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Os argumentos de Gonet para pedir a anulação de relatório da PF que liga Vorcaro a Moraes

Gonet diz que o plenário do STF deveria ser responsável por decidir sobre uma eventual investigação de um de seus ministros, e não André Mendonça.

Publicado em 02 de Setembro de 2026 às 08:34

BBC News Brasil

Publicado em 

02 set 2026 às 08:34
Imagem BBC Brasil
Paulo Gonet, procurador-geral da República, também é citado em relatório da Polícia Federal Crédito: Evaristo Sá/AFP via Getty Images

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que declare nula a decisão que levou a Polícia Federal a produzir um relatório sobre as mensagens que o banqueiro Daniel Vorcaro trocou com o ministro Alexandre de Moraes.

Na manifestação, apresentada em 1º de setembro, Gonet afirma que a investigação determinada por Mendonça — relator do inquérito que apura as fraudes do Banco Master — extrapolou os limites da atuação de um magistrado na chamada fase pré-processual.

Gonet sustenta que o próprio STF deveria ser responsável por decidir sobre uma eventual investigação de um de seus ministros.

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam uma série de interações atribuídas pelos investigadores a Vorcaro, Moraes e à família do ministro. As conversas incluem ainda um suposto pedido do banqueiro para que o magistrado interferisse a seu favor na atuação de Gonet.

Agora, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o plenário do STF, formado por todos os seus 11 ministros, deverá decidir tanto sobre o pedido de anulação do relatório quanto sobre uma possível investigação contra Moraes.

As fraudes do Master, investigadas pela PF, são estimadas em cerca de R$ 12 bilhões, valor associado principalmente à venda de carteiras de crédito supostamente falsas ou sem lastro pelo Master ao Banco de Brasília, o BRB.

Até a publicação desta reportagem, Mendonça não havia se manifestado sobre o pedido de Gonet. Veja, abaixo, os argumentos do procurador-geral da República para pedir a nulidade do relatório da PF.

Um ministro do STF não pode ordenar uma investigação contra outro, diz Gonet

Segundo Gonet, Mendonça determinou, em 24 de agosto de 2026, a "identificação dos integrantes da rede de influência e monitoramento gerenciada por Daniel Bueno Vorcaro".

A PF, então, passou a analisar o celular do banqueiro para identificar as pessoas que faziam parte dessa rede. O resultado foi um relatório de mais de 200 páginas, 188 delas dedicadas a Moraes.

Para Gonet, Mendonça determinou a investigação sabendo que, entre as pessoas mencionadas, havia autoridades com foro por prerrogativa de função, entre elas Moraes, haja vista que o nome do ministro já havia aparecido em informes policiais e Mendonça já sabia quais dados seriam analisados pela PF.

Imagem BBC Brasil
Polícia Federal apurou que Daniel Vorcaro, investigado por fraudes do Banco Master, pediu orientações ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) Crédito: Sérgio Lima/AFP via Getty Images

Na avaliação de Gonet, ao determinar o aprofundamento da apuração pela PF, Mendonça acabou impondo uma investigação sobre Moraes. Houve uma "imersão em elementos dos autos para buscar indicativos de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilícitos", escreveu o PGR em sua petição.

Isso não poderia ter acontecido, segundo Gonet, porque um ministro do STF não pode determinar a investigação de outro integrante da Corte.

Ele cita o artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, segundo o qual, quando surgir um indício de crime cometido por um magistrado, a polícia deve remeter os autos ao tribunal ou órgão competente para o julgamento.

Neste caso, Gonet diz, citando a Constituição Federal e o regimento interno do STF, que a competência seria do plenário da Corte, composto por todos os seus 11 ministros.

'Juízes não podem conduzir investigações'

Gonet sustenta que a decisão de Mendonça violou o Código de Processo Penal, haja vista que a investigação pré-processual cabe à Polícia Judiciária e ao Ministério Público.

O procurador escreveu em sua petição que ao juiz não cabe acusar nem realizar investigações pré-processuais. "Não lhe é dado valer-se da Polícia Judiciária como sua longa manus [mão longa] para atividades que não lhe foram assinaladas."

A petição de Gonet também cita decisões do Supremo sobre a separação entre as funções de investigar, acusar e julgar.

Em um deles, o STF teria afirmado que o sistema acusatório exige que, na fase pré-processual, o juiz permaneça inerte enquanto o Ministério Público não formar sua convicção sobre a existência de um crime.

Outro precedente trata de um caso em que um magistrado teria assumido uma função persecutória na fase pré-processual e a Corte teria declarado a nulidade da sentença por violação à imparcialidade do julgador.

Imagem BBC Brasil
André Mendonça e Alexandre de Moraes viviam tensões nos corredores do Supremo Crédito: Getty Images

'Dupla nulidade'

Com base nesses argumentos, Gonet afirma que tanto a ordem de investigação quanto os elementos produzidos a partir dela sofrem de uma "dupla nulidade".

A primeira seria decorrente da ordem de Mendonça dada à Polícia Federal, "sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial", e a segunda estaria relacionada à investigação tratar de outro ministro do Supremo.

Gonet sustenta que, mesmo que surgisse algum indício de irregularidade envolvendo Moraes, Mendonça deveria ter encaminhado a questão ao presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, e caberia ao plenário avaliar se a investigação deveria prosseguir.

As citações a Gonet no relatório da Polícia Federal

Embora não tenha tratado disso em sua petição em busca da nulidade do relatório da Polícia Federal, Gonet também foi citado no documento.

O relatório diz que não encontrou no celular de Vorcaro nenhum contato salvo como "Paulo Gonet" ou "Gonet", mas identificou, em conversas de WhatsApp, referências que podem se tratar do procurador-geral da República.

