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O tempo em que o hino da França era entoado nas ruas do Espírito Santo

Influência francesa chegou ao Brasil pelos ideais de liberdade da Revolução Francesa e por uma elite "afrancesada", crianças aprendiam a língua na escola e marcha era entoada em datas comemorativas

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 03/04/2021 às 02h00
Atualizado em 03/04/2021 às 02h01
Locomotiva saindo de Cachoeiro de Itapemirim em 1930, município foi o centro do movimento republicano capixaba na década 1880
 Cachoeiro de Itapemirim em 1930: município foi o centro do movimento republicano capixaba na década 1880. Crédito: W. Cyril Williams: The Leopoldina Railway, A Narrow Gauge Railroad of Exceptional Interest, Cessão Luciano Pavloski

Houve um tempo em que "A Marselhesa", hino nacional da França, era entoado em ruas e escolas do Espírito Santo. Um dos principais símbolos da liberdade, inspirado pela Revolução Francesa, a marcha era apenas um dos costumes "importados" dos franceses, adotados principalmente pela elite capixaba. No campo político, a influência dos ideais franceses impulsionou a popularização do movimento republicano no Estado. 

Os costumes não eram exclusivos dos capixabas. No final do século XIX e início do século XX, o país europeu era exemplo para a adoção de costumes em todo o mundo, inclusive no Brasil. Além da influência no campo político, com a propagação do pensamento republicano, o francês era considerada a principal língua diplomática, muitas vezes ensinado nas escolas. "A língua, a moda, as vestimentas, as cantigas populares, tudo tinha a influência francesa", relata o historiador Fernando Achiamé. 

Muito se dava por uma "elite afrancesada", que passava férias e períodos de estudo na França e depois voltava para o Brasil. "A influência norte-americana no Brasil é uma coisa posterior a 1930, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Antes disso, porém, a elite brasileira é extremamente afrancesada. As pessoas sabiam francês, estudavam nas escolas, era a segunda língua que se ensinava, tentava-se um cardápio francês, a moda, as lojas do Estado vendiam perfumaria", pontua o historiador Estilaque Ferreira dos Santos.

Especialmente no plano político, os ideais franceses eram "palpáveis". A Revolução Francesa, que havia marcado o final do século anterior, influenciou a independência do Brasil, ainda em 1822, e posteriormente na popularização do pensamento republicano, que culminou na proclamação da República, em 1889. 

"A Revolução Francesa teve uma repercussão mundial, foi de longe o acontecimento, da era moderna, mais importante antes do iluminismo. A repercussão que a Revolução Francesa teve no mundo foi uma coisa extraordinária, inclusive no Brasil. A independência, em 1822, tem tudo a ver com a revolução francesa, é ela que coloca o mundo no caminho da modernidade", aponta Santos. 

A Marselhesa, então, torna-se o principal símbolo da liberdade em todo o mundo. "Obviamente, a repercussão (da Revolução Francesa) foi muito associada ao hino que foi identificado pelas pessoas como o hino da liberdade, da ressurreição e redenção dos povos", explica. 

Estilaque Santos

Historiador

"No século XIX, a Marselhesa era identificada como um símbolo de liberdade. Símbolo de todas as pessoas que lutavam pela autonomia e liberdade"

MOVIMENTO REPUBLICANO NO ES

A independência, no entanto, não resultou em uma república, e sim na monarquia. Anos mais tarde, a República foi proclamada. No Espírito Santo, o principal centro dos movimentos republicanos era no município de Cachoeiro de Itapemirim. Por aqui, nomes como o de Afonso Cláudio e de Muniz Freire, que não era republicano, mas simpatizava com o movimento, já começavam a questionar o modelo da monarquia. Para deixar claro que se opunham, negavam-se a usar os símbolos monarquistas e abraçavam os símbolos ligados à liberdade e à autonomia, como os franceses.

"Por volta de 1870, começou a se articular no Brasil e no Espírito Santo o movimento republicano. Esse movimento começou a reivindicar a liberdade contra a monarquia que vigorava no país. E começa, também, a retomar as ideias da revolução francesa, não com o sentido radical, mas no sentido mais moderado que, mesmo assim, recuperava alguns dos símbolos da revolução", aponta.

Ainda em 4 de março de 1887, um artigo publicado no jornal A Província do Espírito-Santo referia-se ao hino francês como o hino da liberdade. A carta, enviada de Paris ao Espírito Santo, dizia: "Os hinos de todos os países são dignos de respeito porque pelo menos representam um signo sagrado, a pátria. A Marselhesa, porém, nunca será igualada porque ela tem em si uma coisa admirável de representar não um povo, mas todos os povos, pois por toda parte onde a liberdade surge é ao som desse canto glorioso que é o grito da ressurreição e redenção dos povos."

Fragmento do jornal A Província do Espírito-Santo de 1887
Fragmento do jornal A Província do Espírito-Santo de 1887. Na segunda coluna na parte superior, o trecho em que a Marselhesa é citada. Crédito: Reprodução

Quando o objetivo foi alcançado, com a proclamação da República no dia 15 de novembro de 1889, o próprio Afonso Cláudio deixou registrado no livro "História da propaganda republicana no Espírito Santo" como foram as festas de comemoração em solo capixaba. 

