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Projeto Comprova

Veja linha do tempo: da fuga de Flávio até a divulgação da carta golpista

Após contestar o resultado das eleições e receber uma ordem judicial para entregar os passaportes, senador deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos, onde anunciou que pretende liderar a oposição a Lula

Publicado em 30 de Outubro de 2026 às 19:38

Redação de A Gazeta

Publicado em 

30 out 2026 às 19:38
Flávio Bolsonaro foi para os Estados Unidos depois de perder as eleições
Flávio Bolsonaro foi para os Estados Unidos depois de perder as eleições Projeto Comprova

Conteúdo analisado: Posts sobre a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos dizendo que ele estaria sofrendo perseguição política e que o Brasil vive sob uma ditadura.


Comprova Explica: Após perder a eleição para Lula (PT), no domingo (25), o senador Flávio Bolsonaro (PL) fugiu para os Estados Unidos com a esposa e as duas filhas. A fuga ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o recolhimento dos passaportes do senador, atendendo um pedido feito ainda no domingo pela Polícia Federal (PF), que havia identificado risco de o senador deixar o país.


Na quarta-feira (28), Flávio Bolsonaro publicou uma carta golpista afirmando ser o “presidente eleito do Brasil”. Diante da repercussão imediata e das críticas, o senador apagou a primeira versão da carta e passou a se denominar “líder do Brasil”. Ele afirmou ser vítima de uma fraude eleitoral, citando informações falsas e sem apresentar provas, e disse que pretende liderar a oposição a Lula dos EUA.


A seguir, o Comprova explica a cronologia da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, as justificativas apresentadas pelo senador e as diferenças entre democracia e ditadura.

Domingo, 25 de outubro

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por meio do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, anunciou oficialmente a reeleição de Lula com 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro terminou em segundo lugar, com 48,21%.


Às 22h40, em um condomínio privado no Lago Sul, em Brasília, Flávio fez um pronunciamento de cerca de três minutos à imprensa e disse que não reconhecia a vitória de Lula e pediu a anulação das eleições.


O candidato derrotado disse ser “impossível” reconhecer o resultado das eleições “da forma como aconteceu” e que a campanha deveria solicitar ao comitê jurídico um pedido de anulação do pleito. O argumento central utilizado por Flávio foi a extensão de duas horas no horário de votação no domingo, autorizada pelo ministro Cristiano Zanin.


Na madrugada de domingo para segunda-feira (26), o ministro do STF Alexandre de Moraes expediu uma ordem judicial determinando que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes (comum e diplomático) à Polícia Federal dentro do prazo de 24 horas. Ele também ficou formalmente proibido de deixar o território nacional. A decisão está ligada a uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo Flávio e o advogado e empresário Willer Tomaz. O inquérito busca esclarecer possíveis relações financeiras entre os dois e movimentações consideradas suspeitas. O senador nega irregularidades.


As ordens do ministro se basearam na iminência de fuga, embasada por declarações prévias de um de seus irmãos, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que cogitava a saída de Flávio do país.

Segunda-feira, 26 de outubro

Pela manhã, Flávio foi visitar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliar após uma tentativa de golpe de Estado. Ao deixar a residência, localizada em um condomínio no Jardim Botânico, em Brasília, o senador foi formalmente abordado e intimado por agentes da Polícia Federal para cumprir a determinação do STF e fazer a entrega dos documentos.


Na hora do almoço, Flávio participou de uma reunião com a cúpula de sua campanha presidencial. Segundo a Folha de S.Paulo, ele foi aconselhado a desistir do pedido de anulação da eleição e a concentrar a contestação judicial em uma ação por suposto abuso de poder da campanha de Lula.


Por volta das 16h40, o senador publicou um vídeo nas redes sociais confirmando que havia recebido uma intimação da Polícia Federal. Na gravação, o senador afirmou que cumpriria a determinação judicial de entregar seus passaportes e negou que pretendesse deixar o Brasil.


“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar”, declarou.

No fim da tarde, Flávio se reuniu com o advogado Frederick Wassef. Segundo Wassef, o encontro ocorreu no exercício de sua atividade profissional e o conteúdo da conversa está protegido pelo sigilo entre advogado e cliente.

Terça-feira, 27 de outubro

Nas primeiras horas do dia, o portal de notícias argentino Infobae foi o primeiro a trazer a informação de que Flávio Bolsonaro teria atravessado a fronteira em direção ao aeroporto de Puerto Iguazú, na Tríplice Fronteira, onde um jatinho fretado vindo de Buenos Aires o aguardava para viajar rumo aos Estados Unidos. 


