O número de telefone atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no relatório da Polícia Federal que mostra conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro é o mesmo identificado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS em março.
A convergência nos dados acrescenta um novo elemento às evidências de que a linha era utilizada de fato por Moraes.
Na época da primeira aparição do número, em março, a CPMI informou que o telefone que interagia com Vorcaro estava vinculado ao STF, mas não conseguiu identificar qual autoridade o utilizava.
Com a nova aparição do número no relatório da PF nesta semana, a BBC News Brasil verificou que o mesmo telefone aparece associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro e a perfis aparentemente ligados à sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e a uma das filhas do casal.
O senador Carlos Viana (PSD-MG), que presidiu a CPMI, disse à BBC que está cobrando novos esclarecimentos do STF sobre a titularidade do número.
"Agora, diante das novas informações reveladas pela Polícia Federal e das verificações independentes relatadas pela BBC News Brasil, essa pergunta se tornou ainda mais importante", afirmou Viana em nota.
O relatório da PF, tornado público na terça-feira (1º/9) por decisão do ministro André Mendonça, trata as mensagens como possíveis interações entre Vorcaro e um contato atribuído a Moraes.
O número de telefone aparece no aparelho de Vorcaro associado a registros como "Alexandre de Moraes BRASILIA", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".
Segundo a PF, os contatos foram compartilhados com Vorcaro pelo ex-ministro Fábio Faria, do governo Jair Bolsonaro, em uma conversa no WhatsApp em dezembro de 2023.
A polícia, porém, não afirma expressamente ter confirmado com a operadora que a linha era usada pelo ministro. Além disso, apenas o celular de Vorcaro foi apreendido, e a investigação recuperou somente as mensagens enviadas por ele.
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
O documento da PF indica ainda que Vorcaro teria tratado com esse contato de informações relacionadas à Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, além de medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva.
Primeiro indício: telefone vinculado ao STF
A CPMI do INSS chegou ao telefone durante uma investigação que não tinha Alexandre de Moraes como alvo.
A comissão apurava fraudes no pagamento de aposentadorias e pensões e passou a investigar Daniel Vorcaro porque o Banco Master atuava no mercado de crédito consignado para beneficiários da Previdência.
Após aprovar a quebra do sigilo telemático do banqueiro, parlamentares localizaram entre seus dados os registros associados ao nome de Moraes. Foi a partir daí que a comissão decidiu consultar as operadoras para tentar identificar o titular da linha.
A CPMI pediu às empresas de telefonia informações cadastrais sobre o número e, em 19 de março, seu presidente, o senador Carlos Viana, anunciou ter recebido uma resposta por meio do Sistema de Investigação de Registros Telefônicos e Telemáticos (Sittel).
"Em resposta formal obtida via Sittel, foi informado que o referido número está vinculado ao Supremo Tribunal Federal", afirmou Viana em comunicado.
O senador ressalvou, naquele momento, que o dado não permitia identificar qual autoridade específica utilizava a linha.
Mas, segundo o site SBT News, que teve acesso ao documento do Sittel, a linha havia sido ativada em 22 de fevereiro de 2017, exatamente no dia em que Moraes foi aprovado pelo plenário do Senado para ocupar uma cadeira no Supremo.
Procurado à época, o STF não confirmou se havia vínculo do telefone com o ministro Alexandre de Moraes.
Em 6 de março, a Secretaria de Comunicação da corte divulgou, a pedido do gabinete de Moraes, uma nota negando que mensagens encontradas no material apreendido tivessem sido enviadas ao ministro.
Segundo a manifestação, uma análise técnica havia constatado que as mensagens enviadas por Vorcaro "não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos".
A ligação do número com 'Xandão' nas redes
Na terça-feira, o número voltou à tona ao aparecer no relatório da PF que mostra as conversas de Daniel Vorcaro com o contato salvo como "Alexandre de Moraes".
A BBC News Brasil revelou, por meio de uma verificação independente, que esse mesmo número está associado a contas digitais identificadas com o nome de Moraes.
Em uma consulta à OSINT Industries, plataforma que cruza dados públicos, o telefone foi associado a um perfil no TikTok identificado como "Xandao".
"Osint" é a sigla em inglês para inteligência de fontes abertas, método que consiste em reunir e analisar informações disponíveis publicamente, sem acessar dados privados ou invadir sistemas.
A conta havia sido criada em 2024 e tinha pouca atividade. No momento da consulta, possuía apenas três seguidores e seguia uma única pessoa.
Entre os seguidores estavam um perfil de nome Vi Barci, possivelmente Viviane Barci, mulher do ministro, criada em 2020, e outro com o nome de uma das filhas do casal. A única conta seguida pelo perfil também pertencia à filha.
