O Espírito Santo vive um momento importante em sua história econômica. Depois de décadas construindo uma cultura de planejamento, responsabilidade fiscal e segurança jurídica, o estado entra em um novo ciclo de desenvolvimento, marcado por investimentos de grande porte e por uma economia cada vez mais diversificada, mesmo com incertezas diante da implantação da reforma tributária.
As projeções de investimentos divulgadas pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), de R$ 137,6 bilhões nos próximos anos, somadas a grandes anúncios como a vinda da montadora chinesa GWM e a implantação do ParkLog ES e Sul, mostram que estamos diante de um novo salto de crescimento econômico.
É fundamental que possamos preparar o Estado para transformar esse potencial em desenvolvimento sustentável, com inclusão e melhoria da qualidade de vida da população capixaba.
Esses empreendimentos movimentam amplas cadeias de fornecedores, atraem trabalhadores, ampliam a circulação de pessoas e mercadorias e criam novas demandas por infraestrutura, habitação, mobilidade, educação, saúde e serviços em geral. Por isso, precisamos pensar desde já nas consequências desse novo ciclo.
Como serão nossas cidades daqui a 10 ou 15 anos? Como vamos organizar os novos polos de desenvolvimento? Como garantir mobilidade e infraestrutura adequadas? Como formar os profissionais do estado que ocuparão os empregos que serão criados? Como preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, criar condições para a instalação de novos empreendimentos? E, principalmente, como fazer com que o crescimento econômico se traduza em oportunidades e qualidade de vida para a população?
São perguntas que não podem ser respondidas depois: precisamos antecipá-las. A capacidade de planejar é uma das razões pelas quais o Espírito Santo conseguiu construir, ao longo das últimas décadas, uma trajetória diferenciada.
O Estado aprendeu que planejamento não é algo restrito a um governo ou a uma administração: é uma construção de longo prazo, que envolve a sociedade organizada e é capaz de atravessar ciclos eleitorais, orientando as grandes decisões do Estado a partir de objetivos comuns.
Um novo ciclo de investimentos também exige que pensemos a infraestrutura para além das necessidades atuais. Rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, energia e conectividade precisam acompanhar o crescimento da economia.
Especialmente após a reforma tributária, a logística, a infraestrutura e a capacidade de inovação são fundamentais para a competitividade do Espírito Santo.
Devido à sua localização geográfica estratégica, próximo aos maiores mercados consumidores do país, o estado se consolidou historicamente como uma forte plataforma voltada para o comércio exterior e a movimentação de cargas.
Essa discussão ganha ainda mais relevância porque acredito que o Espírito Santo não deve pensar sua competitividade apenas dentro de suas fronteiras. Nossa posição geográfica e nossa infraestrutura permitem uma conexão cada vez maior com estados como Minas Gerais e Bahia e toda a região Centro-Oeste, de onde virão cargas para escoar por nossos portos.
Pensar a nossa atuação regional com novas conexões é uma oportunidade estratégica. Somos um estado de dimensões relativamente pequenas, mas podemos ampliar nossa relevância pela capacidade de nos conectar aos mercados e cadeias produtivas que estão ao nosso redor.
Precisamos também focar no capital humano, nas pessoas. Não adianta atrair investimentos se não formos capazes de formar profissionais para ocupar os empregos que serão criados aqui.
Não adianta ampliar a atividade econômica se nossas cidades não estiverem devidamente preparadas para oferecer qualidade de vida e se os benefícios desse crescimento não alcançarem diferentes regiões, incluindo parcelas cada vez maiores da população.
Há outro aspecto que considero fundamental: o diálogo com a sociedade. Grandes empreendimentos precisam, naturalmente, cumprir exigências legais e ambientais. Mas isso não basta. Quanto maior o impacto de um projeto, maior deve ser a disposição para dialogar com as comunidades, explicando seus benefícios, sabendo ouvir preocupações e construindo confiança. É o que podemos chamar de licença social para operar.
Obviamente, ela não substitui o licenciamento ambiental formal, mas complementa o processo de instalação de uma empresa, ajudando a criar as condições para que o desenvolvimento seja compreendido e incorporado pela sociedade.
O diálogo não pode ser visto como um obstáculo ao desenvolvimento. Pelo contrário: é uma de suas condições de sustentabilidade. Essa capacidade de articulação entre diferentes setores é, inclusive, um dos patrimônios que o Espírito Santo construiu ao longo dos anos.
Empresas, governos, entidades empresariais, universidades e organizações da sociedade civil têm responsabilidades distintas, mas podem compartilhar objetivos. Nenhum desses atores, isoladamente, será capaz de responder à complexidade dos desafios que temos pela frente.
O ES em Ação nasceu há mais de duas décadas a partir dessa compreensão: o desenvolvimento do Espírito Santo exige protagonismo compartilhado, diálogo e capacidade de construir agendas que ultrapassem interesses individuais e ciclos de governo. Hoje, diante de um novo salto de investimentos, essa cultura se torna ainda mais necessária.