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‘Loirona do Flávio’: personagem feita com IA aparece em vídeos com candidato para promover conteúdo adulto

Montagens inserem loira fictícia em registros de atos políticos, substituindo o deputado Nikolas Ferreira. Perfil no Instagram direciona usuários a um canal no Telegram que comercializa conteúdo adulto

Publicado em 23 de Outubro de 2026 às 16:55

Redação de A Gazeta

Publicado em 

23 out 2026 às 16:55
Conteúdo investigado pelo Comprova
Conteúdo investigado pelo Comprova Projeto Comprova

Conteúdo analisado:  Vídeos que circulam nas redes sociais e têm atraído a atenção dos internautas mostram uma mulher loira, criada por inteligência artificial (IA), ao lado do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) em atos políticos. Identificada como Julia Berlli Cortez e apelidada de “loirona do Flávio”, a personagem também é associada à divulgação de conteúdo adulto pago por meio de um perfil no Instagram e de um chatbot no Telegram.


Onde foi publicado: Instagram, TikTok e X. 


Contextualizando: Nesta semana, repercutiram nas redes sociais vídeos de uma mulher loira ao lado do senador e candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). A mulher, identificada como Julia Berlli Cortez, virou assunto de um vídeo do influenciador Guga Figueiredo, conhecido como o “Xerife da Internet”. Em seu Instagram, Figueiredo expôs que a loira seria, na verdade, um bot deepfake criado por inteligência artificial (IA). 


Diversas reportagens jornalísticas confirmaram a denúncia de Figueiredo  (1, 2, 3) e, mais tarde, um conteúdo da BBC identificou mais de 30 perfis similares ao de Julia Cortez. A dinâmica é parecida: os perfis usam um deepfake de inteligência artificial que manifesta apoio político a algum candidato nas eleições presidenciais e chamam os espectadores para links de sites onde vendem conteúdo adulto. 

O caso da "loirona do Flávio"

No caso de Julia Berlli Cortez, apelidada de “Bolsonaro Bombshell”, os vídeos que mais viralizaram foram montagens da mulher em  atos políticos de Flávio Bolsonaro que ocorreram nos dias 17 e 18 de outubro na Bahia, Espírito Santo e São Paulo. Nesses materiais, a personagem aparece ocupando o espaço que, nos vídeos originais, era do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Um dos vídeos que viralizou com essa configuração foi o da passagem de Flávio Bolsonaro e sua comitiva pela Praia de Camburi, em Vitória, no dia 17.

Ao submeter os vídeos ao Hive Detector, ferramenta que mede a presença de inteligência artificial nos conteúdos, o Comprova confirmou que o vídeo em que Julia Cortez aparece tem um índice consideravelmente maior de alteração por IA (14,5%) do que o vídeo original que circulou nas redes sociais. Também chama a atenção o fato de ela aparecer com a mesma roupa nos posts.

Capturas de tela mostram o resultado do Hive Detector
 
Capturas de tela mostram o resultado do Hive Detector
Capturas de tela mostram o resultado do Hive Detector Projeto Comprova

No perfil do Instagram de Julia Cortez, que conta com mais de 522 mil seguidores, não há nenhum aviso de que a personagem é feita com IA — contrariando os Padrões da Comunidade da plataforma. A página mantém os vídeos alterados com IA em que Julia aparece em atos políticos de Flávio Bolsonaro, mas também divulga um link que direciona para as contas de Cortez no TikTok e Snapchat, além de um canal no Telegram voltado para a venda de conteúdo adulto. Até o dia 20 de outubro, o canal possuía 164.432 seguidores. 


Os vídeos publicados no perfil do Instagram de Julia Cortez aparecem com intervalos de aproximadamente duas horas entre as postagens. Em determinados momentos, os conteúdos relacionados à participação de Julia em protestos bolsonaristas são arquivados e, posteriormente, voltam a ser exibidos no perfil. Esse comportamento pode configurar uma técnica de camuflagem algorítmica, conforme estudos sobre a dinâmica da plataforma (1). Perfis como o de Julia costumam ocultar posts temporariamente para “limpar” seu histórico e restaurar sua reputação perante os classificadores da Meta, mitigando o risco de sofrerem shadowbanning.


No dia 20 de outubro, foi identificado um segundo perfil com a mesma foto e descrição biográfica, diferenciado apenas pelo nome de usuário.


Já no Google, o nome de Julia Berlli Cortez leva para sites de conteúdo adulto como a plataforma Privacy,  um serviço brasileiro de venda de assinaturas de conteúdo exclusivo, semelhante ao OnlyFans. Os vídeos na página de Julia Cortez chegam a 40 mil visualizações. Os outros links conduzem para um site de vídeos pornográficos. Ambas as páginas possuem sequestro de histórico, uma técnica que redireciona os usuários para páginas de sites indesejados ou não permitem que ele volte para a aba original.


Os vídeos de Julia – sejam os de teor pornográfico ou os de teor político – também são replicados para outras redes sociais como o TikTok, X e Kwai. 