"Viva a Republica! No dia 16 às 6 horas da manhã, depois de afixada na porta da estação telegráfica a circular que distribuímos em boletins na qual dávamos conta da proclamação da república e da constituição de seu governo imediatamente a banda Eturpe Cachoeirense, reunida na casa do cidadão Joao Loyola, proprietário e gerente d'O Cachoeirense (jornal da época) e um dos que muito trabalharam em proveito da causa republicana, tendo a frente esse cidadão e acompanhado de outros cidadãos, saiu a percorrer as ruas da vila entoando a Marselhesa ao espocar de inúmeros foguetes e entusiásticos gritos de viva! Ao meio-dia recolheu-se a banda e às 13h30, reunida pela segunda vez, foi até a estação da ferrovia esperar o presidente do clube. A chegada do trem, que vinha enfeitado com flores e bandeiras vermelhas soou a Marselhesa e gritos de vivas!", escreveu.

"A prova de como a Marselhesa foi adotada como símbolo dessa luta vitoriosa deles contra a monarquia. A República é proclamada em 1889 e não tinha símbolos próprios, precisava se contrapor aos símbolos da monarquia. O hino da monarquia era o hino nacional. No começo, como não havia nada para contrapor, eles adotavam a marselhesa. A bandeira no trem era vermelha, não verde e amarela, eles queriam criar novos símbolos que contrapusessem o Brasil da era monarquista", pontua Estilaque Santos.

O hino era entoado também em ocasiões oficiais. "Há relatos de historiadores e jornais que existia o costume de cantar a Marselhesa em ocasiões especiais, como quando foi a posse do primeiro governador no Estado", recorda Achiamé. Afonso Cláudio, um dos principais nomes do movimento republicano no Estado, foi o primeiro governador do Espírito Santo entre os anos de 1889 e 1890.

O cientista político João Gualberto Vasconcellos ressalta que, quando foi instalada, a República precisou ser discutida entre as lideranças. "Houve uma grande discussão aqui entre as nossas autoridades republicanas sobre o modelo a ser seguido. Havia os republicanos jacobinos, ligados à república francesa, e havia os ligados à república americana, como Rui Barbosa", compara. Acabou que politicamente se seguiu o modelo norte-americano, mas, simbolicamente, com muita influência francesa.

"Vingou a república americana, tanto que viemos a chamar Estados Unidos do Brasil, com Estados federados. E se deve muito ao fato das oligarquias regionais quererem liberdade, porque o governo imperial era muito centralizador", afirma Vasconcellos.

João Gualberto Vasconcellos

Cientista político

"O modelo que vingou dava muita liberdade aos Estados, mas do ponto de vista simbólico nós fomos uma república totalmente afrancesada"

Muitos anos depois, ainda há registros da influência. Capixabas que se lembram de aprender francês na escola já no século XX e um apelo, registrado em jornais, por um nacionalismo que deixasse de lado o entusiasmo com  a França. Em outro jornal, desta vez o Diário da Manhã que circulava em 1933, ainda há menção à Marselhesa. 

"Todo mundo é nacionalista. O alemão, o francês, o inglês, o italiano. Nacionalistas da gema, menos nós, os brasileiros", começa o texto Abílio de Carvalho.

Abílio C. de Carvalho

Colunista do jornal Diário da Manhã, de 1933

"90% dos brasileiros sabem a Marselhesa. 8% sabem, ainda que incorretamente, a letra do hino nacional. Agora é que, ao que parece, com a nova letra do hino espirito-santense, a garotada vai saber interpretar o que é nosso"
Fragmento do jornal Diário da Manhã, de 1933
Fragmento do jornal Diário da Manhã, de 1933. Crédito: Reprodução

O escritor se referia a uma letra alternativa ao hino do Espírito Santo, escrita por Ciro Vieira da Cunha, que acabou não sendo aceita. "Naquela altura, o hino do Estado não era muito popular, não era muito conhecido, como até hoje não é, e o que eles inventaram? Tinha um jornalista muito famoso naquela época chamo Ciro Vieira da Cunha, ele escreveu uma letra para substituir a letra do Pessanha Póvoa, mas acabou não aceita."

Estilaque Ferreira dos Santos

Historiador

"O detalhe é que em 1933 eles ainda diziam que 90% dos brasileiros sabiam melhor a Marselhesa do que o hino nacional. Exagero, claro, mas uma identificação do hino com liberdade e revolução "

ATÉ A BANDEIRA

E a influência não se restringe ao hino. Antes de o Espírito Santo ter uma bandeira oficial, com a frase "trabalha e confia", escolhida por Jerônimo Monteiro em 1908, havia outra, extraoficial. Eram apenas duas cores: vermelho e azul, inspirada na bandeira da França que, além dessas duas cores, conta também com uma faixa branca.

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