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Morre o diretor teatral Antunes Filho, aos 89 anos

Ele estava internado desde segunda no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e recebeu diagnóstico de câncer no pulmão

Publicado em 03/05/2019 às 08h51
Antunes: "A vida está essa porcaria no Brasil e no mundo, então cabe aos artistas mostrar que a vida é uma festa". Crédito: Foto: Divulgação/Bob Sousa
Antunes: "A vida está essa porcaria no Brasil e no mundo, então cabe aos artistas mostrar que a vida é uma festa". Crédito: Foto: Divulgação/Bob Sousa

Artista da cena e desbravador de caminhos, Antunes Filho morreu nesta quinta-feira (22), aos 89 anos. Ele estava internado desde segunda no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e recebeu diagnóstico de câncer no pulmão.

Encenador brasileiro que gerou dezenas de espetáculos antológicos ao longo dos seus mais de 60 anos de carreira, sempre combinou a prática criativa de encenações ambiciosas com a exploração de novas possibilidades para o teatro, principalmente para seus principais artífices, as atrizes e os atores.

Intuitivo e estudioso, idiossincrático e generoso, independente e comunitário, construiu, ao longo de uma vida que se fez obra, um método próprio de preparar atores e os deixar autônomos, senhores de suas poéticas de atuação. Pelo menos três gerações de atores brasileiros passaram por suas mãos e partilharam com elas a construção deste saber.

Se há um estilo, ou uma dominante nas suas montagens, ele se expressa na centralidade do intérprete e na forma como este busca dilatar a alma do personagem, revelando-a inteira por entre as palavras armadas pelo dramaturgo. Antunes se especializou nessa operação alquímica desde seus primeiros trabalhos e a transformou na razão de ser de sua arte.

José Alves Antunes Filho, nasceu na Bela Vista, em São Paulo, em 12 de dezembro de 1929. Conheceu o teatro levado pela mãe, mais sensível às manifestações artísticas do que o pai, um comerciante português sisudo que se encarregou de sua iniciação religiosa. Já adolescente, optou pelos palcos, mas sempre mantendo um forte apego à espiritualidade.

Antunes, ou Zequinha, como era conhecido pelos amigos que como ele se formaram frequentando a Biblioteca Mário de Andrade e a cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, iniciou suas práticas teatrais no Teatro Escola de Osmar Rodrigues Cruz, no ano de 1946, depois de assistir a uma montagem de “Os Espectros”, de Ibsen.

A partir daí, de espectador atento passou rapidamente a atuador no tablado e, depois de poucas experiências, a comandante do que se passava por ali. Em 1951, formou o seu primeiro grupo, Teatro da Juventude, e apresentou, no Theatro Municipal de São Paulo, uma de suas primeiras montagens, “O Urso”, de Tchékhov.

O sucesso rendeu a ele um convite para apresentar, naquele mesmo ano, a peça no “Teleteatro das Segundas-Feiras”, da TV Tupi. Valeu-lhe também a indicação pelo principal crítico de São Paulo, Décio de Almeida Prado, para ser assistente dos diretores estrangeiros do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC.

No TBC, onde passou pelo menos dois anos “servindo café muito bem”, aproveitou para aprender tudo o que pudesse, enquanto, fora de lá, em 1953, fez sua primeira encenação profissional —“Week End”, de Noel Coward, para o Teatro Íntimo de Nicette Bruno.

“O Diário de Anne Frank”, em 1958, marcou a estreia de sua própria companhia, o Pequeno Teatro de Comédia, ou PTC, e agradou público e crítica, que o reconheceu como um dos primeiros encenadores brasileiros.

Nos 20 anos seguintes, Antunes montaria 20 espetáculos, seja pelo seu PTC, que existiria até 1961, seja no TBC, como diretor convidado, ou mesmo como diretor contratado por produtores. Alguns, como “Plantão 21”, de William Inge, em 1959, fizeram muito sucesso e lhe renderam prêmio e uma bolsa de um ano na Itália.

Outros, como “Yerma”, de García Lorca, realizado no TBC em 1962, já prenunciavam o teatro mais autoral que viria a fazer nos últimos 30 anos. Em 1964, “Vereda da Salvação” gerou muita rejeição e levou ao fechamento do TBC, ainda que ele fosse premiado pela pesquisa.

Por mais que polemizasse com seus contemporâneos, recusando-se a aderir ao teatro engajado, mas também aceitando um pouco as tentações comerciais, Antunes só pode se desenvolver como criador pleno, e se nivelar com os grandes encenadores internacionais de sua época, a partir da encenação de “Macunaíma”, em 1978.

O espetáculo, que se tornou mítico e passou a ser visto como ponto de virada na vida e no teatro de Antunes, foi montado com um grupo de jovens artistas e sob o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, no Teatro São Pedro. Ao final da temporada, o Sesc encampou o projeto, fundando o Centro de Pesquisa Teatral, o CPT.

O centro produziu dezenas de espetáculos de várias fontes, mas todos resultando de longos processos de criação, combinados a simultâneos processos de formação. De fato, nas últimas décadas o CPT se tornou, no Brasil, uma alternativa cobiçada por qualquer jovem atriz ou ator que quisesse se iniciar.

Consequentemente, muitos são os nomes hoje consagrados que se submeteram à rígida disciplina e à efervescência criativa do CPT. Além das quase anuais grandes montagens de Antunes, o centro gerou nesse período novos dramaturgos, encenadores e até uma série vitoriosa de peças criadas e encenadas pelos próprios atores, a “Prêt-à-Porter”.

De todo esse legado, talvez, o que fosse mais caro a Antunes, seria o seu método de preparação, em que sintetizou todas as influências recebidas, mas gerou, com a contribuição das dezenas de artistas que por ali passaram, algo original para o futuro. Nessa sua fixação pelo ator como o poeta do teatro ele afirmou a sua crença maior no ser humano.

Deixa um filho, quatro netos e dois bisnetos.

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