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Edir Macedo já foi pró-aborto, e outras igrejas relativizaram prática

A última década, contudo, consolidou a potência da causa para galvanizar fiéis. A partir de 2010, a discussão encharcou a eleição presidencial, com pastores dando ares de cruzada religiosa à bandeira

Publicado em 06/03/2021 às 19h23
Atualizado em 06/03/2021 às 19h23
Bispo Edir Macedo
Bispo Edir Macedo é o líder da Igreja Universal. Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

A oposição ao aborto é tão associada a evangélicos que parece que sempre foi assim. Não foi. Muitas das grandes denominações brasileiras tinham uma postura mais permissiva ao menos com as situações previstas na lei. A Igreja Universal do Reino de Deus ia além, com o próprio bispo Edir Macedo saindo em defesa das "muitas mulheres [que] têm perdido a vida em clínicas de fundo de quintal".

A última década, contudo, consolidou a potência da causa para galvanizar fiéis. A partir de 2010, a discussão encharcou a eleição presidencial, com pastores dando ares de cruzada religiosa à bandeira.

Antes de falar do cenário nacional, vamos dar uma passada nos EUA. Por lá, um bom termômetro é a Convenção Batista do Sul --a maior denominação evangélica do país.

Primeiro, um contexto: Roe versus Wade é o nome do caso que levou à decisão da Suprema Corte dos EUA de reconhecer o aborto como um direito da mulher, em 1973. Nem esse marco foi capaz de eletrizar as igrejas num primeiro momento.

Naquela década, a Convenção dizia trabalhar por uma legislação que liberasse o aborto em casos como estupro, incesto e danos à saúde mental e física da mãe.

"Os evangélicos consideraram o aborto uma questão católica durante aqueles anos", diz à Folha o historiador da religião Randall Balmer, da Dartmouth College. "Só antes da eleição presidencial de 1980 [vencida pelo republicano Ronald Reagan] que vão começar a se interessar pelo assunto."

E o Brasil? Ao contrário dos EUA, onde evangélicos sempre foram maioria, até os anos 1980 esse bloco era nanico no país. Politicamente, o engajamento engrenou na Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1986 para formular a nova Constituição.

"Não havia como não notá-los. O país todo tinha diante de si um conjunto de parlamentares que se autoproclamavam evangélicos, cujo número --33-- por si só constituía uma novidade na cena política nacional", disse o sociólogo Antônio Flávio Pierucci.

Nos anos seguintes, evangélicos não se empenharam para derrubar o aborto legal, diz a professora da USP Jacqueline Moraes Teixeira, que estudou questões de gênero na Universal. "Apesar de a pauta estar na Constituinte e nas discussões sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos [de 2009], não havia uma mobilização por parte de igrejas capaz de produzir engajamento de ir para a rua, como vimos em 2020 com a menina de dez anos que engravidou após um estupro. A maioria sempre disse seguir a Constituição."

Como nos EUA, o tema da família acabou se mostrando uma excelente cola ideológica para os evangélicos. Igrejas como a Batista Lagoinha, que já teve a ministra Damares Alves como pastora, passaram a produzir material contra qualquer tipo de aborto.

Dois estupros envolvendo crianças anabolizaram a aliança entre conservadores: uma menina de nove anos grávida de gêmeos, em 2009, e o crime de 2020. Ambas abortaram sob grita de cristãos.

Fundador da Universal, Edir Macedo destoava de outros pastores. Em 2007, ele disse à Folha ser favorável à descriminalização da prática porque muitas mulheres morriam em clínicas clandestinas. 

Edir Macedo, em 2007

Líder da Igreja Universal

"O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades?"

O repórter rebateu: se "'Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la', como diz a Bíblia, não é contraditório apoiar o aborto?" Macedo: "A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus!".

No mesmo ano, a Record, emissora do bispo, veiculou campanha em que uma mulher elencava liberdades que conquistou, como usar minissaia. "Será que não posso decidir o que fazer com o meu corpo?" A peça terminava assim: "Aborto. Porque toda mulher sempre é capaz de decidir sobre o que é importante".

Para Teixeira, o posicionamento pode ser compreendido à luz da Teologia da Prosperidade. Bússola dos neopentecostais, ela prega que se pode contar com Deus para obter sucesso material.

"Isso emerge atrelado a uma teologia pautada pelo controle da natalidade. Aborto, vasectomia, anticoncepcionais entram nessa rede de cálculos para se pensar a ascensão econômica."

Esse roteiro se enfraquece em 2016, quando várias lideranças da Universal deixam de falar do assunto. Segundo Teixeira, o movimento se relaciona às alianças políticas que a Universal faz. Naquele ano, o PRB (atual Republicanos), costela partidária da denominação, deixa a base de Dilma Rousseff (PT). Ato pensado para garantir a eleição de Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, à Prefeitura do Rio.

Em 2010, Macedo publicou em seu blog o que chamou de "embasamento bíblico" em prol do aborto. Resgatou o momento da Santa Ceia em que Jesus anunciou que entre eles havia um traidor: "Melhor lhe fora não haver nascido!". "Essa última frase pode ser interpretada como: seria melhor que Judas tivesse sido abortado", escreveu.

A pastora Elizete Malafaia prefere uma passagem do Livro de Jeremias, do Antigo Testamento: "Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações".

Igreja Evangélica Igreja Aborto

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