Publicado em 31 de janeiro de 2021 às 13:27
- Atualizado há 5 anos
Com a provável eleição de aliados para a presidência do Senado e da Câmara Federal, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) planeja afastar o fantasma do impeachment e lançar as bases do seu projeto de reeleição.>
Com um apoio mais sólido no Congresso -construído com o loteamento de ministérios e distribuição de emendas-, o presidente pretende pôr em votação pautas ideológicas, reforçar programas sociais e conseguir a aprovação de reformas econômicas.>
Essas três áreas são consideradas por aliados os pilares da campanha de Bolsonaro em 2022, quando ele deve tentar conquistar mais quatro anos à frente do Palácio do Planalto.>
O Executivo espera com ansiedade principalmente a sessão da Câmara nesta segunda-feira (1º). Líder do centrão e candidato de Bolsonaro, o deputado Arthur Lira (PP-AL) é o favorito na disputa e, na reta final, conseguiu adesões importantes contra seu principal adversário, Baleia Rossi (MDB-SP).>
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Para Bolsonaro, tão valiosa quanto a vitória de um aliado é o fim da era Rodrigo Maia (DEM-RJ), que apoia Baleia, na Câmara. O presidente acusa Maia de travar a agenda bolsonarista no Congresso.>
Bolsonaro fez campanha por Lira e mobilizou ministros para que a estrutura do governo estivesse à disposição do aliado a fim de consolidar seu apoio na Casa.>
Se o sucesso de Lira tende a fortalecer a posição de Bolsonaro no Congresso e eliminar, ao menos no curto prazo, o fantasma do impeachment, o presidente deve pagar um preço pelo casamento com o líder do centrão.>
Assessores no Planalto dão como certa uma reforma ministerial que ampliará o espaço na Esplanada de legendas como PP, PSD, PL e Republicanos. O próprio Bolsonaro reconheceu nesta sexta-feira (29) que pode recriar as pastas da Cultura, do Esporte e da Pesca.>
"Se tiver um clima no Parlamento, pelo que tudo indica as duas pessoas que nós temos simpatia devem se eleger, não vamos ter mais uma pauta travada, a gente pode levar muita coisa avante, quem sabe até ressurgir os ministérios, esses ministérios"", afirmou.>
No Senado, a segunda pessoa a quem Bolsonaro se referiu é Rodrigo Pacheco (DEM-MG), candidato com apoio do atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP).>
Durante a campanha presidencial em 2018, Bolsonaro, porém, se apresentou como um nome de fora da velha política e prometeu um time de ministros enxuto e livre de indicações políticas.>
Hoje o governo Bolsonaro tem 23 ministérios, 8 a mais do que os 15 prometidos na eleição. Sob a gestão de Michel Temer (MDB), seu antecessor, eram 29 pastas.>
Mesmo a narrativa de um ministério sem indicações políticas será difícil de sustentar. Na reforma ministerial discutida, Bolsonaro avalia remover Onyx Lorenzoni para a Secretaria-Geral da Presidência. Com isso, o presidente poderá entregar a um partido do centrão o Ministério da Cidadania, cobiçado por ser uma vitrine que executa programas sociais.>
Interlocutores disseram à Folha que, além do apoio no Legislativo, o objetivo da reforma ministerial é amarrar o maior número de legendas de centro-direita ao governo.>
Bolsonaro quer limitar o número de possíveis adversários desse campo em 2022, na esperança de protagonizar um segundo turno com um nome da esquerda e, assim, reeditar a polarização de 2018 com o PT.>
Com a popularidade em queda e criticado pela errática resposta à pandemia, Bolsonaro aposta em Lira como uma barreira contra a abertura de um impeachment.>
O mandatário viu crescer nos partidos de oposição e na sociedade civil o coro pelo seu afastamento, em especial após o colapso da saúde pública em Manaus e o atraso na campanha nacional de vacinação contra Covid-19. Mas é do presidente da Câmara a prerrogativa de dar o pontapé na tramitação do processo.>
Para além de ver afastada a hipótese do impeachment, Bolsonaro espera o apoio de Lira e de Pacheco no Senado na definição da agenda legislativa dos seus anos finais de mandato.>