Quem está por trás do perfil

Ao investigar os canais de monetização vinculados à personagem, o Comprova identificou que os  links disponibilizados no Instagram direcionam para um assistente virtual (chatbot) no Telegram. No aplicativo com 164.432 mil usuários mensais, com o valor mínimo de R$ 14,90, até R$ 39,90 semanais, o robô oferece pacotes de fotos, vídeos e conversas íntimas mediante pagamento via Pix. 

Considerando os pacotes semanais, que custam R$ 14,90 e R$ 39,90, o faturamento bruto potencial da venda desses conteúdos poderiam variar de R$ 9,8 milhões a R$ 26,2 milhões por mês, caso todas as inscrições correspondessem a uma única modalidade e fossem mantidas durante as quatro semanas. Os valores são estimativas e não consideram taxas, cancelamentos ou a distribuição dos assinantes entre os planos.


A decodificação da chave Pix de cobrança (formato QR Code dinâmico/EMV) revelou que a conta recebedora dos valores pertence à empresa Sync Tecnologia Ltda., sediada em Brasília, com infraestrutura processada pela instituição Bass Pago. A empresa faz parte do mesmo grupo econômico da Sync Pay Ltda., fintech especializada em soluções de pagamentos e integrações com agentes de inteligência artificial.


Procurada pela equipe do Projeto Comprova, a Sync negou qualquer vínculo de seus sócios ou colaboradores com a criação da personagem “Julia Berlli Cortez” ou a gestão do perfil e do canal no Telegram. Em nota, a empresa esclareceu que atua unicamente como intermediadora e provedora de infraestrutura de liquidação financeira para seus clientes cadastrados. A companhia afirmou ainda que, após ser notificada pelo Comprova, abriu procedimento interno de análise da conta do usuário responsável pela cobrança e adotou as providências previstas em seus termos de uso e políticas de conformidade. Por força de sigilo contratual e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a empresa não divulgou a identidade do titular da conta.


Após o contato com a empresa Sync, as contas da “Julia” caíram tanto no Telegram quanto no Instagram.


Houve tentativa de contato com a equipe de Flávio Bolsonaro para se posicionar em relação à manipulação digital das imagens em eventos de sua campanha, mas o candidato não encaminhou resposta até o fechamento desta verificação.

Com qual objetivo os vídeos foram criados?

A estratégia observada no caso da “loirona do Flávio” combina a polarização política com a venda de conteúdo adulto. Ao inserir uma personagem hiper-realista em registros verídicos de comícios e caminhadas de figuras públicas de destaque, os criadores geram curiosidade e engajamento orgânico nas redes sociais.


Esse alcance inflado serve como funil de captação: internautas atraídos pela repercussão dos vídeos políticos são conduzidos para links de plataformas eróticas pagas (como Privacy, Telegram e fóruns de conteúdo adulto). Além disso, a alternância entre arquivar e desarquivar publicações políticas no Instagram indica uma tentativa de camuflagem algorítmica para dificultar a moderação automática da Meta e evitar restrições de alcance (shadowban) por distribuição de desinformação gerada por IA.


Fontes consultadas: Para verificar o conteúdo, a reportagem comparou os vídeos virais com as transmissões e publicações oficiais da agenda de Flávio Bolsonaro, identificando que as imagens originais traziam o deputado Nikolas Ferreira. As mídias foram submetidas ao Hive AI Detector, ferramenta online gratuita que analisa probabilidades de manipulação sintética e geração por inteligência artificial em fotos e vídeos.


Para investigar a monetização e a autoria do material, a equipe do Projeto Comprova seguiu os links divulgados na biografia e nos destaques do perfil no Instagram até um assistente virtual no Telegram. O código Pix gerado para pagamento (“Pix Copia e Cola”) foi decodificado por meio de um analisador de carga EMV QR Code, que permite visualizar os dados técnicos embutidos na transação, como nome do recebedor, cidade e servidor de liquidação. A partir dessas informações, foram realizadas consultas públicas na base do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da Receita Federal e na plataforma CNPJ.biz para identificar o quadro societário e a atividade econômica da intermediadora.


As páginas digitais e publicações foram preservadas com os serviços de arquivamento e captura de telas. Também foram consultados os Padrões da Comunidade da Meta sobre solicitação sexual e rotulagem de IA, além de contato direto com a empresa Sync Tecnologia e a assessoria de imprensa do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro.


Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.


Para se aprofundar mais: Além das reportagens já citadas nesta checagem, os jornais O Globo, UOL e a agência Lupa realizaram matérias sobre o caso da “loirona do Flávio”. O Comprova também já fez outros textos verificando a atuação da Meta AI nas eleições de 2026, imagens falsas envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro, conteúdos desinformativos envolvendo IA e a imagem do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Investigação e verificação

Investigado por: Correio Braziliense, GZH, Correio de Carajás e Programa de Residência do Projeto Comprova

Texto verificado por: A Gazeta, Correio do Estado, Estadão e Programa de Residência do Projeto Comprova 


O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.

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