Publicado em 19 de setembro de 2025 às 19:36
BRASÍLIA E WASHINGTON, EUA - O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, desistiu de viajar aos Estados Unidos devido às restrições de circulação impostas pelo governo de Donald Trump.>
De acordo com seus aliados, Padilha avaliou que as limitações determinadas pelos americanos são desrespeitosas com o Brasil e com o tratado internacional que rege a relação da ONU com o país sede da organização – no caso, os EUA.>
Também pesou na avaliação do ministro o fato de que, em qualquer cenário, ele não poderia ir para o encontro da Organização Pan-Americana de Saúde no próximo dia 29, em Washington.>
Em carta direcionada aos ministros da Saúde dos países-membros da Opas, Padilha afirmou que foi alvo de uma "decisão arbitrária e autoritária, que afronta o direito internacional e prejudica a cooperação harmônica entre países soberanos".>
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"Os pretextos alegados para esse ato não têm qualquer amparo nem na realidade dos fatos nem no arcabouço legal que rege a relação entre os países, na medida em que tenta fabricar acusações infundadas e descabidas contra o programa Mais Médicos, criado em 2013", escreveu Padilha. Ele ainda firmou que a restrição imposta pelo governo Trump merece repúdio.>
De acordo com pessoas no governo que acompanham o caso, uma reversão da decisão de Padilha só ocorreria caso as restrições de movimentação fossem removidas, o que era considerado improvável.>
Embora o governo Trump tenha autorizado a permanência de Padilha em Nova York para a Assembleia-Geral da ONU – uma vez que tem a obrigação, como país-sede, de não restringir o ingresso de pessoas convidadas para atividades na organização –, o mesmo não ocorre com a Opas.>
O governo Trump impôs limitações à circulação de Padilha na cidade de Nova York, onde fica a sede da ONU.>
Os EUA decidiram limitar a movimentação de Padilha e familiares que o acompanharem a cinco blocos do local de hospedagem do ministro, além das rotas entre o hotel, o distrito em que fica localizada a sede da ONU, a missão do Brasil junto à organização e a residência do representante brasileiro na organização.>
Caso fosse aos EUA, o ministro apenas poderia sair do perímetro delineado pelos americanos em caso de urgência médica. O governo Lula precisaria ainda pedir autorização especial para Washington caso ele quisesse ir a local fora do perímetro.>
Na carta enviada a ministros de outros países, Padilha recordou que o país de Trump acolheu seu pai, Anivaldo Padilha, que foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira e esteve exilado nos EUA, no Chile e na Suíça. "Em razão desse exílio, só aos oito anos de idade pude conhecê-lo, juntamente com meus dois irmãos, ambos nascidos no exílio", afirmou o ministro.>
"Além desses efeitos, essa proibição tenta impor ao Brasil a exclusão parcial de seus direitos, retirando-nos as prerrogativas garantidas aos Países Membros pelo Acordo de Sede com a ONU", escreveu Padilha.>
Diplomatas ouvidos pela Folha consideram a situação lamentável, que constitui um cenário humilhante para o ministro.>
Mais cedo nesta sexta-feira (19), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, havia afirmado que o Itamaraty acionou o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a presidência da Assembleia-Geral da organização para interferir junto aos Estados Unidos quanto às restrições a Padilha.>
"Estamos através do secretário-geral da ONU e da presidente da Assembleia-Geral relatando o ocorrido. São restrições sem cabimento, injustas e absurdas, e nós estamos pedindo a interferência do secretário-geral junto ao país sede", disse Vieira, durante entrevista coletiva junto da chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, que está em visita a Brasília.>
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