Publicado em 22 de novembro de 2021 às 18:52
Servidores envolvidos na elaboração do Enem 2021 temem sofrer represálias depois do primeiro dia de provas que aconteceu neste domingo (21). Mesmo com a pressão para que alguns temas fossem suprimidos, as questões abordaram assuntos que incomodam o governo de Jair Bolsonaro (sem partido).>
Nesta segunda (22), o presidente disse que o exame ainda apresentou "questão de ideologia", mas disse que a prova está mudando. Na véspera, Bolsonaro chegou a dizer que o Enem estava com a "cara do governo".>
Algumas questões das provas de linguagens e de ciências humanas que mais chamaram a atenção de alunos e professores eram exatamente as que o comando do Inep tentou retirar da prova.>
Para o órgão, que é o responsável pela elaboração do exame, as perguntas abordavam temas considerados sensíveis pelo governo. Parte das questões suprimidas acabou voltando ao Enem para garantir um nível de dificuldade calibrado.>
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A reportagem apurou que uma das perguntas retiradas que depois voltou ao exame era a que trazia uma obra do movimento Pop Art, dos anos 1960, com a imagem de uma mulher e fazia uma reflexão sobre a erotização do corpo feminino. Aconteceu a mesma coisa com uma questão que abordou o racismo contra jogadores brasileiros negros na Copa do Mundo de 1950.>
Uma pergunta com trecho de um texto de Friedrich Engels, coautor do Manifesto Comunista com Karl Marx, também estava entre as que a chefia do Inep tentou barrar, mostrou o jornal O Estado de São Paulo.>
As denúncias indicam que ao menos 20 itens foram suprimidos, a maior parte na prova de linguagens. Todas as alterações feitas, desde a primeira versão da prova até a que chegou aos candidatos, foram registradas em ata. O documento está em sigilo no Inep.>
Além de Bolsonaro ter considerado que a prova manteve "questões ideológicas" por abordar temas relacionados aos direitos humanos, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, também disse no domingo que, se pudesse interferir no Enem, algumas perguntas não estariam presentes.>
As declarações levantaram preocupação nos servidores, que temem uma nova onda de perseguições já que são poucos os envolvidos na elaboração da prova.>
No início deste ano, após a realização do Enem 2020 --devido à pandemia, ele aconteceu apenas em janeiro de 2021--, ao menos três pessoas envolvidas na elaboração da prova foram informadas que não eram mais bem-vindas na função. Outros que permaneceram relatam ter sofrido tanta pressão para não abordar temas considerados inadequados que pediram para mudar de setor.>
Já na edição anterior, os servidores eram pressionados a não abordar assuntos que desagradam o presidente. Na prova de 2020, o gabarito da prova sofreu alteração indevida após sua elaboração. As mudanças ocorreram em duas questões que abordavam o racismo.>
Apesar de considerarem que a prova foi bem sucedida, atendendo à matriz de conteúdos do Enem e a coerência estatística do exame, há o temor de novas substituições na equipe técnica.>
A prova deste ano aconteceu em meio a uma série de denúncias de interferência, censura e assédio moral que levaram, inclusive, 37 pessoas a pedirem afastamento coletivo de cargos de chefia no Inep.>
Para professores de ensino médio, as provas do primeiro dia do Enem foram equilibradas e mantiveram o padrão de anos anteriores. Ainda assim, destacaram a ausência de conteúdos e temas importantes, como a ditadura militar (1964-1985).>
Desde que o presidente assumiu, o período, que faz parte do conteúdo obrigatório do ensino médio, não foi mais cobrado no Enem. O jornal Folha de S.Paulo mostrou que o presidente pediu ao ministro da Educação para que houvesse questões que tratassem o golpe militar de 1964 como uma revolução, o que não aconteceu na edição deste ano.>
Também não houve nenhum item que abordasse a questão LGBTQIA+, o que foi destacado como positivo por Bolsonaro nesta segunda. "Vocês não viram mais a linguagem de tal tipo de gente, com tal perfil", declarou.>
Ainda quando era presidente eleito, no fim de 2018, Bolsonaro criticou uma pergunta do Enem que tratava de um dialeto utilizado por gays e travestis. Na época, ele já anunciou que mudaria o exame para barrar questões com esse tipo de abordagem.>
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