Publicado em 28 de outubro de 2022 às 21:09
BRASÍLIA - As críticas de Jair Bolsonaro (PL) contra o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o ministro Alexandre de Moraes, presidente da corte, têm encontrado respaldo entre oficiais-generais das Forças Armadas.>
Cinco generais ouvidos pela Folha de S.Paulo fazem eco ao discurso de perseguição de Bolsonaro e afirmam reservadamente que Moraes tem extrapolado em decisões, chegando a cometer ilegalidades. Eles citam decisões do TSE sobre direitos de resposta concedidos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a tese apresentada pela campanha bolsonarista sobre um suposto boicote de programação eleitoral do mandatário que teria sido promovido por rádios no Nordeste.>
Existe a percepção entre os militares que as denúncias sobre as rádios não deveriam ser descartadas antes de uma apuração mais extensa. Para eles, não é razoável que Moraes tenha rejeitado o caso em cerca de 24 horas e mandado investigar a campanha de Bolsonaro sem antes abrir uma apuração sobre o suposto boicote.>
Apesar da opinião dos militares, a tese bolsonarista tem uma série de fragilidades. As próprias rádios citadas nos relatórios que compõem a denúncia contestam a afirmação de boicote. Além do mais, o ministro Fábio Faria (Comunicações) disse estar arrependido de ter participado da apresentação à imprensa que lançou a tese do suposto boicote.>
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"Me arrependi profundamente de ter participado daquela entrevista coletiva. Se eu soubesse que [a crise] iria escalar, eu não teria entrado no assunto", disse Faria.>
De acordo com o ministro, a iniciativa desandou quando bolsonaristas passaram a usar o fato para pedir o adiamento das eleições.>
Apesar das queixas contra Moraes, militares ouvidos afirmam que o assunto é de responsabilidade dos partidos e da Justiça Eleitoral e que as Forças Armadas não devem embarcar em qualquer tipo de tese de adiamento de eleições.>
Há também no Ministério da Defesa uma insatisfação com a resposta dada por Moraes ao ofício do ministro Paulo Sérgio Nogueira que sugeria ajustes na fiscalização do segundo turno das eleições, especialmente no teste de integridade.>
O presidente da corte eleitoral disse que só analisará as sugestões dos militares e da CGU (Controladoria-Geral da União) após a entrega, pelos militares, dos relatórios da fiscalização do pleito — o que no caso da Defesa está prevista para o início de 2023.>
Mesmo reconhecendo contrariedade com o chefe do TSE, os oficiais-generais dizem que o único foco das Forças Armadas no período eleitoral é organizar as operações de GVA (Garantia de Votação e Apuração), como fazem tradicionalmente em apoio à Justiça Eleitoral.>
No primeiro turno, 34 mil militares atuaram em 585 municípios espalhados em 13 estados para o apoio logístico, com o envio das urnas e auxílio à segurança dos eleitores.>
A gestão de Moraes vem, até este momento, decepcionando militares de alta patente. Havia expectativa no Ministério da Defesa que a interlocução com o TSE melhorasse com a chegada do ministro à presidência do tribunal, após um período de embates entre as Forças e o ex-presidente Edson Fachin.>
Moraes assumiu o TSE em agosto deste ano, assim que começaram as eleições.>
As Forças Armadas foram incluídas pelo TSE na lista de entidades fiscalizadoras da eleição. Bolsonaro costuma fazer ataques sem provas às urnas eletrônicas e afirma que irá aguardar relatório dos militares sobre a lisura do pleito para aceitar o resultado da eleição.>
Nesta semana, Bolsonaro tentou mais uma vez envolver os militares em suas acusações contra a lisura das eleições.>
Bolsonaro alterou sua agenda de campanha, na noite de quarta-feira (26), para fazer um pronunciamento e uma reunião no Palácio da Alvorada. Ele chamou para a reunião sobre o tema comandantes das Forças e ministros do governo.>
Em sua declaração, ele disse ter provas "contundentes" de que foi prejudicado por supostamente terem sido transmitidas mais inserções de Lula do que dele.>
"Certos lugares que achava que iria bem e poderia até ganhar, nossa análise — pode ter havido outros fatores —, vimos que perdemos. Com toda a certeza, as inserções de rádio fizeram a diferença ou poderiam ter feito a diferença. Não existe outro fator que a gente possa levar em conta nesse momento", disse o chefe do Executivo, que no momento do pronunciamento estava acompanhado apenas pelos ministros Anderson Torres (Justiça) e Augusto Heleno (Segurança Institucional).>
A ida dos comandantes das três Forças para a reunião com Bolsonaro no Palácio da Alvorada foi uma surpresa para oficiais-generais dos Altos Comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.>
O convite foi feito às pressas. O assunto, segundo um general ouvido pela reportagem, era o que foi classificado por militares próximos ao presidente como as últimas ilegalidades cometidas por Moraes.>
A manifestação de Bolsonaro foi feita logo após Moraes rejeitar a ação apresentada pela campanha de reeleição sobre o suposto boicote de rádios na veiculação de propaganda eleitoral.>
Na decisão, o presidente do TSE afirma que Bolsonaro não tem provas e se baseia em levantamento de empresa "não especializada em auditoria".>
O ministro apontou possível "cometimento de crime eleitoral com a finalidade de tumultuar o segundo turno do pleito em sua última semana" e mandou o caso para ser avaliado dentro do inquérito das "milícias digitais", que é relatado por ele mesmo no STF (Supremo Tribunal Federal).>
Moraes também encaminhou a decisão à Procuradoria-Geral Eleitoral e ao corregedor-geral do TSE. "Para instauração de procedimento administrativo e apuração de responsabilidade, em eventual desvio de finalidade na utilização de recursos do fundo partidário dos autores.">
Um dia após a reunião dos comandantes, Paulo Sérgio Nogueira se reuniu virtualmente com os comandantes de Operações Conjuntas das Forças para receber os relatos de como está o andamento das soluções logísticas para o transporte das urnas pelo Brasil.>
Também na quinta (27), Paulo Sérgio teve uma nova reunião com os comandantes Freire Gomes (Exército), Baptista Júnior (Aeronáutica) e Almir Garnier (Marinha). Os encontros são periódicos e tratam de assuntos de interesse das três Armas.>
Um dos principais pilares do bolsonarismo sempre foi a proximidade com os fardados, o que cunhou o apelido de ala militar aos integrantes do seu entorno que são egressos das Forças Armadas.>
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