Segundo Nathaniel Fried, CEO da Osint Industries, as ferramentas da empresa "funcionam integralmente com dados de fontes abertas em tempo real", ou seja, informações que as pessoas decidiram compartilhar voluntariamente e de forma pública.
A BBC News Brasil fez ainda uma segunda verificação.
A conta Vi Barci no TikTok está vinculada ao mesmo número de telefone atribuído a Viviane Barci neste mesmo relatório da Polícia Federal, segundo essa mesma plataforma de dados.
Esse número também funciona como chave Pix da Barci de Moraes Sociedade de Advogados, nome do escritório de advocacia do qual Viviane é sócia.
O telefone atribuído a Alexandre de Moraes também apareceu associado ao nome "Min Alexandre de Moraes" em serviços de identificação e busca reversa de números, entre eles SimplerMe, Calling App e Truecaller.
Serviços de identificação telefônica podem reunir informações fornecidas por usuários — ou seja, usuários que tinham esse contato salvo em seus aparelhos.
A BBC News Brasil procurou o gabinete de Alexandre de Moraes e o STF para perguntar se o ministro utilizou o número, em quais períodos a linha esteve sob sua responsabilidade e como explica as associações encontradas pela reportagem, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto.
O que dizem as mensagens?
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Em um dos episódios revelados pela PF, Vorcaro trata diretamente da execução do contrato firmado com o escritório Barci de Moraes. Em 8 de fevereiro de 2024, ele pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que enviasse o contrato assinado e questionou o vencimento da primeira parcela:
"Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pgto?"
No mesmo dia, Ângelo Silva, tesoureiro do Master e também investigado pela Polícia Federal, enviou a Vorcaro o comprovante de uma transferência do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia no Banco Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.
Logo após a cobrança, Vorcaro passou a pressionar integrantes do banco sobre os pagamentos ao escritório. Em mensagem a Silva, escreveu: "Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas."
Minutos depois, em conversa com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen, identificada nos registros como "Romy Banco Master", Vorcaro determinou que os pagamentos ao escritório não sofressem qualquer atraso:
"Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos."
Na sequência, reforçou a orientação: "Pode pagar sempre, sem nota."
E acrescentou: "Do jeito que for."
Ainda na conversa, Romy encaminhou o registro de uma transferência do Banco Master para o escritório de Viviane Barci de Moraes no valor de R$ 3.422.268,14.
A PF também fez uma análise dos metadados do arquivo do contrato entre o escritório e o Master. As investigações apontaram que o documento foi editado por Alexandre de Moraes.
O escritório Barci de Moraes, em nota, afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.
Segundo o escritório, a consulta foi realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo, de acordo com a nota, era verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) ou participação em julgamentos de interesse do potencial cliente.
O escritório sustenta que não foi identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", diz a nota.
Por que mensagens atribuídas a Moraes não foram recuperadas?
Investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Vorcaro e reconstruíram parte dos diálogos com base em capturas de tela enviadas pelo WhatsApp.
De acordo com a PF, o banqueiro redigia as mensagens em um aplicativo de notas do celular. Depois, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, usando o recurso de visualização única.
Nesse formato, o conteúdo não ficava registrado como uma mensagem de texto convencional e poderia desaparecer depois de visualizado.
A perícia encontrou, no entanto, arquivos no próprio celular correspondentes às capturas de tela.
Segundo o relatório da PF, cada imagem gerava um arquivo temporário em formato PDF, que podia ser checado com outras informações tiradas do celular.
Esses arquivos foram localizados em uma pasta interna do sistema identificada como "tmp", abreviação de temporary, ou temporário. Trata-se de uma área usada pelo iPhone para armazenar arquivos provisórios gerados automaticamente.
Parte dos documentos havia sido apagada poucos minutos depois da criação, mas foi recuperada durante a extração forense.
"Após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, Daniel Vorcaro efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após o screenshot, a remessa de mensagem ao terminal", afirma o relatório da PF.
Mas somente o celular de Vorcaro foi apreendido, não o de seu interlocutor. Por isso, não foi possível recuperar esses mesmos arquivos temporários do outro lado da conversa.
Os investigadores cruzaram os horários de criação e alteração das notas, produção das capturas de tela, geração dos arquivos PDF e envio das imagens pelo WhatsApp. Também verificaram a conversa à qual cada arquivo estava associado.
Em nota divulgada na terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação de serviços pelo Banco Master.
Segundo o escritório de advocacia, a consulta ocorreu porque o ministro é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo seria verificar eventuais restrições, como processos sob relatoria de Moraes no STF ou julgamentos de interesse do banco.
O escritório afirma que não havia previsão de atuação perante o Supremo nem impedimento legal para a contratação. Também diz que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", afirma a nota