Tempos singulares os atuais. Por mais que as tecnologias facilitem a vida da maioria, as pessoas se sentem cada vez com menos tempo para aquilo que é essencial: cuidar de si, do outro; praticar a arte do encontro consigo e com o outro.
Por mais amplos que sejam os canais de comunicação possíveis à maioria, o mundo cada vez se sente mais carente de conversas que ampliem entendimentos e respeito entre interlocutores. Com tanta informação circulando em tempo real a custos cada vez menores, é baixa a disponibilidade de tantos para o conhecimento que permita o olhar crítico ao que chega como se verdadeiro fosse.
Tempos de decepções com instituições. Sejam elas ligadas à família, à religião, à educação, à cultura, à política. Certezas do passado que pareciam garantir o futuro se desmoronam a cada dia.
Igrejas se transformam em balcão de negócios e apologistas da teologia da prosperidade individual. Conhecimentos adquiridos através de longos anos de estudos e pesquisas se tornam supérfluos para as forças de mercado que visam ao lucro imediato, rápido e seguro, a qualquer custo humano e ambiental. Trabalhos intensos em prol do bem comum e voltados para a construção de um país mais justo e fraterno, são desconsiderados e viram objeto de barganhas em torno da aprovação de propostas de emendas à Constituição. PECs que subtraem direitos, causam desalentos no presente e retiram futuro da maioria.
Para os com mais de 40 anos e que viveram ou tiveram um contato mais próximo com movimentos em prol da cidadania política, econômica e social, é mais do que justificado o sentimento de decepção. Decepção com a proliferação de governantes autoritários que chegam ao poder através de eleições fraudadas por fake news e uso abusivo do poder financeiro e midiático. Decepção com a sensação de que no passado o futuro parecia melhor.
Se aos com mais décadas é justificável a decepção com o tempo presente, o que dizer da desilusão dos mais jovens? A eles vale o direito de deixar de lado as ilusões dos decepcionados mais velhos.
Aos mais velhos cabe a humildade de buscar entender as ilusões a que se dão o direito os mais jovens. Quais são elas, quem sabe?
Pistas para respostas a essas e outras perguntas estão na forma como jovens, mulheres, negros, LGBTs, moradores de bairros carentes e o campesinato constroem suas agendas e pautam suas reivindicações. Agendas e pautas pouco objetivadas para os mais velhos, é verdade. Mas vale lembrar que eles hoje estão decepcionados com o resultado das pautas e agendas construídas quando eram jovens.
Os mais velhos explicitarem e aceitarem suas decepções pode ser um primeiro passo para que eles sejam menos arrogantes com as desilusões dos mais jovens. Atenção para com sinais do que podem ser as ilusões dos mais jovens é recomendável aos mais velhos para que eles possam esperançar.
Esperançamento a que tem direito quem mantém independentemente da idade a capacidade de se indignar com as mazelas feitas com humanos e meio ambiente Brasil adentro e mundo afora.