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Isso é cultura?

Cai o secretário, ficam as ideias machistas, brancas e heteronormativas

A pressão feita – e que surtiu rápido efeito – foi imprescindível para que não tenhamos uma pessoa que acredite que os ideais supremacistas nazistas são aceitáveis

Publicado em 22 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

22 jan 2020 às 04:00
Renata Bravo

Colunista

Renata Bravo

Ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim Crédito: Reprodução/Twitter
Um dos assuntos que tomaram os noticiários, as redes sociais e as rodas de conversa na última semana foi o vídeo divulgado pela Secretaria Especial da Cultura, chefiada até então por Roberto Alvim, por meio do qual foi anunciado um prêmio de arte e também foram afirmados os nortes das ações em questões de políticas públicas para a cultura brasileira.
No vídeo, de estética nazista, com paráfrases do ministro da propaganda de Hitler e atuação vergonhosa para um dramaturgo, o então secretário Especial da Cultura (lembremos que não há mais Ministério da Cultura, extinto com a ocupação da Presidência da República por Jair Bolsonaro) se valeu de um discurso cada vez mais normalizado desde o início do ano passado: a extinção da possibilidade de fomento à diversidade, a extinção de políticas públicas voltadas a grupos vulnerabilizados socialmente e ações que baseiam um discurso recheado de valores mesquinhos e violentos.
No dia seguinte à divulgação do vídeo, o secretário foi exonerado do cargo. Os chefes dos demais Poderes da República logo se manifestaram veementemente exigindo um posicionamento do governo e a imediata exoneração de Alvim. Não só eles, mas grande parte da sociedade civil e muitas pessoas com influência nas atuais decisões do governo federal.
O que causa estranheza é que essa exoneração foi precedida horas antes de elogios categóricos de Jair Bolsonaro a Roberto Alvim, dizendo que “agora temos, sim, um secretário de Cultura de verdade, que atende o interesse da maioria da população brasileira, população conservadora e cristã”.
Roberto Alvim perdeu o cargo, mas o prêmio lançado continua. E será que as ideias contidas no discurso de Alvim também? Minha aposta é que sim, pois, segundo o próprio presidente, a cultura defendida e representada por Alvim “é a cultura de verdade, algo que não tínhamos no Brasil”.
Essa verdade não se limita à pasta da cultura, atualmente. O que temos vivenciado é que as políticas públicas brasileiras estão norteadas por uma ideia familista, machista, branca e heteronormativa, que é minoritária e faz questão de vendar os olhos quando se trata de diversidade e de dar atenção às necessidades de acordo com as diferenças de cada um. Felizmente, não tínhamos no Brasil a defesa de algo tão violento e inaceitável na história mundial.
A pressão feita – e que surtiu rápido efeito – foi imprescindível para que não tenhamos uma pessoa que acredite que os ideais supremacistas nazistas são aceitáveis (qualquer época que seja). Gostaria, entretanto, que a movimentação dos chefes dos Poderes e de tantas pessoas que podem construir um Brasil mais justo também ocorresse quando, por exemplo, a ministra Damares propõe uma política pública de abstinência sexual como a forma mais eficaz, segundo ela, de enfrentar a gravidez na adolescência. 
Ou, ainda, quando um deputado quebra uma placa no Congresso Nacional quando se está expondo sobre a violência contra a população negra vivenciada dia após dia, sem contar as já corriqueiras defesas de submissão da mulher e de naturalização de violências em razão do gênero e do sexo que permeiam discursos e políticas do governo federal e de seus aliados.

Renata Bravo

Renata Bravo assina uma das colunas de A Gazeta

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