Se o objetivo final é um só, construir as bases de uma campanha à reeleição competitiva, aliados do mandatário se dividem quanto ao que deve ser prioridade no Congresso.>
Expoentes da ala ideológica -entre eles o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente- consideram que o governo deve centrar esforços para aprovar projetos que mobilizam a base mais radical do bolsonarismo.>
Estão na mira desse grupo temas como novas flexibilizações para o acesso a armas, o voto impresso e a oposição a qualquer matéria que amplie as possibilidades atuais de interrupção de gravidez.>
O núcleo político ao redor do presidente, porém, vê mais chances de a maioria desses temas ser discutida, mas não aprovada. A base bolsonarista, dizem aliados, é demasiadamente heterogênea para a construção de maiorias em temas polêmicos e que terão ampla resistência no Congresso.>
Conselheiros políticos no Planalto também não veem espaço para medidas como a redução da autoridade dos estados sobre as Polícias Militares e o impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).>
Essa última pauta é defendida por integrantes da ala mais radical para intimidar o Supremo e abrir espaço para que Bolsonaro faça mais indicações de magistrados.>
Já temas como a autorização para ensino domiciliar, o homeschooling, e novas flexibilizações nas leis de trânsito são vistas como mais viáveis de aprovação.>
Também há divisão em relação à pauta econômica. Enquanto nomes da ala ideológica veem nas reformas tributária e administrativa medidas impopulares e sem chances de aprovação nos últimos dois anos do mandato de Bolsonaro, auxiliares do ministro da Economia, Paulo Guedes, querem continuar tentando tirá-las do papel.>
Embora reconheçam que o governo terá dificuldades em comunicar a importância dessas agendas, esses auxiliares ponderam que o cenário de economia deteriorada pela pandemia da Covid-19 facilita o entendimento da necessidade de mudanças.>
Um interlocutor de Bolsonaro no Congresso diz acreditar que, se Lira for eleito, terá empenho em destravar a pauta econômica já no início deste ano para se mostrar diferente de Maia.>
O atual presidente da Câmara foi protagonista na votação da reforma da Previdência, mas o restante da agenda reformista não avançou.>
Este auxiliar elenca como matérias em estágio mais avançado para começar os trabalhos a proposta de autonomia do Banco Central, já aprovada no Senado, a PEC Emergencial --proposta de emenda à Constituição com gatilhos para conter gastos-- travada há mais de um ano, além da conclusão da votação de marcos legais como o da energia elétrica e a lei do gás.>
De olho em 2022, assessores presidenciais convergem em um ponto: o presidente precisará de sua base no Legislativo para reforçar a área social.>
A queda na popularidade de Bolsonaro está associada, de acordo com conselheiros, ao fim do auxílio emergencial pago no ano passado para mitigar os efeitos da pandemia.>
Uma eventual retomada do auxílio tem sido objeto de discussões de candidatos ao comando das duas Casas e deve voltar com força à agenda no retorno dos congressistas.>
Uma alternativa está há meses sendo debatida pela equipe econômica e por assessores do presidente, mas a principal dificuldade é encontrar uma fórmula que não extrapole o teto de gastos, que limita o aumento das despesas à inflação.>
"Lamento, pessoal, quer que continue [o auxílio emergencial], vai quebrar o Brasil, vem inflação, descontrole da economia, vem um desastre e todo mundo aí pagar caríssimo", disse Bolsonaro, em transmissão nas redes sociais.>
No Senado, a expectativa é que Pacheco represente a continuidade da gestão de Alcolumbre, sem entrar em polêmicas e deixando de lado temas caros ao presidente, como a investigação sobre o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), em decorrência de esquema de "rachadinha" quando era deputado no Rio.>
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