Publicado em 4 de dezembro de 2025 às 08:27
As águas da costa leste do Brasil, que abrange a Bahia e o Espírito Santo, têm a maior concentração de microplásticos em todo o litoral do país. É o que aponta um estudo publicado nesta quarta-feira (3) na revista científica Marine Pollution Bulletin, ao qual a reportagem teve acesso com exclusividade. O artigo é resultado do projeto MicroMar, liderado pelo Instituto Federal Goiano e financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O trabalho envolveu nove expedições científicas e mobilizou cerca de 50 pesquisadores, que percorreram mais de 7.500 km ao longo do litoral, abrangendo os 17 estados banhados pelo oceano Atlântico.>
Os cientistas coletaram 4.134 amostras de água em 1.024 praias, de abril de 2023 a abril de 2024. Os dados foram agrupados em cinco macrorregiões costeiras: amazônica equatorial, nordeste, leste, sudeste e sul. A costa leste do Brasil, que vai da baía de Todos-os-Santos, em Salvador, até a foz do rio Piraquê-Açu, em Aracruz (ES), tem 16,87 partículas de microplástico por litro de água, em média. A concentração é praticamente igual à soma das outras quatro regiões.>
O litoral nordeste é o segundo mais poluído (6,95 partículas por litro), seguido pelo sudeste (5,25) e sul (3,36). As águas da amazônia equatorial apresentaram a menor contaminação (1,29). Juntas, as quatro regiões têm 16,55 fragmentos de microplásticos por litro. "Podemos afirmar com segurança que a costa leste é um hotspot de concentração, porque sua média por litro é excepcionalmente alta", diz o professor Guilherme Malafaia, coordenador do estudo.>
O pesquisador afirma que a alta contaminação nesses estados é surpreendente à primeira vista. "Pelo senso comum, seria razoável esperar que a costa sudeste, com forte industrialização, altíssima densidade populacional e grandes hotspots conhecidos, como baía de Guanabara, Baixada Santista e estuário do Paraíba do Sul, apresentasse as maiores concentrações de microplásticos na água.">
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O estudo oferece algumas explicações para a taxa elevada de poluentes na região leste, como a influência de áreas turísticas, o despejo de esgoto e a proximidade de rodovias, já que o atrito dos pneus com o asfalto gera partículas de plástico. Os governos da Bahia e do Espírito Santo não responderam aos questionamentos da reportagem.>
No extremo oposto, a maior distância de infraestruturas urbanas e a influência das correntes dos rios ajudam a justificar a baixa poluição nas águas da amazônia. As costas nordeste e sudeste têm valores intermediários e combinam pressões relevantes, como descarte de esgoto, resorts, e outras instalações costeiras. Porém, tempestades e dinâmicas oceânicas favorecem o espalhamento das partículas ao longo da margem.>
Outras características do mar influenciam a dispersão dos poluentes, como o pH, a salinidade e a presença de clorofila, molécula produzida por algas. Esses parâmetros interferem no "afundamento" dos microplásticos na coluna d'água -como a pesquisa se baseou em amostras coletadas na superfície, não foi possível avaliar a concentração em profundidades maiores. "Regiões mais poluídas tendem a concentrar partículas maiores e mais degradadas, indicativas de forte fragmentação e retenção local, enquanto regiões menos poluídas apresentam partículas menores e mais compactas, compatíveis com maior exportação e menor acúmulo superficial", explica o coordenador do estudo.>
Os pesquisadores do MicroMar já haviam publicado outro artigo no final de setembro sobre a descoberta de microplásticos nas areias de 709 praias brasileiras. O novo estudo não calculou a concentração exata dos poluentes nas águas de cada local analisado -em vez disso, agregou os milhares de pontos de coleta nas cinco grandes regiões costeiras. De acordo com Malafaia, a presença de microplásticos na água afeta o ecossistema marinho a partir da base da cadeia alimentar. "Essas partículas podem ser ingeridas por organismos filtradores e por larvas de crustáceos e peixes no estágio inicial de desenvolvimento, alterando metabolismos, reduzindo sobrevivência e interferindo em processos biológicos essenciais, como a reprodução.">
Há também o risco de efeitos indiretos à saúde humana. "Os microplásticos funcionam como uma espécie de carreadores de poluentes químicos e patógenos, e sua presença constante sinaliza sistemas de gestão inadequados, que impactam pesca, turismo e serviços ecossistêmicos fundamentais", afirma o cientista.
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O pesquisador diz que os resultados do estudo deveriam guiar políticas municipais, estaduais e federais voltadas a fiscalizar e conter a poluição plástica. "Isso implica metas de redução por macrorregião, financiamento de centrais de triagem para resíduos plásticos em áreas estratégicas, incentivo à logística reversa em setores críticos, como pesca, turismo e construção civil, e protocolos obrigatórios de monitoramento fluvial, já que os rios são a porta direta de entrada de partículas para o mar", defende.>
"Sem essa engrenagem interligada, do emissor municipal à governança federal, o país continuará apenas reagindo ao problema, em vez de preveni-lo". O presidente Lula (PT) sancionou em outubro um decreto que cria a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico, que tem o objetivo de prevenir, reduzir e eliminar a poluição plástica no mar até 2030. O plano será liderado pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima).
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