa e a gente estiver fora, deixa com o vizinho. Às vezes, vai parar na quarta, na quinta casa e depois chega até a gente. Está sempre um olhando pelo outro”, conta Dilma.


A natureza é outro elemento que a família relaciona à vida no bairro. “A gente é mais feliz quando vive perto da natureza”, afirma ela, acrescentando que os filhos cresceram convivendo com plantas e animais.

Cenas do bairro Fradinhos, Vitória
Casinhas para pássaros instaladas por Edilson em árvores de praças de Fradinhos Carlos Alberto Silva

Edilson também atua de forma voluntária no resgate de pássaros encontrados machucados. Ele cuida dos animais e, após a recuperação, devolve-os à natureza. Segundo o morador, esse contato mudou ao longo da vida. Quando mais novo, chegou a capturar e ferir animais, prática que abandonou com o passar dos anos. “Hoje eu sou o contrário. Não deixo ninguém pegar.”

Um bairro cercado pelo verde

Parte dessas características está vinculada à própria formação de Fradinhos.


Aneris Pauzen conta que a região foi ocupada por antigas fazendas que, ao longo do tempo, tiveram áreas vendidas e loteadas. Posteriormente, foram construídas moradias para trabalhadores de fábricas existentes nos arredores e, mais tarde, conjuntos habitacionais.


A partir da década de 1980, segundo ela, a proximidade com a natureza também passou a atrair novos moradores. “Vieram vários ambientalistas, fotógrafos, pessoas que gostavam desse estilo de vida mais interiorano”, afirma a líder comunitária


A presidente da associação enfatiza que Fradinhos chegou a ser chamado por moradores de “Suíça capixaba”, em referência ao verde e à qualidade do ar.


Foi também na década de 1980 que começaram as mobilizações pela preservação das áreas verdes. Conforme a associação, a comunidade se organizou contra projetos que poderiam avançar sobre a mata e ampliar a ocupação do bairro.

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O movimento continuou nas décadas seguintes. Em 2016, foi criado o Refúgio Municipal de Vida Silvestre de Fradinhos, unidade de conservação que abrange áreas de mata no entorno do bairro.


Aneris destaca que a criação da unidade trouxe proteção legal para a área, mas defende que o refúgio ainda precisa ser efetivamente implementado para ampliar ações de fiscalização, prevenção a incêndios e combate a ocupações irregulares.

"A gente cuida dos filhos dos outros"

A relação estreita entre os moradores também aparece no relato de Cláudia Fraga, que resume a dinâmica que observa no bairro em uma frase: “Aqui, a gente cuida dos filhos dos outros”.


Segundo ela, a atenção também se estende aos moradores idosos. Quando alguém percebe uma situação diferente, avisa familiares ou vizinhos. A troca ocorre ainda por meio de alimentos e produtos cultivados nos quintais.


Aos sábados, moradores também se encontram em um café da manhã coletivo. Cada participante leva alguma coisa para dividir à mesa.

Brincar Vix participação na 24 Caminhada - Fradinhos - 2024
Cláudia com crianças atentidas pelo projeto da quadra de pickleball
Associação de Moradores

Essa relação comunitária também ultrapassa os limites de Fradinhos. Cláudia e Rogério Fraga mantêm em casa uma quadra de pickleball utilizada em atividades com crianças e adolescentes de comunidades próximas.


A atuação social do casal começou antes da construção da quadra. Quando ainda eram namorados, os dois organizaram um time de futsal com crianças. As carteirinhas dos jogadores eram feitas à máquina de escrever, o transporte era garantido por uma Caravan. Segundo Cláudia, o casal pagava do próprio bolso os lanches e outras despesas.


Anos depois, as atividades passaram a incluir pickleball e capoeira.


Atualmente, segundo Cláudia, mais de 100 crianças participam das ações desenvolvidas no espaço, incluindo moradores de comunidades vizinhas. A quadra foi construída em 2019 e, de acordo com ela, foi a primeira residencial de pickleball do país.

Uma história de preservação

A proximidade entre moradores e a relação com a natureza também estão presentes na história recente de Fradinhos.


Conforme explica Aneris, a mobilização ambiental ajudou a limitar a ocupação de áreas de mata, mas o bairro ainda enfrenta problemas de infraestrutura. Ela afirma que moradores cobram melhorias na pavimentação das ruas e reformas de espaços públicos.

Cenas do bairro Fradinhos, Vitória
Encontrar saguis e outros animais faz parte do cotidiano dos moradores, que valorizam o contato com a natureza Carlos Alberto Silva

A presidente da associação também relata que ainda ocorrem queimadas e tentativas de ocupação de áreas protegidas, situações que são denunciadas ao poder público.


Para manter a discussão sobre preservação ambiental, a comunidade organiza, no próximo dia 27 de setembro, a 26ª edição de uma caminhada ecológica pelo bairro.


Quando perguntada sobre o que apresentaria a alguém que nunca esteve em Fradinhos, Aneris cita trilhas, a Pedra dos Dois Olhos, áreas de mata, sítios históricos e outros pontos da região. Mas destaca os próprios moradores como o maior atrativo local.

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