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Pobres amontoam-se em filas, e autoridades brigam pelos altos salários

Embora o coronavírus tenha nos nivelado e seja bastante democrático, ele também esfrega em nossa cara as contradições do país e do Estado e a hipocrisia que impera na sociedade

Publicado em 17/05/2020 às 05h00
Atualizado em 17/05/2020 às 05h02
15/04/20 - Agências bancárias registram filas gigantescas para receber auxílio no Norte do ES
Fila para retirar auxílio em agência bancária no Norte do ES . Crédito: TV Gazeta Norte/Reprodução

Desde que chegou ao Espírito Santo, a pandemia do novo coronavírus cresce exponencialmente. O primeiro caso de que tomei conhecimento no Território do Bem foi de uma empregada doméstica que trabalhava na Praia do Canto. Certamente ela não foi contaminada em uma das viagens anuais para a Disneylândia feitas pelas empregadas domésticas. O vírus chegou até nós pela classe média e rica do Estado.

Com o contágio comunitário, a linha invisível do apartheid social que separa os ricos dos pobres, como a Avenida Leitão da Silva, deixou de existir. A pandemia é bastante democrática, interreligiosa e apartidária. Ela atinge todas as classes sociais, sem distinção de cor, idade e gênero. Embora o vírus tenha nos nivelado, ele também esfrega em nossa cara as contradições do país e do Estado e a hipocrisia que impera na sociedade.

Os números mostram que as desigualdades sociais matam mais do que a Covid-19, como demonstra a jornalista Aline Nunes, em A Gazeta: “o vírus está por todo lugar, mas a morte tem um endereço certo: 80% dos óbitos na Grande Vitória foram registrados em bairros de periferias.

Do total de 129 mortes registradas até quinta feira (7) na região – Vitória, Vila velha, Serra, Cariacica e Viana – pelo menos 106 ocorreram em comunidades populares, demonstrando que a letalidade da doença tem um índice desproporcional se comparado a bairros de classe média e alta.”

Na Paróquia Santa Teresa de Calcutá tem sido constante a peregrinação de milhares de pessoas em busca de cesta básica, e o mesmo está acontecendo em diversas igrejas da Arquidiocese e outras instituições religiosas. Mulheres com o rosto vincado pelo sofrimento, em busca da caridade alheia para matar a fome dos seus, com uma cesta básica de, no máximo R$ 70. E ficamos aliviados com a caridade que fazemos. Certamente, para quem tem fome faz muita diferença.

Mas por quanto tempo? Como se não bastasse a luta e a incerteza do alimento de cada dia, entre o pão e o sabão, apareceram as filas da morte. Milhares de capixabas amontoados, sem que nenhuma autoridade pública tome uma atitude para lidar com as filas dos pobres lutando para receber R$ 600.

Enquanto os pobres caminham para a fila da morte em busca de um auxílio que nem sempre vem, os chefes do Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas e Defensoria Pública, confortavelmente, digladiam-se virtualmente, para manter altos salários e privilégios, indiferentes ao que acontece na vida real.

*O autor é vigário Episcopal para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória

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