O avião pousou às 23h45 de segunda-feira (26) e ficou parado ao longo de toda a terça-feira no pátio. O jato Gulfstream G400, matrícula LV-JQW pertence à empresa Baires Fly S.A., de aviação executiva.  Segundo o jornal Clarín, a aeronave LV-JQW sairia às 2h30 de terça para Miami, mas o voo foi cancelado porque a empresa responsável pelo voo não informou a lista de passageiros que estariam a bordo.


Diante da notícia, a Polícia Federal abriu apuração para verificar o paradeiro do senador e acionou as autoridades policiais da Argentina. Como o controle migratório não registrou a saída oficial nos postos da fronteira brasileira, as autoridades passaram a monitorar a movimentação.


Às 11h de terça-feira venceu o prazo estabelecido por Moraes para que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal. Como o parlamentar não entregou os documentos, a Polícia Federal e os órgãos competentes determinaram o cancelamento oficial dos seus passaportes. O controle de imigrações da Argentina negou que o senador tenha passado pela fronteira do país ao longo do dia. 


À tarde, a agência de notícias Reuters e autoridades norte-americanas confirmaram que o senador de fato havia deixado o Brasil com destino aos EUA em um jatinho privado acompanhado de seus familiares. O governo dos Estados Unidos e o Departamento de Estado indicaram que concederiam os vistos e autorizariam a entrada do parlamentar no país. Aliados e figuras ligadas ao governo dos EUA,  como o advogado mexicano Simón Levy, também indicaram a chegada dele a território norte-americano.


O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, convocou reuniões de emergência com a bancada e lideranças do partido para discutir o impacto da saída não comunicada do parlamentar. À tarde, o senador Rogério Marinho (PL-RN) declarou à imprensa que havia falado na manhã de terça com Flávio por mensagem e o senador havia dito que tiraria o dia para descansar.


O senador também teria despistado sua própria equipe de segurança parlamentar. Os agentes não sabiam onde ele estava já na manhã de terça, quando os responsáveis pela escolta tentaram entrar em contato com o senador por telefone, mas não tiveram resposta. Entre 8h e 9h, foram até a residência dele e constataram que Flávio já não estava mais no local. 


No final da noite de terça-feira, Flávio Bolsonaro entrou em território argentino. O governo de Javier Milei confirmou que o senador entrou na Argentina naquele dia, às 22h50, acompanhado da esposa e das duas filhas e embarcou, 40 minutos depois, em um voo particular com destino ao Equador e, posteriormente, aos Estados Unidos. O jato usado foi o mesmo que estava parado no aeroporto de Puerto Iguazú. 

Quarta-feira, 28 de outubro

Às 10h30, Flávio, sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal desembarcaram no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami, na Flórida.


A Polícia Federal emitiu uma nota confirmando que ele descumpriu a ordem do STF ao não entregar seus passaportes e deixar o país. A corporação também detalhou que seus documentos de viagem brasileiros foram formalmente cancelados e um alerta migratório foi inserido no sistema Sonar. Apesar disso, a corporação reforçou que o senador não é considerado foragido.


Horas após a chegada em solo americano, o senador divulgou uma carta golpista direcionada ao povo brasileiro e à comunidade internacional. No texto original, Flávio se autodeclarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Ele voltou a questionar a legitimidade do pleito e acusou o Judiciário de perseguição política.


Diante da repercussão imediata e das críticas, o senador apagou a primeira postagem e alterou os termos, passando a se denominar apenas “líder do Brasil” e da oposição. A publicação também virou alvo de piadas e críticas na mídia por ter inicialmente utilizado o brasão oficial da República Velha, período em que o país se chamava “Estados Unidos do Brazil”.


Após a divulgação da carta, o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, também publicou nota reafirmando a vitória de Lula e dizendo que as eleições “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”.


Marinho também se pronunciou após a divulgação da carta, declarando que nem ele nem o PL podem afirmar que houve fraude nas eleições, porque “não há provas nesse sentido”. Mais cedo, no domingo, o PL já havia reconhecido o resultado.

Por que não é possível afirmar que Flávio fugiu de uma ditadura?

Na carta publicada nos Estados Unidos, Flávio afirmou que deixou o Brasil para escapar do que chamou de “regime de exceção” e de uma perseguição política promovida pelo Judiciário contra sua família. No entanto, essas alegações não demonstram que o país esteja sob uma ditadura.


