Desde a Revolução Industrial, quando passou a ser possível produzir bens em grande quantidade e a custo mais baixo, a magia do consumo seduz cada vez mais. Indústria, comércio e serviços interagem incessantemente, e todo dia aparecem novos estímulos para o cidadão gastar dinheiro. Criou-se a civilização do ter, do possuir. Nesse contexto, a Black Friday completa dez anos de Brasil. Com enorme sucesso. Tem salvado muitas lojas de situações críticas, e permitindo às populações não abastadas acesso a determinados bens, com menos sacrifício financeiro.
A primeira edição da BF no território brasileiro ocorreu em 28 de dezembro de 2010. Foi 100% on-line. As redes varejistas que aderiram ofereceram condições atrativas somente no e-commerce, e reuniu mais de 50 lojas. Dez anos depois, a Black Friday está consolidada como uma das maiores festas anuais do varejo em todo o país. É ansiosamente esperada tanto pelos consumidores quanto pelos comerciantes. Vendas frenéticas fluem on-line e nas lojas físicas. Não raramente, multidões passam a noite nas calçadas esperando abertura de estabelecimentos.
Bancos também aderem à onda gigantesca, com opções de investimentos mais rentáveis e mais acessíveis. Restaurantes e bares também surfam. E a duração das promoções já não é de apenas um dia, como antigamente. Agora, desde o início de novembro jorram ofertas e descontos. Criativo (como sempre!), o brasileiro criou o esquenta Black Friday, antecipando e estendendo o seu dinamismo.
Dados de algumas pesquisas dão certa ideia do gigantismo da Black Friday no Brasil: em 2018, acumulou quase 4 milhões de posts em sites e redes sociais, ultrapassando as festas de fim de ano. Para 2019, a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) estima que somente o segmento de e-commerce deve faturar mais de R$ 3 bilhões no evento deste ano. Imagina se a economia estivesse robusta e não chocha, como hoje, esperando pibinho inferior a 1%...
No Espírito Santo, a expectativa dos lojistas para a Black Friday 2019 é de aumento entre 10% e 15% nas vendas em relação ao ano passado, dependendo do segmento. Este é o cálculo da Fecomércio-ES. No ano de 2018, o mês de novembro registrou uma alta de 10,7% no volume de negócios, comparativamente ao mesmo mês de 2017. A possível realização desse impulso chega em momento oportuno. Vem contrabalançar prejuízos. Expressiva quantidade de estabelecimentos comerciais sofreu vultosas perdas neste mês, provocados pelo excesso de chuva na Grande Vitória, e em diversos municípios do interior.
Pelo menos quatro razões concretas (quantidade razoável, não é?) avalizam a expectativa de uma Black Friday melhor para o comércio em 2019 do que no ano passado. A primeira - e, certamente, a principal no Espírito Santo - é o saldo de 20.298 vagas de trabalho no mercado formal, acumuladas de janeiro a outubro deste ano, de acordo com o IBGE. Este número é 14% superior ao registrado em igual período do ano anterior. Mais do que óbvio: sem esse avanço, o cenário seria muito mais adverso para o Estado.
Os três demais motivos de otimismo são de âmbito nacional. Veja: a) a liberação de recursos das contas do PIS/Pasep e do FGTS, dinheiro que já está ampliando o consumo, segundo a Fecomércio-ES; b) os juros cobrados atualmente (crediário, financiamentos etc) são os mais baixos desde que a Black Friday, invenção americana, desembarcou no Brasil; c) apesar do pibinho acanhado, o país vive a sensação de ligeira melhoria no ritmo da atividade econômica, refletida em vários indicadores. Não se trata apenas da sazonalidade natalina. Felizmente, observa-se crescimento da confiança na economia, reforçada pela reforma da Previdência, e pela perspectiva de reforma tributária. São fatos que animam o investimento e o consumo.
Uma das características da Black Friday 2019 é a fusão mais forte do on-line com o offline. Aumenta cada vez mais a quantidade de pessoas que compram pela internet, mas preferem retirar o produto na loja física. Detalhe: 41% dos compradores buscam diretamente os sites específicos. A reputação do vendedor pesa na decisão da compra. A tendência é que esse número evolua para mais de 50% já neste ano, dizem especialistas em marketing.
Mas picos de consumo sempre requerem atenção especial. O comprador deve estar consciente dos seus direitos e procurar segurança na aquisição de quaisquer produtos. Procons costumam ficar abarrotados de relatos de armadilhas camufladas em descontos fascinantes.
Por fim, potenciais compradores devem tomar cuidado para não comprar por impulso e se endividar.