Em 14 de abril de 2024, o advogado de Vorcaro, Ciro Soares, escreveu ao banqueiro: "Amizade é tudo, viu irmão" e "Gonet é firme". Na sequência, encaminhou uma mensagem de outro interlocutor, identificado como "Jarbas", que agradecia a Gonet. Ciro depois confirmou que a mensagem havia sido escrita por Jarbas.

Em outro episódio, Ciro enviou a Vorcaro um áudio em que afirma ter procurado Gonet para pedir que um candidato retirasse sua candidatura. Gonet teria ligado para Ciro depois de falar com o candidato e dito: "Ele vai desistir".

Em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparece acompanhado de Gonet e, logo depois, escreveu "liga aqui", "ele quer falar com você". Na sequência, foram registradas quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Ciro. O relatório não apresenta o conteúdo dessas ligações.

Em 28 de março de 2025, Ciro encaminhou a Vorcaro três mensagens que, segundo ele, haviam sido enviadas por Gonet: "Que bom! Estou na torcida por vocês!"; "Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma"; e "Manda essa mensagem para ele". Vorcaro agradeceu, e Ciro respondeu: "Lhe adora", "ele vai para Londres com a gente".

No dia seguinte, Ciro disse a Vorcaro que "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres". Vorcaro respondeu: "Óbvio, né". Ainda em 29 de março, Ciro encaminhou outras mensagens: "Você é uma máquina", acrescentando que "Gonet mandou".

No mês seguinte, em 7 de abril, durante uma conversa sobre uma reportagem que desagradava a Vorcaro, Ciro disse: "Preciso falar com você", "estou indo no PG agora".

Em 11 de abril, uma funcionária de Vorcaro perguntou se determinados nomes estavam aprovados para viajar a Londres com despesas pagas pelo grupo. O banqueiro respondeu que não concordava com toda a lista, mas disse que "Pedro e Ciro OK". A Polícia Federal identifica "Pedro" como Pedro Gonet, filho de Paulo Gonet, e "Ciro" como Ciro Soares.

Em 19 de junho de 2025, por fim, Ciro disse a Vorcaro que "PG confirmou a ida para Londres" e perguntou se o "Pedrinho, filho do PG, pode ir com a gente?".

O relatório não diz que "PG" seja uma referência ao procurador-geral da República. A associação, porém, é reforçada por outras menções no documento, entre elas referências ao filho de Gonet, Pedro, e a outras mensagens atribuídas ao procurador-geral.

Imagem BBC Brasil
Fraude do Banco Master investigada pela Polícia Federal é estimada em cerca de R$ 12 bilhões Crédito: Getty Images

As trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes

Os diálogos entre o banqueiro e o ministro incluem cobranças sobre pagamentos ao escritório de Viviane Barci de Moraes, pedidos de ajuda relacionados ao Banco Master e registros de encontros presenciais.

Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro escreveu que havia recebido informações confidenciais de pessoas do Banco Central de que a instituição sofria pressão da Polícia Federal e do Ministério Público para tomar uma medida contra ele.

Na mesma mensagem, afirmou: "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem". Segundo a PF, "Andrei" pode ser uma referência a Andrei Passos, então diretor-geral da Polícia Federal, e "Paulo" a Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Não foi possível identificar quais foram as respostas de Moraes. Segundo a PF, Vorcaro enviava ao ministro capturas de tela de mensagens escritas no bloco de notas do celular, com visualização única, por isso as respostas de Moraes não ficavam armazenadas no aparelho do banqueiro. A PF conseguiu, porém, identificar os envios feitos por Vorcaro para o celular do ministro.

Em outra troca, em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de sua primeira prisão, Vorcaro perguntou a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Também questionou: "Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?". Galípolo é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.

No dia seguinte, Vorcaro perguntou: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?". Já em 17 de novembro, quando seria preso no Aeroporto de Guarulhos, escreveu: "Se tiver alguma novidade, vamos falar". Mais tarde, perguntou: "Conseguiu ter notícia ou bloquear?".

O material também registra a emissão de cartões do Banco Master para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro.

Em 2 de outubro de 2025, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, procurou Vorcaro para tratar dos cartões. Depois, uma executiva do banco perguntou se poderia emitir os cartões com limite de R$ 300 mil para cada filho. Vorcaro respondeu: "OK".

As mensagens também mostram a organização de um almoço de Moraes em uma propriedade de Vorcaro, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, em 30 de dezembro de 2023.

Segundo a PF, o ministro estava acompanhado de oito pessoas e quatro seguranças. Vorcaro orientou funcionários a preparar uma "experiência completa" para os convidados e pediu um cantor.

Durante o evento, um funcionário informou que o ministro havia tirado uma foto com um funcionário do banqueiro. Vorcaro inicialmente reagiu dizendo que isso não poderia acontecer, mas depois respondeu: "Mas se foi o ministro que pediu tudo bem".

Doze dias depois do almoço, em 11 de janeiro de 2024, Viviane Barci de Moraes enviou a Vorcaro uma minuta de contrato. O documento acabou assinado em janeiro, por R$ 3,6 milhões mensais, com vigência de três anos.

Os metadados da versão final indicam Moraes como o último usuário a editar o documento, em 15 de janeiro. O contrato foi assinado em 23 de janeiro.

As mensagens registram ainda outros encontros entre Vorcaro e Moraes ao longo de 2024 e 2025. Em 5 de novembro de 2024, Vorcaro escreveu à filha: "Tô com Alexandre Moraes".

Em 19 de abril de 2025, disse à então namorada: "Tô indo encontrar Alexandre de Moraes aqui perto de casa". Dez dias depois, escreveu novamente: "Agora tô com Alexandre".

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