Dados do Cadastro Único indicam que quase 400 mil pessoas estão em situação de rua no Brasil. O crescimento é de cerca de 50% em menos de três anos. Parte da alta pode refletir maior cobertura cadastral.
Ainda assim, uma variação dessa magnitude deveria colocar o tema entre as prioridades da agenda pública. O mais preocupante é que ainda não parece haver consenso sobre o diagnóstico nem clareza sobre quais políticas funcionam melhor.
A primeira dificuldade está em entender o que leva tantas pessoas às ruas. Dados do Ipea mostram que 54% apontam alguma motivação econômica para chegar a essa condição. Conflitos familiares e uso abusivo de álcool ou drogas também aparecem com frequência. São as razões apontadas pelos próprios entrevistados.
Já as avaliações de saúde acrescentam outra dimensão: uma meta-análise internacional encontrou algum transtorno mental atual em cerca de dois terços das pessoas em situação de rua. Estudos realizados no Brasil reforçam esse diagnóstico.
Não há, por isso, uma solução mágica. Mas algumas experiências merecem atenção. O Housing First, ou “Moradia Primeiro”, é uma delas. A proposta é oferecer moradia permanente logo no início para pessoas em situação de rua e, a partir dessa estabilidade, organizar o acompanhamento de saúde e assistência.
Em um grande experimento canadense, 73% dos participantes atendidos pelo Housing First estavam em moradia estável depois de um ano, contra 31% daqueles submetidos ao atendimento convencional. Um resultado dessa magnitude justifica considerar a abordagem no desenho das políticas.
Mesmo quando se sabe o que pode funcionar, transformar conhecimento em resultado exige coordenação. Uma pessoa pode precisar de moradia, tratamento de saúde mental, documentação, assistência social, renda e reinserção no trabalho.
No Brasil, essas atribuições estão distribuídas entre órgãos e diferentes níveis de governo. A pessoa é uma só; o Estado a divide em departamentos. Se nenhuma dessas áreas consegue enfrentar o desafio isoladamente, quem responde quando elas precisam funcionar juntas?
Essa fragmentação aparece também na forma como os governos medem o que fazem. Costumam contar abordagens realizadas, vagas oferecidas, benefícios concedidos e atendimentos prestados. São informações necessárias, mas dizem pouco sobre o resultado final.
Alguém pode passar por vários serviços públicos e permanecer exatamente na mesma condição. O desafio é fazer com que essas frentes deixem de apenas administrar partes do problema e consigam, juntas, produzir uma saída duradoura.
É fato que viver em sociedade pressupõe liberdade de escolha e responsabilidade individual pelas próprias decisões. Mas há um limite para considerar normal que trajetórias de profunda vulnerabilidade terminem na rua.
Quando quase 400 mil pessoas vivem nessa condição, esse limite parece ter sido ultrapassado. A escala do problema exige prioridade pública, evidência para escolher o que funciona e liderança para fazer acontecer.