Segundo o professor de Filosofia e mestre em Ciências da Educação Pedro Menezes, a principal diferença entre democracia e ditadura está na concentração do poder e na garantia das liberdades individuais. Enquanto a democracia permite a participação popular, a pluralidade de ideias, o acesso à informação e a alternância de poder por meio de eleições, regimes ditatoriais restringem direitos, censuram informações e perseguem opositores.


Democracia

  • Participação popular e escolha de representantes por meio de eleições.
  • Pluralidade de ideias e liberdade de expressão.
  • Acesso à informação e ausência de censura estatal como regra.
  • Alternância de poder conforme a vontade dos eleitores.
  • Governantes submetidos à Constituição e às leis.
  • Divisão entre Executivo, Legislativo e Judiciário, com mecanismos de controle entre os Poderes.

Ditadura

  • Concentração do poder nas mãos de um indivíduo ou grupo.
  • Restrição de direitos políticos e liberdades individuais.
  • Censura à imprensa e às manifestações artísticas.
  • Perseguição de opositores políticos.
  • Restrição do acesso à informação e controle da opinião pública.
  • Limitação ou eliminação da alternância de poder.
  • Governantes que atuam sem os mesmos mecanismos de controle e limites próprios de uma democracia.

A existência de críticas a decisões judiciais ou de denúncias de perseguição política, por si só, não caracteriza uma ditadura.

O que Flávio Bolsonaro alegou ao fugir?

Na carta, Flávio afirmou que houve fraude eleitoral no Brasil, mas não apresentou provas que sustentassem a acusação. O resultado foi reconhecido pela Justiça Eleitoral, além dos Três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e de 46 países que acompanharam a votação. O seu próprio partido, o PL, reconheceu a vitória de Lula ainda no domingo.


O senador também alegou ser vítima de um “regime de exceção” e de perseguição política contra sua família. Ao mesmo tempo, o partido conquistou uma bancada expressiva no Congresso Nacional — incluindo dois de seus irmãos, Jair Renan (deputado federal) e Carlos (senador), e sua madrasta, Michelle (senadora) — e segue participando das instituições políticas do país.


Flávio negou que sua saída representasse uma fuga e afirmou que pretende liderar a oposição a Lula a partir dos Estados Unidos. Para justificar a atuação política no exterior, comparou sua situação à de opositores venezuelanos que deixaram o país durante o governo de Nicolás Maduro, como Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado. Também citou Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí, figuras históricas que exerceram atividades políticas fora de seus países.


Na quinta-feira (29), o influenciador Paulo Figueiredo, que acompanha Flávio nos EUA, afirmou que o senador deseja exercer uma liderança de valor “moral” nos EUA. Segundo ele, a expressão “presidente eleito” foi um erro do ChatGPT na versão anterior da carta, e a expressão “verdadeiro líder”, na avaliação dele, descreve melhor a situação jurídica de Flávio e a intenção dele de atuar nos EUA.

Quais são os próximo passos anunciados por Flávio?

Na carta golpista, Flávio afirmou que pretende liderar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos. Ele também prometeu apresentar, nos próximos dias, uma estratégia para mobilizar a oposição e impedir o que chamou de consolidação de “um regime ditatorial no Brasil”.


Na tarde de quarta-feira (28), Eduardo Bolsonaro publicou uma foto dos dois juntos no Instagram. Na publicação, afirmou que eles não desistiriam do Brasil.


Até a conclusão desta checagem, Flávio não havia divulgado um pronunciamento ou vídeo detalhando como pretende colocar em prática a estratégia de mobilização anunciada.


Fontes consultadas: O Comprova consultou informações do TSE, da Polícia Federal e do STF, além de reportagens do Infobae, Clarín e Reuters sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e sua chegada aos Estados Unidos. Também ouviu o professor de Filosofia Pedro Menezes sobre as diferenças entre democracia e ditadura.


Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.


Para se aprofundar mais: O Comprova desmentiu a alegação de que a prorrogação da eleição das 17h até 19h tenha mudado a vitória de Lula. Lupa e O Globo checaram a carta golpista divulgada por Flávio Bolsonaro. 


Investigação e verificação

Investigado por: Correio Braziliense, SBT News, NSC, A Gazeta e Programa de Residência do Projeto Comprova

Texto verificado por: Correio de Carajás, Correio do Estado, Estadão e Programa de Residência do Projeto Comprova 


O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.

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